Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

Evocação de Henrique Barrilaro Ruas, por Augusto Ferreira do Amaral

HBR.jpg

Agradeço muito à Real Associação de Lisboa, na pessoa do seu Presidente, João de Lancastre e Távora, a honra que me oferece de apresentar este livro em boa hora editado. E também por me dar a oportunidade de evocar Henrique Barrilaro Ruas, saudoso amigo e companheiro, que tanto admiro e com quem tanto de valioso aprendi.

Uma vez, a propósito já não sei de que transe político por que tínhamos passado, não resistindo ao que, havia muito, me ia na alma, atirei-lhe, como encómio, com a mais pura das sinceridades: «O Henrique é um Santo!». Ele riu-se, embaraçado, e negou-se, com humildade, tal qualificação, balbuciando a sorrir suaves protestos. Mas eu estava a dizer a verdade. Se a Política alguma vez foi compatível com a Santidade – o que é decerto, no mínimo, fortemente duvidoso - o santo foi Henrique Ruas, como melhor adiante justificarei.

Eis por que é para mim um gosto enorme poder trazer a público e desabafar com todos os presentes alguns dos que julgo serem aspectos mais relevantes desse notável português.

Cabe-me fundamentalmente apresentar um livro. Nesse plano – digo-o com a maior convicção – o livro merece todo o elogio. Não é apenas a iniciativa, em si, de recolher textos importantes e significativos de Henrique Ruas, que andavam dispersos e respeitavam a épocas e circunstâncias diversas.

Para um autor que era, sem sombra de dúvida, um intelectual profundo e um persistente militante político, influente do percurso do País, faz-se mister uma biografia cuidada. Mas tal não será possível sem uma atenta e paciente recolha e tratamento da produção escrita de Ruas, em grande parte disseminada por situações e publicações as mais diversas. Ora é esse labor o que determina a realização deste livro. Bem hajam, pois, os seus autores e impulsionadores, desde o organizador da recolha de textos, Vasco Rosa, cujo trabalho foi conseguido com bastante felicidade, passando pelo editor, a Real Associação de Lisboa, que presta um bom serviço à cultura e à história portuguesa dos nossos dias, até o prefaciador, Nuno Miguel Guedes, que nos brinda com um interessante e vivo depoimento sobre Henrique Ruas intelectual e político.

Acertado, também, foi o critério seguido para a organização desta antologia. É verdade que se não trata duma recolha exaustiva e nem sequer rigidamente sistematizada, como haveria de ser, se se destinasse a fins académicos – nem certamente seria esse o objectivo mais instante do momento presente. Mas é um primeiro approach muito útil, que terá o efeito de alertar o público para a memória dum notável vulto da verdadeira Política da segunda metade do século XX português.

As minhas enfáticas felicitações, pois, a todos os que levaram a efeito a realização deste livro.

Permitam-me, contudo, que aproveite a ocasião para falar um pouco, não já da antologia, mas do autor dos textos reunidos.

E digo falar, porque não está ao meu alcance nas circunstâncias actuais, ao abordar a memória de Henrique Ruas, ultrapassar a mera forma breve e coloquial. Vou tentar pois uma síntese que patenteie o que julgo serem as principais linhas de força do seu pensamento e da sua praxis.

Uma delas foi o seu patriotismo (que resulta, aliás muito claro dos textos agora antologizados). Mas um patriotismo declaradamente distante do nacionalismo e avesso, até, a qualquer resvalamento hegeliano. O patriotismo dele era natural e histórico (senão mesmo quase historicista). Sem se alimentar, sequer, do maurrasianismo, como ele explicitamente declarava.

Por isso seria o mais autêntico dos patriotismos, porque o dele era sempre um patriotismo radicalmente português. Não pedia emprestada qualquer ideologia de fora. Falava numa pátria na acepção que só um português podia falar, como o fez Camões (aliás figura histórica da sua predileção). Só não era telúrico à maneira dum Torga, porque, baseado ultimamente nos seus princípios filosóficos, não havia lugar, nele, para a tentação materialista.

E assim o modo como abordava a doutrina que propugnava impedia a comparabilidade das suas ideias com as de pensadores valorizadores do passado, mas de raiz positivista, como era Maurras.

