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BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

Mensagem de 1 de Dezembro de 2025

S.A.R. o Senhor D. Duarte, Duque de Bragança

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Portugueses,

Reunimo-nos hoje, na véspera do Primeiro de dezembro, para celebrar a Restauração da Independência de Portugal em 1640, símbolo da nossa determinação em preservar a identidade e a soberania como povo livre.

Ao recordarmos este momento histórico, lembramos que os princípios da Restauração: a fé, a ordem, a defesa da liberdade e da soberania permanecem essenciais à nossa convivência democrática.

Num mundo em constante mudança, é vital reafirmar estes valores, protegendo a nossa identidade e coesão social, em harmonia com a participação, pluralidade e os direitos de todos.

O equilíbrio entre abertura e soberania é um desafio

A Lei dos Estrangeiros deve refletir o equilíbrio entre a tradição de hospitalidade portuguesa e a proteção dos interesses soberanos do Estado. Portugal sempre recebeu diferentes povos e culturas, mas a experiência histórica ensina que a abertura deve ser acompanhada de prudência, responsabilidade e respeito pelas normas nacionais.

Num mundo marcado por migrações e ameaças complexas, esta lei deveria ser mais que um instrumento administrativo, deveria ser também um meio de proteger a soberania e a segurança coletiva, promovendo inclusão e vigilância. Guiados pelo espírito cristão, devemos assegurar que todos, nacionais e estrangeiros, contribuam para o bem comum, respeitando a cultura e os valores de Portugal.

Tal como os Conjurados da Restauração enfrentaram os desafios do seu tempo, hoje cabe-nos garantir que a Lei dos Estrangeiros proteja os interesses nacionais sem perder de vista a dignidade de quem escolhe Portugal como lar, fortalecendo a unidade e a resiliência democrática da nossa sociedade.

A minha recente visita ao Bangladesh, acompanhado pela minha Família, assume um significado especial num momento em que muitos migrantes bengaleses em Portugal enfrentam episódios de discriminação. Este gesto diplomático e simbólico ajuda a recordar a profunda tradição histórica portuguesa de abertura ao mundo e de respeito pelas comunidades que connosco constroem o país.

Ao deslocar-me ao Bangladesh, reafirmo não só a valorização da diáspora que escolheu Portugal como destino, mas também o nosso compromisso moral com a dignidade humana, independentemente da origem. É um sinal claro de que aqueles que vivem e trabalham entre nós fazem parte da nossa comunidade e merecem reconhecimento, proteção e respeito.

Esta visita é um espelho do país que queremos ser: um Portugal, que sempre foi de migrantes, consciente da sua própria história, fiel à sua identidade plural e orgulhoso de estender a mão a quem o procura para viver com segurança, esperança e futuro.

A visita à Hungria

Este ano foi também para a minha Família e para mim uma honra regressar à Hungria e ser recebido pelas mais altas figuras do Estado, num encontro que reforçou os laços históricos e culturais que unem os nossos dois Povos. Nesta visita, tivemos oportunidade de refletir sobre temas essenciais, como a importância da Família, a preservação das nossas tradições e a necessidade de enfrentar de forma responsável o desafio da imigração ilegal. Defender a legalidade e a dignidade humana não é contraditório com a abertura ao mundo, pelo contrário, é complementar. Tal como sublinhei na recente deslocação ao Bangladesh, Portugal tem o dever de respeitar e apoiar aqueles que escolhem o nosso país por vias legítimas, integrando-se e contribuindo para a nossa sociedade. Combater a imigração ilegal significa precisamente proteger essas comunidades, garantir justiça e assegurar que o acolhimento se faz com ordem, respeito e humanidade.

Complexidade das Ameaças Modernas: Guerra Híbrida

A guerra fria reentrou no vocabulário do dia a dia, a ameaça nuclear paira de novo. As ameaças à soberania e à democracia assumem formas subtis e, por vezes, impercetíveis. A guerra híbrida é, talvez, o maior desafio à nossa capacidade de defesa coletiva. Trata-se de um fenómeno complexo, que combina métodos convencionais e não convencionais, onde a desinformação, a manipulação das redes sociais, os ataques cibernéticos e a pressão económica se cruzam com tentativas de enfraquecer a nossa coesão interna e a confiança nas instituições.

