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BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

Uma curiosa afeição

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Aos 99 anos, morreu, no passado dia 9 de Abril, no Castelo de Windsor, Filipe, Duque de Edimburgo. Nascido em 1921 na bela ilha grega de Corfu, Filipe da Grécia e da Dinamarca casou com Isabel II em 1947 e exerceu perseverantemente o seu papel como Príncipe Consorte do Reino Unido sempre um passo atrás da rainha, durante 69 anos.

Na coroação da Isabel II, ajoelhado aos seus pés, jurou, mãos nas mãos, ser seu liege man of life and limb que traduzido para português significa qualquer coisa como “seu vassalo, guardião da vida e da integridade física”, assumindo um papel como marido que é um exemplo de grande modernidade mesmo aos dias de hoje.

De facto, estar à frente do seu tempo a ditar tendências e influir na estética são predicados das coroas, jamais ir atrás de modas frívolas. Filipe Mountbatten (apelido que adoptou ao abdicar de títulos e apelidos seus para casar) foi um grande defensor dos animais e da conservação da natureza, muito antes destas causas terem sido apropriadas pelos partidos políticos, ou seja, quando não rendiam votos, tendo sido o primeiro presidente britânico do World Wildlife Fund. Desde cedo manifestou grande preocupação com a sustentabilidade do desenvolvimento, preocupação que se reflectiu na gestão que fez das propriedades da família.

Um dos seus maiores legados é, sem dúvida, o Duke of Edinburgh Award, representado em Portugal pelo Prémio Infante D. Henrique, presidido por SAR o Senhor Dom Duarte.

O Duque de Edimburgo serviu o seu povo aquém e além-mar: para além de ter participado activamente na Segunda Guerra Mundial, durante a sua vida fez 5493 discursos, foi presidente honorário de mais de 780 agremiações e participou em 22.219 eventos oficiais. Ao lado da sua Lilibeth marcou várias gerações e uma época.
A morte do Duque de Edimburgo provocou uma vaga de comoção a partir do Reino Unido e as suas ondas de choque sentiram-se no mundo inteiro. Em Portugal, os quatro canais televisivos de notícias transmitiram em directo as comoventes cerimónias fúnebres e o assunto foi tema de grande destaque nos principais jornais e revistas nacionais – e tocou o coração de muitos portugueses.

O apreço e o fascínio por figuras reais estrangeiras deveriam fazer-nos meditar. A sua perenidade promove o estreitamento de uma ligação profunda com os povos e as comunidades que servem, na defesa das causas mais improváveis e ignoradas que exigem, para que sejam consequentes, independência política, legitimidade histórica e constitucional.
Não deixa de ser curioso que tanta gente, que é indiferente ou mesmo hostil à nossa Causa, se deixe seduzir pelo encanto do Príncipe Filipe e de Isabel II sem daí tirar as clamorosas conclusões… Que tão grande fenómeno de serviço permanente e de solidez institucional só é possível com uma Chefia de Estado monárquica. É nesse sentido que urge restabelecer em Portugal a Coroa, instituição meta-política fundada na continuidade, que nos une à fundação da Pátria, nas pessoas da nossa querida Família Real. Não há motivo para que estejamos destinados à condição menor de nos deslumbrarmos com o que é estrangeiro e de ficarmos condenados às sumidades de turno que nos vão calhando em sorte.

João Távora

Editorial da revista Correio Real nº 23

Vídeo do lançamento de "Memórias dum Roialista"

Veja aqui o vídeo integral da cerimónia de lançamento do livro "Memórias de um Roialista" da autoria de Tomás Moreira, testemunho reflexivo tendo como base cerca de 40 anos dedicados ao serviço da Causa Real. A apresentação teve lugar no dia 11 de Novembro na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, sob a égide da Real Associação de Lisboa. Com a presença de SAR o Senhor Dom Duarte de Bragança a sessão foi presidida por João Távora, Presidente da Real Associação de Lisboa e a obra foi apresentada pelo Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira.

O livro encontra-se disponível para em venda postal aqui

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Roialitas e realismo

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“Se monárquicos são os que propõem a Monarquia como forma de Chefia do Estado, como designar a enorme massa dos que simpatizam com a Casa Real e lhe reconhecem relevância, acima da máquina do Estado, independentemente da natureza do regime político?

Para designar todos estes, monárquicos ou não, propus o neologismo «roialista». Inspirei-me no francês royaliste, para evitar o antigo termo realista (ainda usado no Brasil), que se presta a confusão, por ser sinónimo de pragmático.

Há sobejos indicadores e testemunhos populares demonstrativos duma provável maioria roialista adormecida que, muitas vezes mais inspirada pelo sentimento e pela inteligência emocional do que convencida pela razão e pela doutrina, reconhece ao chefe da Casa Real um estatuto especial.

