Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

Terra queimada

Pinhal de leiria.jpg

Alexandra Lucas Coelho na sua crónica na Antena 1 que na passada sexta-feira ouvi acidentalmente, relativizava a importância histórica do Pinhal de Leiria agora destruído pelo fogo, com o facto daqueles pinheiros terem servido para o trafico de escravos, e que o incêndio é afinal uma oportunidade de requalificação daquele espaço. Na segunda-feira anterior, ainda com o País a arder, a arguta ex-namorada de José Sócrates e jornalista do Diário de Notícias, publicava uma crónica de protesto contra a estátua que homenageia o Padre António Vieira no Largo Trindade Coelho em Lisboa, que classifica como uma “celebração racista do imperialismo e colonialismo”. 

Imbecilidades em todas as épocas se disseram, mas acontece que não saiam da taberna ou da viela em que eram proferidas. Mas preocupa-me que a boçalidade tenha adquirido o estatuto que tem por estes dias, oriunda das franjas marginais da esquerda, num discurso que se vai chegando subtilmente ao "centro político" – só assim se entende o protagonismo concedido a estas duas sinistras personagens no espaço público através de dois jornais chamados de referência e pela rádio do Estado. De resto este protagonismo exagerado destas figuras só é possível pela pobreza do nosso País com uma classe média frágil, volúvel e com fraco sentido crítico. A história de Portugal é um assunto sério que não necessita de revisionismos nem de requalificação trendy. Para o bem e para o mal é dessa Históra que somos feitos, e de que resultam também Câncios, Lucas Coelho e outras desgraças. Isso não significa que capitulemos perante a imbecilidade. Porque a História é um campo de batalha ideológico que se deve reger por uns mínimos de moralidade, não é terra queimada.

Rei Dom Manuel II, patriota, bibliófilo e bibliógrafo

 

 

O auditório da Biblioteca Nacional encheu-se para a conferência organizada pela Real Associação de Lisboa sobre o rei Dom Manuel II homem de cultura com Prof. Dr. Artur Anselmo. Um fim de tarde de grande elevação cívica e patriótica, quase fazendo esquecer a decadência do Portugal de hoje. Se o país tivesse seguido o exemplo daquele bom, honesto, inteligente e sensato jovem monarca, hoje estaríamos certamente mais cultos, mais serenos, prósperos e civilizados.

A bandeira do mar e do céu

 

Genoveva Mayer Ulrich, que usou o pseudónimo literário e mundano de Veva de Lima, mãe da educadora Maria Ulrich, presenciou em Dezembro de 1918 os festejos parisienses do fim da primeira guerra mundial. Do seu relato, publicado meses depois, num jornal de Lisboa, que permanece esquecido, reproduz-se um excerto que diz tudo sobre a emoção da autora ao avistar a mais linda bandeira nessa festa «quadro de epopeia».


                                                                                                     Vasco Rosa

 

Paris! — mirífico espectáculo! Nunca essa linda jóia citadina revestiu, nestas horas rápidas, mais fulgor na sua face explendente para esconder no mais profundo dos seus antros a miséria e a ruína que a devoram.

  Onze nações consteladas de fardas imortais espalham os seus exércitos em farândola gentil, como um espargir de flores que se desprendem pelo coração da França, pelas ruas de Paris. E nesse burburinho fantástico de idiomas infinitos, os mil fardamentos de todas as terras enxameiam com a sua mancha de sugestões épicas na multidão monstruosa que a rodeia. Paris, por momentos, parece estalar no apertão titânico do seu movimento, comparável a um areal monstro que se fosse engolfar na concha delicada de um rochedo.

