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BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

Relembrar Gonçalo Ribeiro Telles...

Ribeiro Teles.JPG

Em devido tempo, o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles alertou para a necessidade duma regulamentação adequada da floresta portuguesa e de uma política agrícola que precavesse o abandono do interior do País. Para si, a Chefia de Estado Real era parte integrante duma concepção profundamente ecológica da Nação e em boa hora a Real Associação de Lisboa decidiu publicar em livro uma antologia de textos políticos seus, até agora dispersos. Perante os trágicos incêndios que se verificaram em Junho e Outubro, e confrontados com as suas mais profundas causas, era inevitável lembramo-nos das suas palavras sábias e do seu combate. Nós monárquicos sabemos que a Pátria se constitui não só pela língua comum que falamos, pela história e cultura de que somos resultado, mas também pelo território físico que ocupamos neste extremo ocidental da Europa, que a “República Portuguesa”, essa entidade abstracta, uma coisa “em forma de assim” com que nos querem designar e cuja única competência bem-sucedida é perseguir-nos para cobrar impostos, vem demonstrando uma absoluta incapacidade de administrar. Não há verdadeira soberania sem autoridade sobre o território. Nestes estranhos tempos de “realidades virtuais” e “simplexes”, a gestão responsável do território e do património físico de Portugal tem que ser uma prioridade para todos nós, e os monárquicos não estão isentos de o exigir com veemência aos seus governantes. Nós iremos estar vigilantes.

 

(Trecho do editorial do Correio Real nº 16)

Só se ama o que aquilo que se conhece

Ele próprio uma força da natureza, aos 90 anos Gonçalo Ribeiro Telles continua activo e atento aos problemas no nosso País, e muito preocupado com a falta de debate sobre o que verdadeiramente importa. «A utopia e os pés na terra», título de um livro que o Museu de Évora lhe dedicou em 2003, reunindo alguns dos seus escritos, condiz na perfeição com o espírito deste Mestre que tanto dignifica a causa monárquica e que tivemos o prazer e a honra de receber e entrevistar na sede da Real Associação de Lisboa de que é activo sócio.

 


 

A reforma administrativa proposta pela troika quer reduzir o número  de municípios portugueses e agregar juntas de freguesias. Que pensa disso?

Cortes geométricos feitos em função da população não têm a mínima sustentação, e essa reforma administrativa de nada valerá se não for ao cerne do problema. É que tudo isso tem de partir de uma verdade, que é a das nossas regiões naturais e históricas. A História conta muito…

Foi o que propusemos em 1982 [Regionalização: uma proposta do Partido Popular Monárquico, 17 pp.]: reunir os concelhos actuais em 50 regiões naturais, organizadas em 15 confederações de municípios no Portugal continental. Regiões naturais: Alto Minho, Lima, Cávado, Ave, Sousa, Alto Tâmega, Terra Fria, Terra Quente, Miranda, Baixo Tâmega, Panoias, Douro Sul, Alto Douro, Baixo Vouga, Gândaras, Bairrada, Baixo Mondego, Leiria, Viseu, Dão, Arganil, Serra, Guarda, Pinhal da Beira, Alto Mondego, Castelo Branco, Extremadura, Santarém, Tomar, Borda d'Água Ribatejana, Abrantes, Sorraia, Portalegre, Avis, Caia, Évora, Estremoz, Alentejo litoral, Portel, Beja, Guadiana, Algarve, Termo de Lisboa, Outra Banda, Baixo Sado, Terras de Santa Maria, Gaia, Porto-cidade, Maia, Vila do Conde e Póvoa do Varzim. E como confederações, ou regiões administrativas: Minho, Trás-os-Montes, Douro, Litoral atlântico, Beira Alta, Beira Interior, Beira Baixa, Extremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Alentejo central, Baixo Alentejo, Algarve, área metropolitana de Lisboa e área metropolitana do Porto.