A pergunta «A Monarquia é um sinal da unidade e da cultura nacionais?» recebeu numa sondagem da Universidade Católica Portuguesa feita em 1995 uns reveladores 51% de respostas afirmativas, e apenas 27 % de negativas. E a questão «A Monarquia é uma tradição que seria bom preservar?» acolheu 46 % de sins e apenas 33 % de nãos.
Indícios duma clara maioria roialista, adormecida mas presente.”
 
Tomás Moreira in “Memórias dum Roialista” a ser lançado no próximo dia 11 às 18,30 na Sala do Arquivo da CML.

A Noite Sangrenta - 19 de Outubro de 1921

Quando passam exactamente 100 anos sobre a macabra noite sangrenta, uma das maiores chagas provocada pela luta intestina dos republicanos, publicamos aqui o primeiro de  três interessantes textos assinado pela misteriosa e incógnita Joana no célebre blog Semiramis

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 19 DE OUTUBRO DE 1921
Parte 1

O 19 de Outubro de 1921 foi o fim da 1ª República. Formalmente ela continuou até 28 de Maio de 1926. Pelo meio, alguns episódios grotescos de um regime em degenerescência: as governações de António Maria da Silva, o carbonário tornado o chefe todo poderoso do PRP e dos respectivos caciques, directas ou por interpostos testas de ferro; a eleição de Teixeira Gomes para a Presidência da República, uma manobra de Afonso Costa para tentar regressar ao poder; a renúncia de Teixeira Gomes quando percebeu que nem conseguia o regresso de Afonso Costa, nem passaria de um títere nas mão do odiado chefe do PRP: renunciou e abandonou o país no primeiro barco que zarpou da barra de Lisboa com destino ao estrangeiro.

Entre o assassinato de Sidónio Pais e os massacres de 19 de Outubro de 1921, Portugal, teoricamente um regime parlamentar, viveu sob uma ditadura tutelada pelos arruaceiros e rufias dos cafés e tabernas de Lisboa e pela Guarda Nacional Republicana, uma Guarda Pretoriana do regime, bem municiada de artilharia e armamento pesado, concentrada na zona de Lisboa e cujos efectivos passaram de 4575 homens em 1919 para 14 341 em 1921, chefiados por oficiais «de confiança», com vencimentos superiores aos do exército. A queda do governo de Liberato Pinto, o principal cacique e mentor da GNR, em Fevereiro de 1921, colocou as instituições democráticas na mira dos arruaceiros e pretorianos do regime a que se juntaram sindicalistas, anarquistas, efectivos do corpo de marinheiros, etc.. O governo de António Granjo, formado a 30 de Agosto, era o alvo.

O nó górdio foi o caso Liberato Pinto, entretanto julgado e condenado em Conselho de Guerra por causa das suas actividades conspirativas. Juntamente com o Mundo, a Imprensa da Manhã, jornal sob a tutela de Liberato Pinto, atacavam diariamente o governo, tentando provar, através de documentos falsos, que o Governo projectava o cerco de Lisboa por forças do Exército, para desarmar a Guarda Nacional Republicana. No Diário de Lisboa apareceram, entretanto, algumas notas relativas ao futuro movimento. Em 18 de Agosto, um informador anónimo dizia da futura revolta: «Mot d’ordre: a revolução é a última. Depois, liquidar-se-ão várias pessoas».

