Uma fábula de Saramago
O neo-realismo tem destas coisas. A par da exaltação dos aspectos mais sórdidos e dispensáveis do escrutínio dos podres de todos e de cada um, gosta ainda de inventar heroísmos de circunstância que frequentemente nada mais são, senão a confirmação exacta do oposto. Numa nervosa procura de estórias edificantes à maneira do mais retrógrado figurino da superstição, não se preocupam os seus cultores, em investigar a veracidade dos factos ou pelo menos, o momento exacto em que estes hipoteticamente ocorreram. O que interessa é a quantidade de carvão a atirar às pazadas para dentro da fornalha que tal como se de chama sagrada se tratasse, deve ser mantida a todo o transe. No fundo, estes Saramagos que medram à beira dos caminhos tortuosos desta política-negócio, são directos descendentes de velhotas virgens vestais de uma Antiguidade que ainda ilumina os nossos dias. Infelizmente, tal luz não provém da maciça Torre que outrora guiou os viandantes até à Alexandria do conhecimento, mas não passa afinal, do derradeiro bruxulear espectral da pequena chama que sobre os trípodes, espicaçava medos, dirigia os crédulos e sobretudo, enchia os cofres do Templo.
Saramago decidiu escrever sobre a república. Confortavelmente instalado e adulado na maior Monarquia europeia - que talvez venha a trair -, convive amiúde com os monarcas que o condecoram e com os príncipes que quiçá almejará ver um dia sentados no trono de D. João IV. Morta e para sempre enterrada a ..."mais luminosa experiência da humanidade"..., os derradeiros sobreviventes da Roma soviética encontraram na barbárie monárquica o agasalho e o filão inesgotável da condescendência perante um perigo que já não o é. Passeiam-se da tertúlia intelectual blindada, para o campo concentracionário da exclusividade do pensamento da ordem de um dia que há muito se foi. Eles ainda não perceberam que desde a morte do Sol da Terra, a geração que nasceu com a explosão da gigante vermelha já cumpre o serviço militar e pode livremente recorrer à investigação sem a espada de Dâmocles da censura e da polícia política. Viaja da Rússia para a Europa ocidental, dança ao som do decadente imperialismo burguês, fala ao telemóvel, lê o que bem lhe apetece, namora no estrangeiro, come fast-food e ironia suprema, interessa-se pela verdade de um passado nacional cujo brilho oblitera as fanadas brochuras propagandísticas de Stakhanov, da matuska procriadora de quinze filhotes de Lenine e de espigas de milho soviético, grandiosas de quatro quilos cada.
Saramago perorou sobre a república dita portuguesa. Não aquela intemporal, do conceito de liberdade dos homens e dos Estados. Não lhe interessa minimamente a república inventada pelo franco-ibero Afonso Henriques, consolidada pelo João I de Boa-Memória. Não faz a mínima ideia da raiz profundamente republicana da organização das Cortes, dos pactos entre a coroa e os populares. A ideia de um dia terem existido confrontos acerbos, debates em sede própria, veto à despesa que ao tempo - e em linguagem anacrónica - pode ser hoje confundida como "pública", passa-lhe tão ao lado, como as dúzias de milhões sacrificados em nome do ego de um auto-cultivador da personalidade ou de um ridente futuro que jamais poderia chegar. Ao Saramago de sempre, aquele da sebenta das contradições de classe, lutas e da história científica, os factos e até as ideias que fizeram - para o bem e para o mal - o país que um dia foi o seu, tornaram-se tão desconhecidos como a lista dos heróis e acontecimentos que moldaram a história de um Turquemenistão ou das tribos do deserto de Gobi.
Se não sabe ou de nada tem a certeza, inventa. Se não inventa, molda um acontecimento a uma data, hora e local que mais lhe convenha para enquadrar a fábula.