A segunda grande linha de força era próxima e coerente com esta. Ruas era profundamente monárquico.

A monarquia, para ele, era essencial a Portugal. Não apenas por razões utilitárias. Fazia parte integrante da nossa condição de portugueses. Porque a monarquia era fundacional, indissociável da forma como o País nascera, da forma como evoluíra, da forma como se relacionara com o mundo inteiro, da forma como congregara os que nos antecederam, da forma como se achava imbricada em todo o desenrolar diacrónico da comunidade ao longo dos largos séculos que deram origem à nossa efémera actualidade. E, no futuro, velaria pelo que nos é essencial e imorredouro, para além da variabilidade da nossa actuação de portugueses.

Uma terceira linha de força: o imperativo da ética como fundamento da política.

O eticismo sem concessões perpassava por todo o seu pensamento e vertebrava toda a sua acção política. A política não constitui um fenómeno alheio à ética, nem lateral desta. Pode bem dizer-se que Ruas era – sempre foi até o fim – um anti-Maquiavel. Na sua visão, a política subordina-se à moral. É um desenvolvimento dela. Não faz sentido – nem é recomendável – se dela se desvia ou segue uma via própria, emancipada da raiz ética; e muito menos se tem a conquista do poder como objectivo predominante. Não se limitava a perfilhar este ponto de vista teórico. Tinha a permanente preocupação por realizá-lo, sempre que intervinha em pleno terreno da Polis. Ao longo dos anos me não lembro de qualquer opção que haja feito ou voto que haja dado, que não passasse por uma apreciação fundamentalmente ética e quase insensível aos interesses práticos do momento. A sua moral era, por seu turno, marcadamente anti-utilitária, anti-positivista e anti-nietzschiana. Provinha dos axiomas e princípios fundamentais filosófico-religiosos que sempre o guiaram.

Uma quarta linha de força era o seu humanismo arreigadamente personalista. Via na pessoa humana um valor em si, dado expressamente por Cristo na sua revelação da vontade de Deus. Por isso não era nem podia ser adepto das preferências colectivistas, de direita ou de esquerda, que pusessem em causa a liberdade. É certo que a sua pessoa humana não era uma entidade abstracta, isolada do contexto social e histórico concreto em que brota. Esse contexto, longe de a apagar, mais reforça a especificidade e a superioridade do Homem (nesses tempos ditosos ainda não era necessário dizer “homens e mulheres”…). Sempre manteve uma visível repulsa pelos sistemas que isolam o indivíduo dos seus contextos intermédios e o põem à mercê, indefesa, do Estado ou duma qualquer vanguarda revolucionária.

Por isso, era Henrique Ruas, firmemente, um inveterado humanista. Quanto não sofreria ele hoje, se ainda connosco estivesse, e assistisse ao ataque ao humanismo que está em curso; quer devido à influência larvar do estruturalismo e dos desconstrutivistas, escolas filosóficas, geradas pela França decadente, que pareciam ter morrido sem honra nem glória; quer ao combate impiedoso, astuto, universal e multifacetado que vem sendo dirigido contra a família, instituição que é o grande sustentáculo do verdadeiro e forte humanismo; quer ao abandono matreiro e sofístico de direitos fundamentais da pessoa humana, como são os excessos do estatismo, o frenesi da saúde pública e dos big brothers que se arrogam serem a sua guarda sacerdotal, o fecho das opções do cidadão e do consumidor, a apologia da eutanásia e do aborto; quer ainda à perversão da nova idolatria totemisma acéfala e irracional, que crescente e perigosamente retira direitos da pessoa humana e os transfere para os animais; quer mesmo os exageros do fundamentalismo ecologista, que transcende a razão, o senso e a ciência, e tende a minar qualquer filosofia da história que possa qualificar-se como humanista. Não tenho dúvidas de que Ruas, que era um sincero e lúcido ecologista, em grande parte, tal como eu próprio, pelo magistério do nosso grande companheiro da política, Gonçalo Ribeiro Teles, não hesitaria em verberar com firmeza estes nóveis prosélitos do híper-ecologismo, que deturpam e caricaturam a causa do ambiente, e dela se aproveitam com vista a destruírem raivosamente os sustentáculos da sociedade humanista, em serviço duma utopia que nem eles próprios sabem racionalizar.