O coronel Manuel Maria Coelho era o chefe da conjura. Acompanhavam-no, na Junta, Camilo de Oliveira e Cortês dos Santos, oficiais da G. N. R., e o capitão-de-fragata Procópio de Freitas. O republicanismo histórico do primeiro aliava-se às forças armadas, que seriam o pilar da revolução. Depois de uma primeira tentativa falhada, em que alguns dos seus chefes foram presos e libertos logo a seguir, o movimento de 19 de Outubro de 1921 desenrolou-se num dia apenas, entre a manhã e a noite. Três tiros de canhão disparados da Rotunda pela artilharia pesada da GNR tiveram a sua resposta no Vasco da Gama. Passavam à acção as duas grandes forças da revolta. A Guarda concentrou os seus elementos na Rotunda; o Arsenal foi ocupado pelos marinheiros sublevados, que não encontraram qualquer resistência; núcleos de civis armados percorreram a cidade em serviço de vigilância e propaganda. Os edifícios públicos, os centros de comunicações, os postos de comando oficiais caíram rapidamente em poder dos sublevados. Às 9, uma multidão de soldados, marinheiros e civis subiu a Avenida para saudar a Junta vitoriosa. Instalado num anexo do hospital militar de Campolide, o seu chefe, o coronel Manuel Maria Coelho, presidia àquela vitória sem luta.Em face da incapacidade de resistir, às dez da manhã, António Granjo escreveu ao Presidente da República: «Nestes termos, o governo encontra-se sem meios de resistência e defesa em Lisboa. Deponho, por isso, nas mãos de V. Ex.a a sorte do Governo...» António José de Almeida respondeu-lhe, aceitando a demissão: «Julgo cumprir honradamente o meu dever de português e de republicano, declarando a V. Ex.a que, desde este momento, considero finda a missão do seu governo...» Recebida a resposta, António Granjo retirou-se para sua casa. Eram duas da tarde.O PR recusou-se a ceder aos sublevados. Afiançou que preferiria demitir-se a indigitar um governo imposto pelas armas. Às onze da noite, ainda sem haver solução institucional, Agatão Lança avisou António José de Almeida que algo de grave se estava a passar. Perante tal, conforme descreveu depois o PR, «Corri ao telefone e investi o cidadão Manuel Maria Coelho na Presidência do Ministério, concedendo-lhe os poderes mais amplos e discricionários para que, sob a minha inteira responsabilidade, a ordem fosse, a todo o transe, mantida». Passando a palavra a Raul Brandão (Vale de Josafat, págs. 106-107), «Depois veio a noite infame. Veio depois a noite e eu tenho a impressão nítida de que a mesma figura de ódio, o mesmo fantasma para o qual todos concorremos, passou nas ruas e apagou todos os candeeiros. Os seres medíocres desapareceram na treva, os bonifrates desapareceram, só ficaram bonecos monstruosos, com aspectos imprevistos de loucura e sonho...».Sentindo as ameaças que se abatiam sobre ele, António Granjo buscou refúgio na casa de Cunha Leal. Cunha Leal tinha simpatias entre os revoltosos (tinha aliás sido sondado para ser um dos chefes do movimento, mas recusara) e Granjo considerou-se a salvo. Todavia, a denúncia de uma porteira guiou os seus perseguidores que tentaram entrar na casa de Cunha Leal para deter António Granjo. Cunha Leal impediu-os, mas a partir desse momento ficaram sem possibilidades de fuga porque, pouco a pouco, o cerco apertara-se e grupos armados vigiavam a casa. Apelos telefónicos junto de figuras próximas dos chefes da sublevação, que pudessem dar-lhes auxílio, não surtiram efeito.

Perto das nove da noite compareceu um oficial da marinha, conhecido de ambos, que afirmou que levaria Granjo para bordo do Vasco da Gama, um lugar seguro. Cunha Leal vacilou. Granjo mostrou-se disposto a partir. Cunha Leal acompanhou-o, exigindo ao oficial da marinha que desse a palavra de honra de que não seriam separados. Meteram-se na camioneta que afinal não os levaria ao refúgio do Vasco de Gama, mas ao centro da sublevação.A camioneta chegou ao Terreiro do Paço onde os marinheiros e os soldados da Guarda apuparam e tentaram matar António Granjo. Cunha Leal conseguiu então salvá-lo. A camioneta entrou, por fim, no Arsenal e os dois políticos passaram ao pavilhão dos oficiais. Um grupo rodeou Cunha Leal e separou-o de Granjo, apesar dos seus protestos. Os seus brados levaram a que um dos sublevados disparasse sobre ele, atingindo-o três vezes, um dos tiros, gravemente, no pescoço. Foi conduzido ao posto médico do Arsenal.

Entretanto, vencida a débil resistência de alguns oficiais, marinheiros e soldados da GNR invadiram o quarto onde estava António Granjo e descarregaram as suas armas sobre ele. Caiu crivado. Um corneteiro da Guarda Nacional Republicana cravou-lhe um sabre no ventre. Depois, apoiando o pé no peito do assassinado, puxou a lâmina e gritou: «Venham ver de que cor é o sangue do porco!»A camioneta continuou a sua marcha sangrenta, agora em busca de Carlos da Maia, o herói republicano do 5 de Outubro e ministro de Sidónio Pais. Carlos da Maia inicialmente não percebeu as intenções do grupo de marinheiros armados. Tinha de ir ao Arsenal por ordem da Junta Revolucionária. Na discussão que se seguiu só conseguiu o tempo necessário para se vestir. Então, o cabo Abel Olímpio, o Dente de Ouro, agarrou-o pelo braço e arrastou-o para a camioneta que se dirigiu ao Arsenal. Carlos da Maia apeou-se. Um gesto instintivo de defesa valeu-lhe uma coronhada brutal. Atordoado pelo golpe, vacilou, e um tiro na nuca acabou com a sua vida.

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A camioneta, com o Dente de Ouro por chefe, prosseguiu na sua missão macabra. Era seguida por uma moto com sidecar, com repórteres do jornal Imprensa da Manhã. Bem informados como sempre, foram os próprios repórteres que denunciaram: «Rapazes, vocês por aí vão enganados… Se querem prender Machado Santos venham por aqui…». Acometido pela soldadesca, Machado Santos procurou impor a sua autoridade: «Esqueceis que sou vosso superior, que sou Almirante!». Dente de Ouro foi seco: «Acabemos com isto. Vamos». Machado Santos sentou-se junto do motorista, com Abel Olímpio, o Dente de Ouro, a seu lado. Na Avenida Almirante Reis, a camioneta imobiliza-se devido a avaria no motor. Dente de Ouro e os camaradas não perdem tempo. Abatem ali mesmo Machado Santos, o herói da Rotunda.