Eles sempre apontaram a dedo com a valente arrogância emprestada pelo dedo no gatilho, a imperiosidade de uma história científica, o que sucintamente significava a adequação dos factos a inventariar como interessantes, à superstição da sua religião onde a liturgia em nada ficava a dever às magnas bençãos Urbi et Orbi romanas.
Saramago é um materialista dialéctico, seja lá o que isso queira verdadeiramente dizer. Desta vez, trouxe-nos uma estória para ele edificante e que se torna a seus olhos, na razão principal para a manutenção de um regime que liquidou a esperança de um século e vegetalizou quatro gerações de portugueses. É o episódio choroso de compaixão pelo ..."homem humilde, cujo nome, que eu saiba, a história não registou, com uns dedos que tremiam, quase desfalecido, traçou na parede, conforme pôde, com o seu próprio sangue, com o sangue que lhe corria dos ferimentos, estas palavras: viva a república."
O castelhanofilizado Saramago situa o acontecimento no 5 de Outubro de 1910 e para emprestar maior grandeza e enquadramento, decidiu a morte do anónimo e o sangrento grafitti, em plena praça do Rossio. Saramago sabe (?) muito bem que esse evento - a ter acontecido, dada a estranha coincidência com uma fome de propaganda que grassava no seio do subversivo prp -, ocorreu num outro dia 5. Estando marcado pelo governo de João Franco para dia de eleições gerais - o que precipitou o Regicídio -, o 5 de Abril de 1908 serviu de pretexto para uma tremenda coacção dos caceteiros e vadios a soldo dos republicanos. Num só dia, caíram vitimados pela violência política, mais portugueses que durante todo o reinado de D. Carlos I, num intróito à sangueira que afogaria a dita 1ª república. O episódio a que Saramago se refere, terá acontecido diante d Igreja de S. Domingos, no Largo do Palácio da Independência. Tentando impedir a votação livre e sem coacção de todos os eleitores inscritos, os republicanos quiseram pôr fim ao chamado período da "Acalmação", erro crasso de transigência perante quem pela violência, pretendeu e acabou por conseguir liquidar um já antigo regime de legalidade constitucional, liberdades públicas e de adequação de Portugal ao que a Europa liberal considerava ser o progresso na Lei.
Um momento num dia que não o ideal, mas capaz pelo dramatismo, de fazer verter uma lágrima saramágica pelo solitário caído pelo Grande Nada que foi afinal a república. Esquecidos ficam os milhares de mortos, as levas de presos políticos, os desterrados, os supliciados em plena via pública, o achincalhamento de reputações para sempre perdidas, a ruína económica e as vagas que numa maré sem precedentes, fizeram fugir de Portugal os braços úteis que nos faltariam para povoar o Ultramar.
Saramago evoca o mártir do Largo de S. Domingos de 5 de Abril de 1908, cujo corpo é ínfimo, quase invisível para esconder a imensa mole de milhares de caídos na voragem vertiginosa da ceifeira Morte que a república ignominiosamente trouxe a um povo tranquilo. Milhares e milhares de vítimas da superstição, cobiça e vaidade de um punhado de privilegiados. Entre essas dúzias de centos, encontrava-se um Rei e o seu sucessor, seguidos de um presidente, um primeiro-ministro, ministros, heróis militares e até, nomes sonantes do clube republicano de má memória.
A Saramago recordo outro episódio que talvez ilustrasse melhor o alvorecer do seu regime de eleição por conveniência. Este sim, rigorosamente testemunhado no 5 de Outubro de 1910, quando o Directório dos abastados dirigentes do prp, colocaram pés-descalços armados à porta dos bancos, vigiando a segurança dos depósitos e fortunas dos senhores da nova situação, num alegórico e indesmentível "O Seu a Seu Dono"!
Que grande peça neo-realista daria para uma crónica - decerto bem paga - numa qualquer folha burguesa da capital olissiponense! Pense nisso...
Nuno Castelo-Branco
in Estado Sentido