As regiões naturais estão estabelecidas em função do povoamento, da defesa dos solos agrícolas e das reservas naturais. São definidas por condicionalismos mesológicos e biológicos. São elas que devem comandar os municípios, para que haja independência na rede de aldeias e lugares, e abastecimento de proximidade de frescos, carne e leite. As bacias hidrográficas são, digamos assim, a cosedura natural dos municípios. As confederações facilitam os transportes, a administração, etc.

O agrupamento das juntas de freguesias rurais é já um problema de povoamento, porque as juntas de freguesia dependem das aldeias, que estão a morrer pelo abandono da agricultura. A administração pública deveria estruturar-se de modo a que fosse possível articular o ordenamento biofísico e demográfico com o planeamento económico e social e corresponder à realidade física e histórica das regiões naturais.

 

Aqui e acolá, apesar de tudo, coisas boas estão a ser feitas...

Muito pouco. Então não vê que deixaram que a agroquímica estragasse os barros de Beja? O dinheiro das celuloses está, na verdade, a sair-nos muito caro. A situação é gravíssima e a incompetência dos partidos políticos, de uma forma geral, é enorme. Não discutem sequer o florestamento idiota, sem qualidade de vida, e a agricultura foi abandonada porque os seus lucros não são tão imediatos. É preciso dar a cada parcela de terreno a utilização mais conforme com as suas potencialidades naturais. E entender o agricultor como verdadeiro guardião dos campos, serras e matas — do espaço rural cuja beleza, equilíbrio e estabilidade geram benefícios de ordem cultural, social e física. Temos de pensar em termos de dignificação do homem e de valorização da terra. Em zonamento ecológico e em paisagem humanizada, tendo em vista o ordenamento dos elementos essenciais ao equilíbrio biológico, à estabilidade física e à distribuição e escolha adequada das culturas e dos gados. Há que procurar a melhor distribuição das matas, dos prados e das terras de sequeiro e regadio, identificando a melhor aptidão para as diferentes culturas, promovendo uma agricultura que intensifique o uso da terra pela construção de uma paisagem equilibrada biologicamente. Num país como o nosso, com um mosaico geográfico muito variado, onde são muitas as serras, as charnecas e as costas com magníficas paisagens humanizadas, os parques naturais são um dos instrumentos eficazes de uma política de desenvolvimento e de ambiente.

 

As cidades estão, de certa forma, a apodrecer.

Veja o que se passa com as áreas metropolitanas. Qual é a cidade que persiste sem uma relação íntima com a agricultura? O problema das cidades é o do território; deixou de falar-se de agricultura, prefere-se a falsa floresta, que usa terrenos de qualidade agrícola para obter lucros imediatos.

 

Dependemos alimentarmente...

Os cereais, é trágico! Mas nenhum partido quer falar disso. Não têm sequer noção do que se passa. Permitiu-se a construção na lezíria de Loures, na lezíria de Faro, e agora há este caso das terras muito férteis da Costa da Caparica… As melhores terras de cultura foram ameaçadas, em muitas regiões, pela especulação dos preços de terrenos para construção.

 

Não será esta trágica crise financeira uma oportunidade especial para se reavaliar tudo isso?

Nenhum político quer discutir verdadeiramente. O primeiro problema começa no uso do território, que é uma discussão de que todos fogem: a falta de agricultura e a pressão da falsa floresta (povoamentos monoespecíficos de pinheiro-bravo ou de eucalipto), que acabaram com a agricultura de sustentabilidade que levou à extinção das aldeias. Esse é que é o problema grave: não se faz um país com base na especulação da celulose e dos terrenos para construção urbana. O crescimento concentrado desencadeia, por sua vez, obras que só encontram justificação numa falsa imagem de progresso criada pela propaganda sistemática dos vícios da sociedade de consumo.

Os políticos falam muito de exportações, mas não das importações. Ora, as importações do que é essencial aumentam diariamente, e querem compensar isso exportando parafusos e coisas assim. Os presidentes de câmara são analfabetos, e a Universidade é um problema gravíssimo em Portugal, porque vive de sectores artificiais, visando dar «empregos», e não está aberta a estas discussões.