Não encontraram Pais Gomes, ministro da Marinha. Prenderam o seu secretário, o comandante Freitas da Silva, que caiu, crivado de balas, à porta do Arsenal. O velho coronel Botelho de Vasconcelos, um apoiante de Sidónio, foi igualmente fuzilado. Outros, como Barros Queirós, Cândido Sotomayor, Alfredo da Silva, Fausto Figueiredo, Tamagnini Barbosa, Pinto Bessa, etc., salvaram a vida por acaso.Os assassinos foram marinheiros e soldados da Guarda. Estavam tão orgulhosos dos seus actos que pensaram publicar os seus nomes na Imprensa da Manhã, como executores de Machado Santos. Não o chegaram a fazer devido ao rápido movimento de horror que percorreu toda a sociedade portuguesa face àquele massacre monstruoso. Mas quem os mandou matar?

O horror daqueles dias deu lugar a uma explicação imediata, simples e porventura correcta: os assassínios de 19 de Outubro tinham sido a explosão das paixões criadas e acumuladas pelo regime. Determinados homens mataram; a propaganda revolucionária impeliu-os e a explosão da revolução permitiu-lhes matar. No enterro de António Granjo, Cunha Leal proclamou essa verdade: «O sangue correu pela inconsciência da turba - a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda solta, matando porque é preciso matar. Todos nós temos a culpa! É esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama». No mesmo acto, afirmaria Jaime Cortesão: «Sim, diga-se a verdade toda. Os crimes, que se praticaram, não eram possíveis sem a dissolução moral a que chegou a sociedade portuguesa».

Com o tempo, os republicanos procuraram outras explicações. Não podiam aceitar a explicação simples que teria sido a sua acção, o radicalismo da sua política, a imundície que haviam lançado desde 1890 sobre toda a classe política, a sua retórica de panegírico aos atentados bombistas (desde que favoráveis), aos regicidas, a desencadear tanta monstruosidade. Significava acusarem-se a si próprios. Outras explicações foram aparecendo, sempre mais tortuosas, acerca dos eventuais culpados: conspiração monárquica; Cunha Leal (apesar de ter sido quase morto); Alfredo da Silva (apesar de, nessa noite, ter escapado à justa e tido que se refugiar em Espanha) uma conspiração monárquica e ibérica; a Maçonaria (a acção da Maçonaria sobre a Guarda, impelindo-a para a revolução, era constante, mas isso não significa que desse ordens para aqueles crimes).

Os assassinados na Noite Sangrenta não seriam, entre os republicanos, aqueles que mais hostilidade mereceriam dos monárquicos. Eram republicanos moderados. O furor dos assassinos liquidara homens tidos, na sua maior parte, como simpatizantes do sidonismo. Não se tratava de vingar Outubro de 1910, mas sim Dezembro de 1917. Carlos da Maia e Machado Santos foram ministros de Sidónio Pais. Botelho de Vasconcelos, coronel na Rotunda, às ordens de Sidónio Pais. Se as matanças de 19 de Outubro de 1921 foram uma vingança terão de ser referenciadas à República Nova e não ao 5 de Outubro. Aliás, num gesto significativo, os revolucionários libertaram o assassino de Sidónio Pais.

Há na Noite Sangrenta factos que se impõem de maneira evidente. A 20 de Outubro, a Imprensa da Manhã reivindicou para si a glória de ter preparado o movimento, mas repudiou as suas trágicas consequências, especialmente a morte de Granjo. Ora anteriormente, dia após dia, aquele diário havia acusado e ameaçado Granjo, injuriando-o sistematicamente. Como podia agora lavar as mãos da sua morte? Aliás, a atitude dos assassinos foi concludente: depois de matarem Machado Santos, dirigiram-se na camioneta da morte à Imprensa da Manhã para lhe agradecerem o apoio e para aquela publicar os nomes dos que tinham fuzilado o Almirante. Um deles confessou mais tarde que Machado Santos havia sido localizado por informações de jornalistas da Imprensa da Manhã. Os assassinos procuravam a satisfação e a glória de uma obra realizada, no diário matutino onde se proclamara a necessidade dessa realização.Os assassinos nunca esperaram ser castigados. Mesmo durante o julgamento sempre esperaram a absolvição. Quando foram condenados, entre gritos de vingança e de apoio à «República radical», alguns acusaram altos oficiais de não terem autoridade moral para os condenarem, pois estavam por detrás da carnificina. Os assassinos tinham, de certo modo, razão: eles tinham agido dentro da lógica que o republicanismo tinha instilado neles. Em todos os regimes que nascem e se sustentam no crime e no terror (por muito justa que a causa possa ser), há sempre o momento (ou os momentos) em que a revolução devora os próprios filhos.

Para terminar devo referir que nem Manuel Maria Coelho, nem nenhum dos «outubristas», conseguiu formar um governo estável. O horror fez todos os nomes sonantes recusarem fazer parte de um governo de assassinos. Menos de dois meses depois da revolução, António José de Almeida, em 16 de Dezembro de 1921, entregou a chefia do ministério a Cunha Leal.A GNR foi pouco a pouco desmantelada e reduzida a uma força de policiamento rural. A república ficara ferida de morte.