É imperativo que saibamos identificar, compreender e responder, de forma prudente e determinada, aos novos perigos que se colocam à nossa liberdade.

A defesa contra a guerra híbrida exige vigilância, cooperação entre instituições, educação cívica e tecnológica, bem como uma cidadania informada e ativa. Não basta confiar na força das nossas tradições; é preciso adaptá-las aos desafios do século XXI, sem nunca abdicar dos nossos valores essenciais.

A Causa da Lusofonia

Ao celebrarmos o 1º de Dezembro, não evocamos apenas a Restauração da Independência de Portugal, mas afirmamos a dimensão global da nossa língua e dos valores que nos definem enquanto povo. Entre esses valores, a Família ocupa um lugar central: é onde se constrói a identidade, onde se transmitem costumes, memórias e sonhos. É também o elo fundamental que nos liga a todos os que, espalhados pelos cinco continentes, falam português e partilham da nossa história.

Com mais de trezentos milhões de falantes, a lusofonia não é apenas um património linguístico: é uma comunidade viva de culturas, valores e responsabilidades. A herança desta língua exige de nós orgulho e dever. O dever de manter vivos os laços que unem Famílias, comunidades e nações, e de promover a cooperação entre todos aqueles que partilham desta tradição.

O futuro da lusofonia depende da nossa capacidade de reforçar esses vínculos: através do ensino da língua, do respeito pela diversidade, do fortalecimento das relações entre países e comunidades lusófonas, e, acima de tudo, da proteção da Família como berço dos cidadãos de amanhã. Só assim podemos construir sociedades democráticas, justas e seguras, onde cada indivíduo encontra lugar para crescer, contribuir e sonhar.

Por essa razão estive presente há alguns meses na 4ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas, em Timor-Leste. Uma instituição esquecida por muitos em Portugal, mas que faz essa ligação entre os vários povos de raiz portuguesa que referi anteriormente.

Que este 1º de Dezembro nos lembre de que Portugal não é apenas a sua história ou o seu território, mas também a comunidade de almas que, em cada canto do mundo, continuam a falar, a ensinar e a viver a língua que nos une.

Neste contexto foi com grande alegria que a minha Mulher e eu tivemos a oportunidade de tornar a visitar Goa onde fiquei encantado por reencontrar a força da Memória Portuguesa na população, na arquitectura e na hospitalidade.

Presidenciais

No início do próximo ano vamos ter eleições presidenciais. É nestes períodos de transição que se torna legítimo refletir sobre o modelo político que melhor corresponde à identidade nacional e às aspirações do povo. Talvez este seja o momento de revisitar, com serenidade e espírito histórico, a solução monárquica como fator de estabilidade, continuidade e unidade. Não como recuo ao passado, mas como possibilidade de renovação, ancorada numa tradição que sempre procurou colocar a nação acima das disputas partidárias. O importante, acima de tudo, é que Portugal encontre o caminho que mais profundamente reflita a sua alma e a sua história.

Visita a Sua Santidade

Foi com profunda emoção que, acompanhado pelo meu filho, Dinis, fui recebido há mais de um mês por Sua Santidade o Papa Leão XIV. Nesta ocasião solene, transmiti ao Santo Padre os cumprimentos e votos de fidelidade da Família Real Portuguesa para o pontificado que agora se inicia, desejando que o seu ministério seja fonte de paz, esperança e renovação espiritual para todos os povos. Tive igualmente a honra de apresentar os novos símbolos da Ordem do Arcanjo São Miguel, símbolos que recuperam a heráldica original, preservando a memória e a tradição que lhe estão associadas. A Ordem, fortalecida por delegações espalhadas pelo mundo, tem adquirido um papel de grande relevância, particularmente junto das comunidades do Leste europeu que enfrentam as duras consequências da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. A nossa missão, mais do que nunca, é apoiar, proteger e inspirar aqueles que sofrem, reafirmando que a fé, a honra e o serviço ao próximo continuam a ser pilares essenciais da identidade portuguesa.