[…]

Um dia após o clamor das fanfarras guerreiras ter anunciado ao mundo o fim das batalhas e as redentoras promessas da Paz, os chefes dos países vitoriosos quiseram prestar à França a justa homenagem pela sua primazia de glória. Anunciaram-se os cortejos; as ruas do percurso encheram-se de cada lado de filas compactas de assistentes. Na Avenida dos Campos Elíseos as fachadas dos palácios crivaram as suas janelas, os seus varandins, até aos beirões dos telhados, de vultos femininos. Improvisaram-se estrados à beira dos passeios; pelos troncos das árvores, como cachos de pardais, a garotada jocosa da rua suspendeu os seus balcões e ao longo de todas as grandes ruas do trajecto fizeram guarda de honra as tropas vindas do front com as suas fardas ainda ruças e chamuscadas de metralha.

Havia silêncio e solenidade na expectativa e as baionetas, floridas pelas mulheres, punham a nota de ternura gentil naquele quadro de epopeia.

Tarde turva de bruma que o azul grisalho dos uniformes anilava dum impalpável véu e numa extensão incomensurável.

As bandeiras de todos os países aliados flutuavam em milhares de panóplias polícromas nas paredes de alto a baixo e num só ritmo brando. Um grande silêncio suspendia o grande ímpeto de ovação que a rua ia clamar, e esse silêncio electrizado era como o fuzil de onde sairia a faísca para agitar, na mesma vibração, alguns milhões de seres.

Enfim, um troar estrepitante duma salva longínqua anunciou à cidade o cortejo em marcha.

 […]

E o cortejo passou…

Entontecida pelo turbilhão das massas que se dispersavam em redemoinhos doidos, sentia uma intraduzível e inexplicável tristeza. Milhares e milhares de bandeiras revestiam por completo as fachadas das casas. Em vão procurei uma bandeira de cores feias, que no entanto devia ter o seu lugar entre tantas que se cruzavam. Bandeira de cores feias? Que importam as cores? É a bandeira portuguesa, que nos campos da Flandres serviu de manto a muitos corpos de heróis. Estrangulada por uma das que me vexava murmurei: — França ingrata! Sempre o forte!… Mas como que sonhando, aos meus olhos que se perturbavam de repente, desenrolada em todo o seu pano, suspensa nas janelas dum grande edifício bancário uma grande bandeira linda. Sim! Era bem aquela: azul e branca! Ao centro o escudo vermelho, as quinas, a coroa real, e a evocação e aglória também daquelas cores e daquele escudo, e toda a epopeia igual à que ali também se erguia: os mares, a civilização por Ela levada a novos continentes, as terras de África arrancadas palmo a palmo e em que ainda há pouco flutuava. Sim, com lágrimas senti Portugal naquelas cores, senti enfim uma coisa doce e triste que se chama a saudade e que daquelas cores me vinha lembrando as nossas margens de brancas espumas e o nosso céu de límpido azul. E impelida pela turba ruidosa, afogada em nostalgia, vagabundei sem rumo com o sentimento melancólico de soledade que se tem entre as multidões. Mas as fortes evocações fazem milagres… Na vozearia ensurdecedora da turba, umas vozes sonoras em coro cantavam. Virei-me. Cinco soldados portugueses, enlaçados como em dança campestre, cantarolavam uma canção portuguesa: Saricoté… olé… olé… ó… Saricoté.

[…]

 

                                                                                                     Veva de Lima

O Problema é outro

         

Cada vez que morre uma grande figura das letras e das artes, da história e da política — ou seja, alguém que num país pequeno como Portugal alcançou ser um humano único e exemplar — a quem por cá fica é automaticamente criada uma dívida de respeito e gratidão também póstuma que as mais das vezes nunca chega a ser paga como deveria.

Este é dos maiores problemas da nossa sociedade: o esquecimento, a ideia, verdadeiramente perigosa, de que tudo começa e acaba no limite do nosso horizonte pessoal ou do nosso século, sem que seja ponto de honra conhecer razoavelmente os altos e baixos, as glórias e as insânias da história pátria, no torrão e na diáspora, bem entendidos. O facto de ter sido dada larga primazia, nas últimas décadas, à criação em detrimento da conservação, pulverizou ainda mais a debilidade deste cenário identitário ancestral, que precisa de ser reinterpretado à luz de novos conceitos e de novas abordagens pois será sempre o húmus em que nascemos e nos erguemos.