 

Eleições autárquicas, os monárquicos, e a minha querida cidade de Lisboa *

As eleições autárquicas são o pilar fundamental de qualquer democracia evoluída. O poder autárquico e o seu exercício aproximam as pessoas do poder e, ao mesmo tempo, tornam patente a necessidade, eu diria a urgência, da participação de todos na gestão da cidade e na defesa do bem comum.

Os concelhos e as freguesias (e antigamente as paróquias) são o nosso chão comum primário, comunidades de pertença fundamental, espaço privilegiado de realização humana, só ultrapassados em importância e proximidade pela célula familiar.

Não é casual a forte tradição municipalista entre os monárquicos. Desde logo nos neo-intregralistas, como Ribeiro Telles, Jacinto Ferreira ou Barrilaro Ruas, que viam na valorização do poder local, e nas suas instituições profundamente humanistas e personalistas, uma forma de promoção da liberdade das comunidades – logo dos indivíduos - contra a cegueira do centralismo macrocéfalo, economicista, burocrático e quantas vezes ideológico. Um efectivo contrapeso à tendência que os grandes poderes têm de se auto-alimentarem e de se distanciarem da realidade micro das pequenas comunidades.

O grande Leviatã de Thomas Hobbes prefere a indistinção e a padronização, a docilização e a domesticação dos indivíduos, ainda que esse fenómeno acarrete o seu alheamento da política, ou seja, a abstenção na construção e a preservação do que é de todos.

De facto, os neo-integralistas perceberam-no cedo: só em sociedades muito evoluídas e participativas, chamemos-lhe “intrinsecamente democráticas”, é possível que a figura de topo do Estado seja “não eleita” porque historicamente e constitucionalmente legitimada. Refiro-me ao Rei – primo interpares.

Ao contrário do que emana de uma visão parcial e superficial, veiculada pelo discurso dominante e autojustificativo do poder vigente em Portugal, afinal uma monarquia moderna, sustentada na instituição real, genuinamente imparcial e agregadora, é, nos dias de hoje, penhor da liberdade dos cidadãos nos países europeus mais desenvolvidos, em sociedades profundamente empenhadas na gestão da “rés-pública”.

É portanto, para um monárquico, um pequeno consolo o frenesim que por estes dias se verifica com tantas dezenas de milhares de pessoas mobilizadas de norte a sul do País para as eleições autárquicas, tantas vezes maldosamente caricaturadas pelas pseudo-elites urbanas, caixa de ressonância dos insaciáveis apetites uniformizadores e repressivos do “Terreiro do Paço”.

Dever-nos-íamos congratular com isso. Se quisermos tirar um retrato, e fazer um diagnóstico, de como somos e de como funcionamos como povo a cuidar dos nossos e do que é nosso, atentemos na participação e dinamismo dumas eleições autárquicas.

Mas, a propósito de autarquias, o tema de que vos quero falar hoje é sobre a minha querida cidade de Lisboa e o seu aparentemente irreversível processo de despovoamento. Uma dinâmica muito preocupante a que assistimos, impotentes, há várias décadas.

Passei a minha meninice e juventude entre a Baixa, a Avenida da Liberdade, Bairro Alto, Madragoa, Estrela e Campo de Ourique, e sou testemunha de como há uma cidade que se extingue todos os dias e que antes fervilhava de famílias, de comércio, de serviços.

Era uma cidade velha, bem sei, mas com agitadas e populosas freguesias que hoje não oferecem eleitores que remuneram os partidos políticos. Por vezes essa minha cidade confunde-se com um gigantesco aldeamento turístico com ocupação sazonal, sem alma, sem identidade, sem pertença, sem economia. Sem crianças. E esse é o pior dos sintomas: não há mais crianças no casco velho da nossa cidade, das suas janelas ninguém nos espreita. A velha (ou nem tanto) Lisboa, com as restrições do Covid19 às tantas parecia-se com um parque temático de Hollywood... encerrado.

Lisboa sempre foi uma cidade de partidas, mas principalmente de chegadas com que sempre se renovou. Hoje é praticamente só de partidas – de uns para a periferia, dos outros mais afoitos ou aflitos para o Mundo.

Como é que deixámos as coisas chegar a este ponto?

De nada nos serve apontar culpados. Interessava mesmo saber como, e se algum dia, poderemos inverter esta dinâmica de morte, atrair novas gerações para uma cidade sem economia, sem vida própria, que é e será sempre única nem que seja pelas suas pedras e a história que ecoam. É credível a promessa de riqueza e de futuro? Será a Lisboa das suas gentes uma Causa perdida?

Interpretem este meu pessimismo como uma provocação com o intuito de agitar as águas e promover uma mudança na cidade. Na nossa querida Lisboa.  