Conclusão

Ao celebrarmos a restauração da independência, lembremos que a nossa voz ecoa em trezentos milhões de lares, escolas, praças, parlamentos e, sobretudo, Famílias. Que saibamos honrar este património, cuidando da nossa língua, promovendo a união entre todos os que a partilham e defendendo a Família como base da sociedade. Assim, continuaremos a ser, juntos, protagonistas de uma história comum feita de liberdade, fraternidade, esperança e de laços Familiares inquebrantáveis.

É este o compromisso em que a minha Família e eu próprio estamos empenhados e comprometidos, sempre à disposição dos Portugueses para servir no que for entendido como necessário.

A minha Família e eu desejamos a todos um Santo Natal e um ano de 2025 abençoado por Deus!

Viva Portugal!

D. Duarte

Uma declaração de desvoto

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Nos próximos meses a contenda vai agitar-se, a cadeira de Chefe de Estado está a vagar e há que lá sentar uma personalidade nacional que satisfaça uma significativa proporção de portugueses, capazes de o exibir na lapela. A expectativa do regime, uma ilusão benigna, é que no final da contenda todos se sintam representados por essa figura. Evidentemente que tal ensejo é irrealizável, mas todos nos conformámos com o circo. No dia seguinte ás eleições, os eleitores assistirão a um processo de erosão, de desmistificação do eleito, fenómeno que, basta consultar os jornais, se repete inexoravelmente desde o início desta terceira república. Os crachás cairão das lapelas dos adeptos, mesmo dos mais fervorosos, como folhas secas no outono. A questão está no facto das pessoas terem memória curta e por isso não discernirem que o problema não está no malabarista que ocasionalmente é inquilino de Belém, mas na arquitectura retorcida e ineficaz do regime de Chefe de Estado que nos coube em azar. Todos saberão o que eu penso do assunto, não nos detenhamos nisso.

A relativa novidade da eleição que se avizinha, é a excepcional partidarização e consequente atomização dos profusos candidatos que se propõem ir a votos. Da esquerda extrema à direita trauliteira temos protagonistas para várias sensibilidades partidárias, sendo naturalmente o centro do bolo a fatia mais cobiçada. O sectarismo das candidaturas é, no entanto, indisfarçável, facto que, tendo em conta o papel que cabe a um Chefe de Estado, de representar toda uma Nação, não deixa de ser estranho. Se não vejamos: Marques Mendes foi o candidato presidencial anunciado no congresso do PSD, e prepara-se para receber o apoio do CDS, ou seja, será o candidato da AD. Mesmo que sem apoio unânime, António José Seguro, destacado militante socialista, obteve a anuência do seu partido para tentar finalmente reconquistar o Palácio de Belém para a esquerda, de lá apeada há 20 anos. André Ventura candidata-se para aumentar a base de apoio do Chega, fazer tanto barulho quanto possível, perorar contra os ciganos e contra os imigrantes – entretenimento puro para o comentariado e para os debates. Em termos de espalhafato só lhe faria frente a Joana Amaral Dias que, no entanto, não goza de grande simpatia nos Media. A Catarina Martins caberá a ingrata tarefa de levantar as bandeiras do Hamas, das minorias LGBT, e as franjas esquerdistas do PS, entre outras micro-causas, sempre contra o "patriarcalismo reaccionário". Imaginem a mensagem de Ano Novo da presidenta Catarina Martins se ganhasse as eleições. Mais abrangente será o discurso de Cotrim de Figueiredo, mais um a disputar o centro a Marques Mendes, e a fincar o seu partido na agenda das presidenciais. Admirável é a fidelidade dos comunistas ao seu eleitorado em vias de extinção, no boletim constará orgulhoso António Filipe que se sacrifica a correr para Belém.

Desenganem-se aqueles que, por eu ser um conservador, pensam que tenho alguma predilecção por militares, fardas ou patentes. Como a história dos últimos duzentos anos nos reclama dos livros, foram mais as vezes que as suas intromissões na política deram asneira do que o contrário. Escuso de listar aqui uma interminável lista de sinistras personagens fardadas que nos fadaram a este triste destino. Não é por isso que nutro alguma simpatia pelo Almirante Gouveia e Melo, cuja candidatura emerge fora dos partidos. Se os partidos são importantes numa democracia liberal, parece-me redutor que tudo se tenha de cingir a eles e às facções que representam na vida pública. E se, na lógica “republicana”, faz sentido o presidente emergir das facções em litígio, também deveria ser natural que a sua eleição obedecesse a outra ordem de razões – nem sempre, nem nunca. Já o disse aqui há atrasado: a mim, parece-me que a figura de Gouveia e Melo é o que vislumbro de mais parecido com um Chefe de Estado independente, sóbrio, austero e patriota - o rei.