Como as aldeias fecharam e os muros de pedra seca para suporte da agricultura em relevo ou de vedação (e lembro que Portugal é 80 % montanhoso) deixaram de ter interesse, aparecem uns senhores a comprar essas pedras, e toda a noite desaparecem muros que são levados para Espanha. Já ando a falar disto há uns quatro ou cinco anos. Ninguém me quer ouvir.

Portugal tem, antes de tudo, de reencontrar a sua identidade social e cultural. Não pode subsistir alicerçado numa sociedade de consumo. Ruralidade e Mar é o binómio que determina a nossa existência como povo e nação.

 

Entrevista publicada no Correio Real 7 de Novembro de 2011, por João Távora e Vasco Rosa

Os Reis são eleitos todos os dias *

 

P: Já fundou partidos ligados à terra e em defesa da monarquia. Há ligação entre estas duas causas?

Gonçalo Ribeiro Telles - Há sempre uma ligação. A nossa história é uma construção através de um regime monárquico e essa ligação à história e à continuidade perdeu-se. E nesse sentido há de facto um recuo enorme, que permitiu depois uma visão diferente do futuro. Quando a monarquia existia havia sempre um futuro na sequência da dinastia.

 

P: É essa a vantagem que vê na monarquia?

GRT - É essa a grande vantagem. Isso dá um somatório de uma cultura que é muito difícil de arrancar. Só à força é que se arranca. É o que está a suceder. Há a saudade dessa continuidade.


P: Os portugueses têm saudades da monarquia. Acha isso?

GRT - Dessa continuidade com certeza, porque isto é um país inventado e construído. Construído com as condições que tinha de mar, de terra, de solos e inventado pelo género português.

 

P: O caminho teria sido outro com uma monarquia?

GRT - Tínhamos seguido um caminho mais paralelo dos países escandinavos.

 

P: Os reis não são eleitos. Não é um bom argumento a favor da República?

GRT - Os reis são eleitos todos os dias.

 

* Entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles aqui na integra no jornal i 

Homenagem a Gonçalo Ribeiro Telles

Fundação Calouste Gulbenkian e o Centro Nacional de Cultura vão organizar no próximo dia 6 de Dezembro uma sessão de homenagem e reflexão dedicada ao Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles.

 

 

 

ORGANIZAÇÃO
AURORA CARAPINHA


ENTRADA LIVRE

 

6 DE DEZEMBRO DE 2011
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN • AUDITÓRIO 2

 

09h30
Abertura
Guilherme d’Oliveira Martins
Presidente do Centro Nacional de Cultura
Emílio Rui Vilar
Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian
10h00
O HOMEM
António Barreto • Eduardo Lourenço
Guilherme d’Oliveira Martins
11h15
Pausa café
11h35
O POLÍTICO
Augusto Ferreira do Amaral • Luís Coimbra
Diogo Freitas do Amaral
13h00
Intervalo para almoço
14h30
O PROFESSOR
Carlos Braumann • Aurora Carapinha
Ário Lobo de Azevedo
15h30
Pausa café
15h50
O VISIONÁRIO
Manuela Raposo Magalhães
Nuno Portas • Margarida Cancela d’Abreu
Viriato Soromenho Marques
17h10
Depoimentos
Dom Duarte de Bragança • Miguel Sousa Tavares*
Pedro Roseta • Maria Calado • Alberto Vaz da Silva
17h45
Apresentação da Fotobiografia de Gonçalo Ribeiro Telles 
(Ed. ARGUMENTUM)
Fernando Pessoa • Alexandre Cancela d’Abreu
18h00
Encerramento
Mário Soares • Gonçalo Ribeiro Telles

A Real Associação de Lisboa é uma estrutura regional integrante da Causa Real, o movimento monárquico de âmbito nacional. Esta é uma associação que visa a divulgação, promoção e defesa da monarquia e da Instituição Real corporizada na Coroa Portuguesa, cujos direitos dinásticos estão na pessoa do Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e em quem legitimamente lhe vier a suceder. Cabe a esta associação a prossecução de iniciativas e de projectos de interesse cultural, social, assistencial e de solidariedade que visem a dignificação, a valorização e o desenvolvimento dos seus associados e da comunidade em que se insere.

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