 

* Texto adaptado da minha introdução ao debate do passado dia 9 de Setembro organizado pela Real Associação de Lisboa entre as candidaturas à CML, subordinado ao tema “A gentrificacão e a sustentabilidade das cidades antigas” e publicado originalmente aqui

Caminho interior

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Um castelo no extremo norte de Portugal esconde um tesouro digno de ser referido nestas páginas. Pequeno em dimensão, mas carregado de significado, o tesouro não é mais do que uma placa modesta que assinala o lançamento da primeira pedra da requalificação do castelo de Montalegre sob a presidência de SAR o Duque de Bragança.

Este restauro teve como iniciador simbólico não um governante ou um Chefe de Estado ocasional, mas o representante dos Reis de Portugal. Nenhum outro português teria tanta legitimidade para o fazer.

Foi em nome dos seus antepassados e do país que construímos em conjunto que, das suas ameias, olhos vigilantes venceram o sono, o frio e o medo. Foi por causa desta família e da língua que fizemos nossa que nos diferenciámos dos nossos vizinhos, nos defendemos dos seus impulsos hegemónicos e nos lançámos ao mundo. Foi pelo Rei e pela Grei, e pela aliança entre ambos, que os ocupantes do castelo de Montalegre asseguraram a nossa defesa comum durante séculos. Hoje ele ali permanece, lembrança da nossa antiga liberdade, testemunho firme da resolução portuguesa.

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Do alto das suas torres não só compreendemos as dificuldades de então como reconhecemos as de hoje. Há pouco que defender em seu redor. A sua gente escasseia e envelhece. Populações declinantes cercadas de vazio vivem vidas conformadas, esquecidas por um país crescentemente litoralizado, demasiado embrenhado na sua pós-modernidade frenética para compreender usos, costumes e ritmos com outras cadências e raízes. 

O interior tem sido votado ao esquecimento de (quase) todos. Tornou-se pouco mais do que politicamente irrelevante, valendo cada vez menos lugares no parlamento. Os acessos que deviam aproximá-lo dos centros de decisão drenaram-no, os serviços básicos foram-lhe retirados em nome da racionalidade económica e ignoradas as suas especificidades culturais e linguísticas. Resta-lhe o declínio… e a dignidade.

Apesar de tudo isso, ou talvez por isso mesmo, o representante dos Reis de Portugal lá esteve, como é seu dever e direito, ao lado dos seus para os ajudar a reerguer-se. Sempre ao lado dos seus, onde quer que estejam, quem quer que sejam.

Só quem não depende de ciclos eleitorais, tem uma visão integral do país e compreende o valor e a insubstituibilidade de cada um dos seus recantos e de todas as suas gentes, é capaz de o servir tão completamente e de lhe dedicar cada dia de vida.

Para lá da A1, ou de uma visão turístico-pitoresca do outro Portugal que ainda resiste, felizmente temos connosco quem é capaz de trilhar esse caminho interior.

João Vacas

publicado originalmente no  Correio Real nº 23

A última Chefe de Estado de Portugal

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Foi inaugurada na semana passada a exposição D. Maria II: de princesa brasileira a rainha de Portugal, uma cooperação entre o Palácio Nacional da Ajuda e o Museu da Presidência da República, patente até 29 de Setembro.

A exposição, montada na galeria D. Luís I no Palácio da Ajuda, divide-se em 14 núcleos, numa viagem que nos mostra o lado intimista, privado, mas também o lado político e activo da monarca que faz a passagem entre os mundos do Absolutismo e Constitucionalismo; dos continentes Novo ao Velho.

Os símbolos de um Portugal quase distante, mas distinto, recebem-nos: a coroa real, sólida, majestática, relembra-nos o voto de D. João IV a Nossa Senhora, que se tornou a Eterna Rainha de Portugal, daí nenhum rei ser representado coroado a partir de 1646. Isso é verificável nos inúmeros retratos reais que se encontram na exposição, desde D. João IV, avô paterno de D. Maria II, até Às pinturas que retratam a monarca constitucional.

Prossegue-se o percurso percebendo o mundo tropical do Rio de Janeiro nas imagens referentes aos dias da corte portuguesa, saída para o novo continente em 1807 e tornando, pela única vez na História, uma colónia capital do Reino.

Em menos de 7 anos, entre 1815 e 1822, D. Maria II viu o mundo mudar radicalmente: o Brasil passa a Reino, depois torna-se independente e vira um Império atlântico; Portugal começa a sua transformação revolucionária, que confrontará dois irmãos, seu pai e seu tio e dividirá todo um país, entre os tradicionalistas absolutistas e os liberais constitucionais.