O campeonato das presidenciais definitivamente não é para mim que disso sou objector de consciência, mas entristece-me ver tanto preconceito contra o único candidato apartidário. Tiranizado o espaço público pela hegemonia partidocrata, seria uma boa surpresa para mim que o Almirante passasse à segunda volta.

Continuidade e referência

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Neste número da revista Correio Real em que se assinalam as efemérides festejadas recentemente pela nossa querida Família Real temos o dever de realçar as boas notícias no campo dos monárquicos. Acontece que, aos dias de hoje, podemo-nos congratular com a quase completa extinção, de morte natural, do velho jacobinismo republicano. O jacobino revolucionário à francesa, que deu expressão ao “politicamente correcto” do século XX português, tornou-se irrelevante. Bem sabemos que, enquanto vão desaparecendo os últimos exemplares dessa gente maldisposta e ressentida, minoritária, mas ruidosa, que por tanto tempo dominou o espaço público nacional, uma nova variante do vírus vai desabrochando com outros sintomas igualmente perversos. O seu ódio corrosivo já não é dedicado ao rei, mas à identidade portuguesa – agora somos mais, assim nos saibamos defender.

Mas é esse moribundo radicalismo que explica como foram duros os desafios travados durante décadas pelo Senhor Dom Duarte na afirmação das suas causas.  Explica porque esses herdeiros de Afonso Costa resistiram de forma tão obstinada e mesquinha a agradecer ao Duque de Bragança os seus precoces, continuados e persistentes esforços para a Independência de Timor em 2002. O Povo de Timor, ele mesmo, tratou de saldar essas contas, como sabemos.

Curioso foi o testemunho que ouvi dum jovem angolano condutor de Uber, cuja nacionalidade era denunciada pela emissora de Luanda que o mostrador do rádio exibia. Para fazer um pouco de conversa, perguntei-lhe se era natural da capital de Angola, ao que o rapaz me respondeu que não, que era oriundo de Cabinda. Então, aproveitando a atenção do seu interlocutor, desabafou com espontaneidade a sua genuína preocupação com os problemas deste riquíssimo enclave, a opressão do seu povo que anseia por outra atenção do governo central. Com um discurso estruturado na descrição desse sensível imbróglio político, foi com surpresa que o ouvi tecer rasgados elogios ao Duque de Bragança, pela sua independente e corajosa posição a respeito do diferendo.

De facto, longe dos holofotes e sem reclamar reconhecimento, o Senhor Dom Duarte, além das estradas e caminhos de Portugal, que conhece como poucos, há décadas que percorre os territórios e visita as mais recônditas comunidades da lusofonia onde é acarinhado e muito respeitado, sempre a construir pontes e a semear laços de paz.

A outra boa notícia que gostava de assinalar nestas linhas é a consolidação institucional da Casa Real portuguesa e o crescente estreitar da sua relação com os portugueses. A solidez de uma instituição serve para defendê-la das contingências e circunstâncias imponderáveis, é garantia de futuro. Esta consolidação tem, nos últimos trinta anos, nomes e caras: os Duques de Bragança, Dona Isabel e Dom Duarte.

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P.S.: No passado dia 26 de Julho o Senhor Dom Duarte de Bragança apadrinhou a assinatura de um protocolo com a Montis, Associação para a Gestão e Conservação da Natureza. O rei, o terrtório e as suas gentes é uma bela conjugação. Saiba mais AQUI

Texto adaptado do editorial da revista Correio Real nº 31

 

Para ilusão benigna, escolha-se uma realista

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A cena repete-se a cada cinco anos, com mais ou menos despudor, mais ou menos confrangedora, o posicionamento dos putativos candidatos à disputa eleitoral para a corrida a Chefe de Estado de Portugal. Este ano a particularidade é a candidatura de um militar que concorre à margem dos partidos, numa clara aproximação à estética monárquica, suprapartidária. E entende-se bem porquê.