Outra linha de força de Henrique Ruas, possivelmente aquela que mais valorizava e que tão fielmente reflectia na prática, era o seu pensado e acrisolado cristianismo. Cristão autêntico, por convicção e por prática, bem pode dizer-se que a sua fé foi o mais presente e indeclinável guião ao longo da sua vida, maxime na Política, em que de perto o conheci. O seu desprendimento, a ausência de qualquer egoísmo ou egocentrismo como motor da sua carreira, o absorvente apelo que sentia do serviço à comunidade, a bondade e pureza de sentimentos com que o fazia, a imensa compreensão que sempre usava para com os que dele divergiam, a sua aposta franca nos valores e no Reino de Deus, fazem da sua intervenção na Política, um exemplo de verdadeira democracia cristã, cuja causa, de resto, abraçara desde muito novo.

Há todavia ainda uma outra faceta que funcionou como linha de força da sua conduta, porventura menos conhecida do grande público - a abertura ao outro, e ao pensamento e acção do outro. Mais do que tolerância, era uma atitude que, longe de se afunilar, tendeu a aumentar com a madurez do seu espírito. Quem apenas ler os seus escritos, mesmo na forma ampla como estão selecionados no livro agora apresentado, não fica cabalmente no conhecimento desta sua faceta. Só quem com ele teve a dita de fazer política, o pode mais completamente testemunhar.

Henrique Ruas, que parecia na sólida sobriedade dos seus escritos, em muitos aspectos, um reaccionário obstinado, estava muito longe de sê-lo na prática da política. Pelo contrário. A impressão global que guardo dele é, não a de quem se fechou numa torre de marfim onde, à defensiva, sustentasse com rigor todo um ideário pregresso, corporizado e imobilista, mas sim de quem foi apurando a essência dos valores fundamentais que perfilhava, descartando todo o lastro anacrónico, e adaptando-os, por forma crescentemente aberta, às realidades móveis da comunidade portuguesa.

Ele começou por ser um ortodoxo integralista. Parecia fadado para uma rejeição das novas instituições liberais que foram o espectro contra o qual tanto sobressaiu o Integralismo. E para uma prática conformista com o regime salazarista, que tanta influência recebeu, diga-se o que se disser, daquele conspícuo movimento cultural e politico. E, no entanto, não foi assim. Acabou, nos anos finais desse regime a alinhar com os movimentos oposicionistas e a participar, mesmo, no Congresso da Oposição de Aveiro. E fê-lo, quando isso doía e era inoportuno para o establishment, e não por motivos tácticos (a táctica era uma técnica a que Ruas era bastante avesso e adverso). Fê-lo por razões de princípio. Ao fundar, após a convergência monárquica, o PPM, pareceria que viria a ser o campeão, neste, de instituições, como a representação orgânica e autárquica, ditas tradicionais. Mas não foi assim. Aderiu na prática, com grande sinceridade, à representatividade parlamentar, ao sufrágio directo e universal e à liberdade de expressão do pensamento conotadas na altura, pelo vulgo, com o ideário demo-liberal. A sua simpatia pelo comunalismo e pelas liberdades municipais nunca o levou ao ponto de rejeitar as formas modernas mais gerais de organização do poder político. No Parlamento convivia amigavelmente com deputados da esquerda, mormente do MDP-CDE. É certo que sempre se manteve algo desconfiado e reservado sobre a existência permanente de partidos políticos, porém numa dose em que, possivelmente, até qualquer bom democrata lhe dará razão, tendo presente a partidocracia clubista em que Portugal excessivamente se deixou enredar, até hoje. E certo é também que sempre encarou com pouca simpatia a nossa adesão à União Europeia, provavelmente influenciado pelo zelo que nutria pela glória do passado português. Mas a afinação coerente do seu ideário político, que constantemente demandava, levou-o a abandonar a acentuação desse anti-europeismo e a centrar-se de preferência na propugnação de soluções mais actuais, requeridas pelos princípios fundamentais que o guiavam. Na prática, acabava por aceitar sem grande esforço tais realidades novas dum País que desejava sempre respeitador da sua existência transtemporal, mas caminhando no sentido indeclinável da democracia. Assim evoluindo, depurava os seus sólidos princípios por forma a manter-lhes a essencialidade, e jogava com franqueza e grande fair-play em campo aberto, e com o jogo sério da política, que aliás só antagonizava quando afectava directamente tais princípios. Era nisso, como em tudo, duma impressionante coerência.