D. Maria II ainda passa um ano exilada em Inglaterra, onde conhece a futura Rainha Vitória, com quem estabelece uma amizade terna até ao fim da vida. Este é um momento curioso da exposição, com caricaturas coloridas de William Heath, a descrição da recepção à jovem rainha em Windsor ou o estandarte liberal, bordado pela própria em Inglaterra e dado ao batalhão de Caçadores nº 5 que guiara o levantamento da ilha Terceira à Carta Constitucional. Na obra que Almeida Garrett lhe dedica, Da Educação (1829), o autor deixa um conselho moderno à jovem de 15 anos, que terá de enfrentar um mundo político novo e mostrar um caminho nunca antes traçado a homens bem mais velhos e experientes do que ela: “uma princesa que tem de reinar por si e por seu próprio direito, é fêmea de facto e varão de direito e a educação tem, neste caso, de contrastar a natureza, e diminuir quanto é possível a mulher, para que só fique a rainha”.

Outro dos núcleos mais intimistas é o respeitante aos 3 maridos da jovem monarca: o tio D. Miguel, o irmão da madrasta, D. Augusto de Leuchtenberg e, finalmente, o grande amor da sua vida, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, de quem terá 11 filhos.

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Talvez a parte mais desconhecida daquela que ficou cognominada de “A Educadora” seja a da sua relação com as artes, aqui bem patenteada pela alegoria de António Manuel da Fonseca sobre Erato - o Génio das Artes, segurando um medalhão com as efígies dos soberanos. Igualmente vemos testemunhos da admiração de outros famosos nomes ao casal régio, como atestam a marcha húngara, composta, dedicada e tocada em Janeiro de 1845 por Franz Liszt a D. Fernando II, ou a ópera D. Sebastião, composta por Gaetano Donizetti e dedicada a D. Maria II. Como aprendemos na exposição, teve uma infância atribulada e sentiu falta de uma formação mais sólida, daí que uma das suas principais preocupações tenha sido a educação. Os seus esforços para a criação das escolas primárias e liceus, assim como escolas médicas, academias, Instituto Agrícola ou o Conservatório de Música ajudaram a melhorar a escolaridade de um povo maioritariamente analfabeto. Outras reformas, que se iniciaram por sua vontade, sob uma faceta mais industrializada, acabaram por se finalizar nos reinados dos seus dois filhos, D. Pedro V e D. Luís I.

Após um pequeno gosto feito à nossa curiosidade com algumas jóias da rainha e segundo um esforço de investigação notável e rigor na concretização, acaba-se a exposição com o quarto que ocupou no Palácio das Necessidades. Aí compreendemos o espírito romântico da época, em meio a peças que a rainha juntou das suas viagens, os retratos de familiares ou o toucador onde fazia a sua toilette, não podendo ser mais íntimo e acolhedor na despedida.

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Por fim, o catálogo. Um extraordinário testemunho desta excelente exposição, com textos cheios de surpresas e mistérios desvendados por cada peça que, momentos antes, nos havia deslumbrado, sobre a vida daquela que foi a última mulher a ocupar o cargo de Chefe de Estado em Portugal.

Legendas das fotografias:

Fig. 1 – Retrato da rainha D. Maria II por John Simpson, 1837.
Fig. 2 – A Coroa Portuguesa (com a bandeira vigente entre 1820 e 1910 por detrás e a sombra do busto da Rainha em frente).
Fig 3 – Reconstrução do quarto da rainha no palácio das Necessidades.

Aline Gallasch Hall de Beuvink,

Presidente do Núcleo da Costa do Estoril da Real Associação de Lisboa

Publicado originalmente na Revista Olá - do Semanário Novo.

Dona Maria II de volta ao Palácio da Ajuda

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Esta é uma fotografia do estandarte liberal com 138 x 202 cm bordado pela Rainha D. Maria II aos 10 anos que estará na origem do pavilhão azul e branco oficial da Monarquia Portuguesa até Outubro de 1910, pertencente na actualidade à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. O Vasco Rosa escreve no Observador sobre a exposição "D. Maria II. De princesa brasileira a rainha de Portugal" que estará patente ao público a partir de amanhã no Palácio da Ajuda. Leia aqui

D. Afonso, Príncipe da Beira

A propósito da recente visita da Família Real aos Açores

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Augusto Ataíde convidou-me para as cerimónias que no Jardim José do Canto, celebraram um segundo centenário do criador dessa joia científica da jardinagem, como diz Isabel Soares d'Albergaria, prestaram homenagem ao Rei D. Carlos, a propósito da Visita Régia aos Açores, em 1901, e para que o herdeiro do trono, D. Duarte, tivesse oportunidade de ali plantar uma árvore, bem junto doutra que o Presidente Rebelo de Sousa ali colocou. Uma banda de música interpretou hinos oficiais e um pequeno grupo de Romeiros rezou e cantou o Terço, na pequena Ermida consagrada à Avó do Salvador. Houve convívio em que os reais visitantes conversaram simpaticamente com meia centena de convivas, gerando uma ambiência agradável que permite reviver recordações de factos e pessoas que duma maneira ou doutra entraram nas nossas vidas. D. Duarte é um bom conversador e soube louvar as nossas ilhas limpas do vírus que tanto nos atormenta, chamando a atenção para Timor que desde sempre seguiu de perto. D. Isabel, mulher inteligente e culta, discorre com facilidade sobre açorianos que conheceu e conhece dando ao interlocutor a imagem de quem cumpre, como Mulher e Mãe, a muito dificil tarefa, de construir e manter uma Família Real respeitável e respeitada, símbolo duma Nação espalhada pelo mundo, por Povos independentes e autónomos falando a mesma língua, que no filiado e no dizer de Pessoa, é a própria Pátria. Restava-me tentar conhecer o primogénito da Casa Real, D. Afonso que a tradição intitula Príncipe Real ou Príncipe da Beira. Nestas reuniões sociais, as pessoas circulam de grupo para grupo (guardando as pandémicas distâncias), e chegou a vez de conhecer o herdeiro do trono que falou como se sempre nos tivéssemos conhecido. Percebi que a educação que recebeu permitirá manter viva uma instituição que, mesmo fora do poder, encarna a ideia imortal da portugalidade de que nós açorianos somos parte autónoma e essencial.