Se os partidos constituem alicerces fundamentais, reguladores das diferentes tendências ou concepções ideológicas rivais que despontam da sociedade, sempre conflitual e competitiva, no modelo constitucional português, herdado do liberalismo monárquico, parece-me redundante, e até equívoco, o costume de o Chefe de Estado emanar dum partido político. Tirando o caso de Ramalho Eanes tem sido assim sempre desde o 25 de Abril. Tal acontece na ingénua presunção de que, no dia seguinte às eleições, os portugueses adiram à ilusão de que o mais alto magistrado da Nação tenha fechado as suas convicções sectárias a sete chaves num baú atirado à Fossa das Marianas. E que as suas pretéritas actuações no palco das quezílias partidárias não tenham passado de dramatizações artificiais para a conquista do poder. Mais um prego para o caixão do sistema.

A natureza humana é aquilo que é, e pouco haverá a fazer para a domesticar, sem ser com muita violência. Uma sociedade saudável é inevitavelmente conflituosa, competitiva, inquieta, combativa. As disputas emergem a cada momento nas famílias, nas empresas, em qualquer organização social. Aquilo a que chamamos “civilização” é a regulação eficiente dessa conflitualidade e a mitigação dos perigos inerentes aos excessos que essa violência implícita comporta, às vezes com pulsões de morte. É neste âmbito que se compreende a estruturante eficácia dos partidos, que são instrumentos de conquista de poder, um dos mais letais instintos humanos. Por isso, quando vejo deputados no parlamento à beira do histerismo a esgrimir argumentos, a disparar palavras e frases bombásticas com os seus antagonistas no lugar de espadeiradas ou rajadas de metralhadora, fico contente com esses sinais de civilidade. As fúrias ficam-se por palavras, e as razões revestem-se em ideais, mais ou menos sofisticados, mais ou menos nobres. Mas no início, lá bem no fundo, está um inevitável instinto guerreiro, uma propensão existencial para o conflito e para a contenda, uma inquietação voraz de poder. É inegável a eficácia das democracias liberais na mitigação destas autofágicas pulsões humanas.

Já não entendo é a necessidade que se proclama no espaço público de que o chefe máximo da nação participe e provenha desse teatro de guerra. Somos, como seres humanos, criaturas únicas e irrepetíveis, muito mais do que as nossas crenças e convicções. Por isso é que acredito, que um país antigo como o nosso merecia, no topo da pirâmide do Estado, em contrapeso com a restante arquitectura, uma instituição mais representativa da nossa identidade, mais agregadora, realmente independente das inevitáveis refregas entre os grupos de interesses e pertenças sectárias. A Pátria em figura humana.

E não me conformo que esta discussão não desponte no espaço público, viciado no degradante circo, na despudorada hipocrisia que consiste a disputa das putativas candidaturas a Presidente da República. Uma tristeza muito grande.

Publicado originalmente aqui

A glória e o prestígio das instituições

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A motivação para a disputa política (em termos latos) na assunção de cargos de relevo público é um tema que me vem merecendo reflexão. O que atrai um individuo a ir à luta dentro de um partido ou organização cívica? É possível a criação de incentivos para envolver “os melhores” da nossa comunidade para as maçadas e sacrifícios que implicam as causas públicas?

Sou daqueles que considera ser importante uma justa remuneração dos altos cargos políticos, algo que não acontece nos nossos dias. Actualmente a assunção de um cargo de responsabilidade num governo ou autarquia implica, para uma pessoa habilitada e perfil para as funções, um sacrifício pessoal em matéria de vencimento. Mal comparado, como no séc. XIX em que só aqueles que tinham fortuna familiar podiam ambicionar a uma carreira política. Esse facto provavelmente afastava muita gente com muito mérito e apetência.