Não há dúvida de que o trabalho de Rui Ramos veio abalar o registo historiográfico estabelecido, afinal um pastel de preconceitos e de mitificações politicamente vinculadas, e a clareza, ousadia e sucesso da sua releitura ofenderam todos aqueles que na universidade se julgavam consolidados por décadas de domínio marxista.

A birra de Manuel Loff (figura menor, que ninguém lembra o que terá feito), além de tardia e desajeitada, é só a ponta dum icebergue. A questão não é como Ramos considerou Salazar, mas como desmascarou Cunhal, não vos parece?

Numa crise destas, de que o económico-financeiro é apenas um espelho negro, o país precisa dum pacto patriótico com um rijo instinto de salvaguarda, que a esquerda, fixada no aqui e agora tudo, não consegue de interpretar devidamente, porque lhe falta o sentido nacional de uma comunidade muito antiga que não pode acabar. O que precisamos é de conversar e de criar uma base de entendimento em que todos «trabalham» para defender o país, como se vivéssemos um pós-guerra de que é preciso renascer. Temos ao lado a Espanha que nos dá um exemplo já secular disso mas nem sequer esse vemos. Vai ser duro, vai ser feroz, vai ser demorado, mas sem esse sentido nacional nada se alcançará. A esquerda que entenda isso, se puder!!

Uma coisa é certa, porém: não serão presidentes como Cavaco ou Marcelo (nem Soares ou Sampaio, nem Costa) que vão criar esse vínculo patriótico, que só o carisma da Coroa pode fermentar. Sejamos realistas, pois.

 

Vasco Rosa no Corta-fitas

Escola para a submissão

  

Como educador de quatro crianças, encontro amiúde uma tão premente quanto velha questão com a qual fui de novo confrontado há dias ao ajudar a minha filha num trabalho de História do 6º ano sobre a Revolução Francesa: acontece que passam governos de direita e de esquerda, passam anos e décadas depois do PREC e nós conformados que se continue a ensinar às criancinhas a disciplina de História sob a óptica do Materialismo Histórico. Acontece que dá muito trabalho desmontar da cabeça duma criança a perspectiva do passado maniqueísta, repleta de juízos explícitos sobre uma Nobreza opressora, um Clero interesseiro, uma Burguesia gananciosa e o povo oprimido, vítima de tudo o mais. Ensina-se aos miúdos que a História da humanidade é um campo de batalha entre classes sociais (tornadas entidades corpóreas auto-conscientes), entre opressores e oprimidos, uma ascendente sucessão de acontecimentos, cujo desenlace é a vitória dos bons contra os maus, consubstanciada na modernidade dos dias de hoje.
Infelizmente ou felizmente a coisa não funciona assim e percebe-se que seja considerado perverso pelos pedagogos do regime revelar às criancinhas certas “fontes”, factos e pensamentos que denunciem a prevalência de um relativismo casuístico na História.
De facto como referia há umas semanas Filipe Paiva Cardoso, no jornal i custa a aceitar que o nosso país não tenha a força para reclamar o lugar de topo na história da civilização, quando, quase cento e cinquenta anos antes da Tomada da Bastilha, exibe num seu documento fundacional, a legitimação democrática de D. João IV, no assento das cortes de Lisboa em 1641, algo como “[...] sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins [vida, liberdade e felicidade], cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la” – e “Nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela [nação] não emane expressamente”.
De resto, quase duzentos anos depois de outorgada Carta Constitucional, nesta república modernaça e democrática por acaso hipotecada aos estrangeiros, alguém acredita que a igualdade do cidadão perante a lei já tenha passado das intenções à realidade? E sabiam V. exas que, ao contrário do que acontecia na Idade Média a que eles chamam “das Trevas”, hoje neste País é possível adquirir-se um relógio por 5.000.000 euros ou um Yacht por 500.000.000,00 de euros, enquanto uma família dos subúrbios de Lisboa vive com 500,00 euros por mês, e uma outra em África sobrevive com um por dia? Querem impingir uma linha condutora a isto tudo? Haja paciência!