Carlos Melo Bento - 19 de Maio de 2021 in O Açoriano Oriental

Chafariz D’El-Rei

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Um dos mais antigos chafarizes de Lisboa, senão o mais antigo, está hoje seco. É-lhe atribuída uma origem anterior à nacionalidade e uma existência que se confunde com esta. A história e a vida que se estruturaram em seu redor ainda são perceptíveis graças às muitas representações que o retratam ao longo dos séculos. Uma delas foi mesmo objecto de polémica há relativamente pouco tempo. Uma placa ali colocada testemunha que foi “EDIFICADO NO SECULO XIII FOI REFORMADO PELO REI D. DINIS RECONSTRUIDO NO ANO DE 1747 REPARADO DEPOIS DE 1755 E MELHORADO NOS MEADOS DO SECULO XIX.”

Apesar das melhorias e de as todas alterações sofridas, o chafariz D’El-Rei já não dessedenta ninguém. Nada corre das suas bicas. Onde se esperava fluidez e frescura encontra-se, afinal, secura e aridez. Em vez de fonte de vida, é um cenário. Passado sem presente nem futuro. Uma peça de museu com uma única função: recordar o que foi e o que ainda poderia ser. Porque a água continua a correr no seu interior.

Mais do que uma memória de um outro tempo, o chafariz D’El-Rei encerra toda a potencialidade da sua regeneração. Havendo vontade para isso, a estrutura bloqueada pode conhecer a revivificação e reencontrar o caminho de serviço que lhe dá sentido.

A fonte seca, privada da água que lhe conferia um destino e da coroa sobre as armas portuguesas que sublinhava a sua identidade, é visitada por muitos que ali param e que tentam decifrar a sua função. Não é fácil compreendê-la sem que ninguém dali beba.

O seu nome mantém-se porque o escopro da destruição demora mais a erodir as palavras que as pedras. Por muito que o sequem e que o destruam, o chafariz é do Rei. Cento e dez anos passados da imposição da república, aquela ainda é a sua fonte.

O chafariz D’El-Rei espelha o nosso estado colectivo. Como diria Salgueiro Maia, o Estado a que chegámos. Em vez de comunidade viva, alimentada pela ligação constante e natural com uma chefia do Estado que o corporiza, somos uma memória mal cuidada entregue a zeladores de turno e às respectivas personalidades e inclinações.

Os verbos “ser” e “estar” não são sinónimos neste caso: o Rei é e um Presidente da República está. E nunca está o tempo suficiente para ser, nem é o bastante para efectivamente estar. As sucessivas passagens presidenciais e a sobrepartidarização da figura que, sendo política, deveria permanecer acima dos políticos, priva-nos da continuidade que facilitaria todas as mudanças. Entorpece e seca os relacionamentos, ajuda a cavar antagonismos e amplifica as incompreensões mútuas.

Mais do que fons honorum, a monarquia é fons vitae. Sem um chafariz que a todos congregue, restam-nos poços particulares mais ou menos exclusivos, mais ou menos excludentes. A atomização social que hoje experimentamos, agravada pela pandemia, recomenda a revisitação da história e dos espaços comuns, a recuperação da política no que ela tem de mais nobre e a revitalização da ligação entre gerações. Uma chefia do Estado suficientemente estável para o permitir e suficientemente enraizada para não precisar de se justificar saciaria a nossa sede de legitimidade e de futuro.

João Vacas

publicado originalmente no  Correio Real nº 22

A Real Associação de Lisboa é uma estrutura regional integrante da Causa Real, o movimento monárquico de âmbito nacional. Esta é uma associação que visa a divulgação, promoção e defesa da monarquia e da Instituição Real corporizada na Coroa Portuguesa, cujos direitos dinásticos estão na pessoa do Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e em quem legitimamente lhe vier a suceder. Cabe a esta associação a prossecução de iniciativas e de projectos de interesse cultural, social, assistencial e de solidariedade que visem a dignificação, a valorização e o desenvolvimento dos seus associados e da comunidade em que se insere.

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