Como é óbvio, Ruas não era deste “mundo”, se entendermos que este mundo era, e é, o da política baixa e rasteira, do mediático, dos interesses, das habilidades, das farsas, dos golpes, e do economicismo materialista. Neste dito “mundo”, com letra pequena, era ele voluntária e conscientemente, um desastrado. Por isso nunca visou as glórias de si próprio nem os favores nem as delícias do poder.

Mas também por isso, estou a falar dum Homem com H grande, brilhante e bom. De um Homem de quem recordo o exemplo, de quem me orgulho de ter sido companheiro político e por quem sinto a mais grata das saudades.

Augusto Ferreira do Amaral *

 

* Discurso de homenagem a Henrique Barrrilaro Ruas na apresentação do livro "Liberdade Portuguesa" no Centro Nacional de Cultura em Lisboa, a 17 de Outubro de 2019 

Veja o registo vídeo aqui

Elogio dum amigo

Vasco_eu.JPG

Por volta de 1980, quando conheci João Távora, ambos amigos e colegas de liceu de diferentes filhos de Helena e Alberto Vaz da Silva, eu estava longe de imaginar — e ele certamente também — que um dia nos haveríamos de sentar a esta mesa para este momento tão especial de homenagem e lançamento duma antologia de uma das figuras mais nobres da vida política e parlamentar portuguesa daquele tempo, Henrique Barrilaro Ruas, que, com as suas longas barbas brancas, grossos óculos de massa e apenas algumas résteas de cabelo acima da testa, surgia certamente aos olhos dos jovens que então éramos como arauto duma ideia de Portugal, muito antiga sem dúvida mas cheia de dignidade e afinal de contas de uma sensatez iluminada e luminosa: a ideia de monarquia popular.

Sorte a nossa, que nos voltámos a encontrar regularmente desde 2008, quando um grupo heterogéneo decidiu contrariar, na blogosfera, as milionárias comemorações do centenário de um desastre e a glorificação dum duplo homicídio, então levada às escolas do ensino primário sob a forma arrepiante de uma canção de louvor a assassinos. Esse movimento dinâmico ajudou a impulsionar a Real Associação de Lisboa, onde, com Mattos Silva e Nuno Pombo, entre outros, João Távora iniciou e desenvolve ainda um trabalho de grande projecção e generosidade, sem o qual este livro A Liberdade Portuguesa não existiria.

Devemos-lhe muito, de facto. A colecção de livros Razões Reais, com três títulos lançados e um na calha, juntou-se em 2017 à publicação semestral do boletim Correio Real, actualmente com 19 números impressos, e desde 2017 órgão informativo extensivo a todas as associações regionais que formam a Causa Real. Quem sabe se estamos a caminho dum novo «dia inicial, luminoso e limpo» do verso de Sophia de Mello Breyner, neta do grande conde de Mafra, monárquica do Centro Nacional de Cultura, onde estamos, embora tal convicção não agrade aos seus comentadores habituais e a omitam sempre.

Se aqui faço o elogio de João Távora é também porque me sinto honrado por ele me ter permitido ser seu leal ajudante-de-campo — um pouco mais velho, é certo, embora não pareça — nessa batalha árdua e decisiva de prosseguir o trabalho de verdadeiros Gigantes como Henrique Barrilaro Ruas e Gonçalo Ribeiro Telles. Esta é apenas, e só, a retribuição humilde ao quão inspiradores eles foram para nós, como parte da geração de portugueses que cresceu com a revolução de 1974, como o prefácio de Nuno Miguel Guedes regista de forma inspirada.