Lei de talião

 

A ser verdadeira a notícia publicada hoje no Correio da Manhã de que, além da eliminação acordada com a Igreja dos feriados Assunção de Maria e Corpo de Deus, o governo propõe o fim dos feriados de 5 de Outubro e do 1º de Dezembro, tal aparenta ser uma medida que visa reciprocidade, no contraponto de duas sensibilidades políticas marcadas na nossa cultura; no fundo para assim calar as hostes com uma espécie de lei de talião: nem “tradicionalistas” nem “progressistas” (e desculpem-me estes equívocos chavões) se ficam a rir. Esta solução aparentemente equitativa esconde um grave engano, já que, sendo consensual que a revolução de 5 de Outubro dividiu profundamente o país, é inegável que a restauração da independência uniu os portugueses em torno dum projecto de independência e soberania, hoje mais do que nunca ameaçado. A decisão de acabar com o dia da Restauração encerra um enorme simbolismo: quem é que por estes dias quer saber verdadeiramente dessa coisa extravagante chamada soberania, ou ainda desse capricho da “independência”

Uma Princesa radical

Ontem, por ocasião duma pequena entrevista para o próximo número do Correio Real, desloquei-me com o nosso ilustre presidente João Mattos e Silva à outra banda onde tivemos o privilégio de privar por umas horas com uma verdadeira Princesa, tão ou mais encantada que as dos romances e do cinema: falo de D. Maria Adelaide de Bragança, infanta de Portugal, que por insólita conjugação de duas paternidades muito tardias e da sua provecta idade, é hoje uma neta viva do rei D. Miguel, esse mesmo do absolutismo e do tradicionalismo, da guerra civil de 1828 – 1834. 

D. Maria Adelaide nasceu em 1912 no exílio, em St. Jean de Luz, cresceu e viveu na Áustria aventuras e desventuras de pasmar: habitando no olho do furacão, após a I Grande Guerra  coabitou com os ocupantes comunistas da quinta em que vivia, dos quais recorda dos seus esbeltos cavalos e boinas vermelhas. Mais tarde, durante a ocupação nazi, foi presa pela Gestapo por várias semanas em Viena onde como enfermeira se juntara à resistência e acudia os feridos entre bombardeamentos. Foi nestas correrias e aflições que veio conhecer um estudante de medicina de seu nome Nicolaas van Uden com quem casou. 

Regressada a Portugal em 1948 após a revogação da lei do banimento, a Infanta veio residir perto da Trafaria, onde criou a Fundação D. Nuno Álvares Pereira, instituição de apoio a mães pobres em fim de gravidez e crianças abandonadas, dedicando fervorosamente a sua vida aos mais desfavorecidos.

Longe das fugazes ribaltas e feiras de vaidades, a Senhora D. Maria Adelaide, afilhada de baptismo de D. Amélia e D. Manuel II, hoje com noventa e sete anos, além de constituir um precioso testemunho vivo, directo e indirecto, da História dos últimos duzentos anos, é um verdadeiro exemplo de profunda Nobreza aliada a uma invulgar bravura e irreverência. 

A Real Associação de Lisboa é uma estrutura regional integrante da Causa Real, o movimento monárquico de âmbito nacional. Esta é uma associação que visa a divulgação, promoção e defesa da monarquia e da Instituição Real corporizada na Coroa Portuguesa, cujos direitos dinásticos estão na pessoa do Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e em quem legitimamente lhe vier a suceder. Cabe a esta associação a prossecução de iniciativas e de projectos de interesse cultural, social, assistencial e de solidariedade que visem a dignificação, a valorização e o desenvolvimento dos seus associados e da comunidade em que se insere.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D