Ora, o que este livro nos traz de volta, pela primeira vez, é tudo aquilo que desconhecíamos — ou conhecíamos menos bem — de anterior a esse marco histórico fundador, e do longo esforço desenvolvido durante décadas, em jornais como Debate. Semanário de crítica e actualidade ou em pequenas editoras como Gama, Aster e Biblioteca do Pensamento Político, para manter vivas a restauração monárquica e a defesa de um regime político original que a expressão agora em título — A Liberdade Portuguesa — exprime à perfeição.

Barrilaro Ruas teve incansável actividade nesses dois campos editoriais, o da imprensa e o dos livros, tendo impresso em 1971 uma escolha dos seus escritos a que chamou A Liberdade e o Rei. Estava-se num período charneira da vida portuguesa, em que grupos e personalidades monárquicos tiveram intervenção oposicionista relevante, ainda que o que prevaleceu depois, por influência esconsa, fosse uma imagem tradicionalista e comprometida que era aquela que mais convinha, afinal, a quem preferiu chamar a si todo o exclusivo da resistência política e da intervenção democrática. A Liberdade e o Rei nunca foi reeditado, o que a acontecer teria de acrescentar quanto o autor escreveu para jornais democráticos no pós- Novembro de 1975 — e juntar essas duas partes foi de certa forma o que preferimos agora fazer neste livro, com todas as limitações de pesquisa e de produção editorial que a Nota de abertura esclarece, e devemos compreender e aceitar.

Em 2010, depois de semanas de pesquisas, inclusive junto do espólio conservado na Biblioteca Nacional e organizado pela historiadora Maria Teresa Mónica, e conversas com o editor Manuel Vieira da Cruz, apresentei a um conhecido grupo editorial sediado em São Sebastião da Pedreira um projecto de edição da obra completa de Henrique Barrilaro Ruas, que além dos seus escritos históricos e literários, como grande especialista de Luiz de Camões, reunisse os seus escritos monárquicos. Era a forma de assinalar condignamente, em Março de  2011, os 90 anos do seu nascimento, com quatro volumes calculados em c. 400 páginas cada, e a seguinte ordenação: I, Deus; II, Rei; III, Portugal; IV, Camões — mas tudo não foi além de uma conversa cúmplice e gentilíssima com o meu doravante amigo Vasco Silva, o leitor habitual da cadeira G8 da Biblioteca Nacional.

Que hoje, noutra circunstância mas com idêntica finalidade — a de honrar Henrique Barrilaro Ruas — este livro, A Liberdade Portuguesa, possa ser lançado pela esforçada Real Associação de Lisboa e no Centro Nacional de Cultura que ele ajudou a fundar e dirigiu, demonstra que apesar das contrariedades conseguimos levar adiante os nossos projectos e que uma «nova» geração de monárquicos — portugueses de serviço — parece afirmar-se preparada para levar avante o desígnio lúcido que recebeu de quem tão brilhantemente a precedeu. O caminho faz-se caminhando e nós aqui estamos, para o que der e viver.

Viva Portugal! Viva o Rei!

Muito obrigado, João!

Vasco Rosa*

*Discurso de apresentação do livro "Liberdade Portuguesa" de Henrique Barrilaro Ruas no Centro Nacional de Cultura em Lisboa, a 17 de Outubro de 2019

 

Saudade de Henrique Barrilaro Ruas (2)

O exemplo espanhol

 

 

Depois de todas as crises e perplexidades por que temos passado, não sei que exemplo mais claro poderia ilustrar a tese monárquica, do que o caso de Espanha. Não bastava já a lição de 1976, quando a presença do Rei à frente do Estado — por ser uma presença nacional, vinda do fundo da História para salvar a História — salvou a Espanha de uma nova guerra civil. Não bastava a continuada lição destes cinco anos de metapolítica em que a Realeza tem sido o grande factor de equilíbrio, de unidade e de justiça, no convulso panorama dos interesses, dos direitos e das próprias culturas em conflito. Veio agora a força da Monarquia revelar-se no seu mais claro rosto: apenas uma palavra, como imagem racional da Pátria comum; apenas uma vontade, definida na hora própria como expressão de um querer colectivo paralisado pela surpresa e pelos fantasmas.

Forma política, exactamente por se situar no plano transpolítico em que o Povo é cultura e espírito, a Monarquia pode acompanhar todas as experiências históricas e encaminhar para a liberdade as pessoas e as comunidades.

Quando se diz que D. Juan Carlos salvou a Democracia espanhola (e provavelmente o destino da Espanha) por ser o chefe supremo das forças armadas, é preciso acrescentar e esclarecer que de nada lhe valeria ser, na letra da Constituição, comandante supremo, se essa qualidade lhe não viesse do «ofício» de reinar. Nas horas em que o curso da História está suspenso e tudo é possível, não é bastante nenhuma formalidade — e o supremo comando, em República, não passa de formalidade. Em vão esbracejaria, numa Espanha republicana, o pobre detentor a prazo de uma ficção jurídica. Não é a fórmula que cria a realidade. No plano meramente legal, é a Constituição que faz do Rei comandante supremo das forças armanadas. Mas o que dá profundidade e dimensão histórica à Constituição é, neste ponto, a legitimidade institucional.

Saibamos nós recolher a lição deste exemplo.

 

Henrique Barrilaro Ruas in Amanhã!, órgão oficial do Partido Popular Monárquico, n.º 5, 1980, p. 1

 

contribuição de Vasco Rosa publicada também aqui

 

Saudade de Henrique Barrilaro Ruas (1)

República — o fim de uma mentalidade

 

Durante a I República, os monárquicos queriam restaurar a Monarquia contra o Governo. Na II República, a maioria pretendia a Monarquia através do Governo. Nesta III República, a posição dos monárquicos, pelo menos a dos mais significativos, que são os que aparecem agrupados em instituições, em forças políticas, é completamentediferente: defendemos que a Monarquia deve ser restaurada, ou instaurada, quando e da forma que o Povo Português quiser.

Mas a partir de 1974 foi visível, creio que cada vez mais visível, a degenerescênciada República. Durante o consulado de Salazar ela mantivera-se com a estabilidade que todos conhecemos, e de certo modo lhe censurámos, que era uma estabilidade artificial, mas que lhe dava uma certa respeitabilidade. Depois do 25 de Abril voltou-se em grande parte à I República, à balbúrdia, não tão sanguinolenta, mas sem deixar de ter aspectos deviolência – não podemos fechar os olhos ao que se passou no Ultramar. Mesmo na Metrópole, a existência de formas larvadas de violência, de ódios de classe, é qualquer coisa de muito forte, e a própria intriga palaciana dentro e fora dos partidos, à volta dos Governos, em torno dos Presidentes, constituem outros tantos argumentos a favor da Monarquia. Quer dizer, a República está a afundar-se. É um espectáculo deprimente, degradante. É preciso encontrar uma forma de equilíbrio que só pode estar para além do próprio jogo dos interesses em presença, quer económicos quer outros.

Contudo, penso que o facto de as características desta III República serem muito diferentes não nos deve deixar esquecer que o principal para a Restauração da Monarquia é a reforma da mentalidade. Sem uma verdadeira e profunda reforma não faz sentido instaurar a Monarquia, pois as diversas reformas do Estado perdem-se, e hoje é muito fácil destruir num dia o que se construiu na véspera. Portanto, sem uma reforma profunda da atitude mental das populações é muito pouco valiosa qualquer reforma estrutural.

 

Henrique Barrilaro Ruas, Portugueses. Revista de Ideias, 6-7, Fevereiro-Março de 1989, pp. 39-40

 

Grato por esta pertinente contribuição de Vasco Rosa publicada também aqui

A Real Associação de Lisboa é uma estrutura regional integrante da Causa Real, o movimento monárquico de âmbito nacional. Esta é uma associação que visa a divulgação, promoção e defesa da monarquia e da Instituição Real corporizada na Coroa Portuguesa, cujos direitos dinásticos estão na pessoa do Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e em quem legitimamente lhe vier a suceder. Cabe a esta associação a prossecução de iniciativas e de projectos de interesse cultural, social, assistencial e de solidariedade que visem a dignificação, a valorização e o desenvolvimento dos seus associados e da comunidade em que se insere.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D