Mas confesso que não acredito que o dinheiro tenha assim tanto peso na discriminação dos “melhores”. A vida tem-me demonstrado que a grande maioria das pessoas que alcançaram cargos de relevância pública o fizeram movidas por um instinto de combatividade, um “bichinho” indomável, acompanhado por mais ou menos idealismo. Algo que nasce com as pessoas. Ou seja, parece-me que a principal motivação, para diferentes funções e graus de responsabilidade e escala de relevância pública, quem na sociedade civil se envolve neles o faz por inconformismo. Por causa duma inquietação existencial inata, que na maior parte das vezes vai conduzir o individuo a funções de liderança ou de relevância social. Não me parece de todo que a motivação material seja o factor preponderante na escolha dum percurso desses.

Naquilo em que eu acredito é no peso do prestígio das instituições para a atracção dos melhores. A escolha de despender energias, de devotar e sacrificar a vida num determinado cargo público, tem principalmente a ver com a autoridade que emana dessa função. Definitivamente a atracção da glória, do reconhecimento social, é um factor muito mais determinante que o material.

Daí que, antes de tudo o mais, o mais importante, e, no entanto, o mais difícil para a atracção dos melhores, seja o prestígio das instituições a que se concorre. Sei bem como é difícil inverter a lógica da “má moeda que afasta a boa moeda”, da rampa deslizante em que se vêm desgastando o prestígio das mais importantes funções do Estado.

E como bem sabem V. Exas., quanto a mim devíamos salvaguardar desta lógica mesquinha e imponderável o mais alto magistrado da Nação.

Páginas de resistência – homenagem a Jacinto Ferreira

Desde tenra idade que nutro especial gosto por jornais, revistas, jornalismo e pelo mundo editorial em geral. Foi por isso para mim uma boa surpresa a descoberta tardia de Jacinto Ferreira (1906 – 1995) e do Jornal “O Debate” que fundou e que se veio a tornar numa referência entre os muitos portugueses que não se conformavam com a cristalização da república que o Estado Novo ia promovendo depois dos anos aziagos da Primeira República. Nesse sentido, a Real Associação de Lisboa através da sua Chancela “Razões Reais”, associada à família do indómito monárquico, promoverá no próximo dia 14 de Fevereiro pelas 18:30 no Grémio Literário o lançamento da Antologia “Deus Pátria Rei” que contará com a apresentação do Prof. Manuel Braga da Cruz.

De facto, a resistência monárquica em Portugal teve, ao longo dos últimos mais de cem anos, muitos rostos que correm o risco de serem esquecidos pela História. O que queremos com esta antologia é prestar homenagem a um dos mais importantes protagonistas dessa luta, Jacinto Ferreira, que com o seu pensamento e escrita pautou toda uma geração de monárquicos.

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Do muito que escreveu, chamou-nos a atenção este trecho tão realista, aos nossos dias uma verdade dura como punhos: «A doutrinação é a pedra angular de toda a actividade política, não só porque ela contém em si a garantia da expansão de princípios, como também porque só mediante ela é possível criar vontades decididas e convicções capazes de dar corpo aos princípios abraçados. É da adesão das inteligências mais do que das inclinações sentimentais, que há-de resultar a profunda transformação em geral desejada e considerada indispensável para a redenção de Portugal» (Fevereiro de 1956).

Foi imbuído nesse ideal que, com persistência e arrojo, Jacinto Ferreira por ocasião da Revisão Constitucional e da morte do Marechal Carmona em 1951, quando subitamente era recolocada na agenda a questão do regime, fundou o jornal “O Debate”, o mais relevante órgão de comunicação monárquico do século XX, que subsistiu com grande tiragem até 1974. Idealista e lutador, fiel ao ideário integralista, senhor de uma inusitada independência, o cientista e Professor Catedrático da Escola Superior de Medicina Veterinária jamais poupou forças na dedicação à Causa Monárquica, de que são testemunho as páginas deste livro, cujos textos surpreenderão todos aqueles que pensam que não havia debate e confrontação de ideias dentro do regime. Quantas vezes alvo de censura, “O Debate” promovia uma intensa disputa de ideias e opiniões sobre os mais variados temas políticos em agenda na época, realçando sempre com a bandeira realista e proclamando a lealdade à Casa de Bragança na pessoa do Senhor D. Duarte Nuno.

Nestes tempos de exacerbado individualismo, «pobre é quem não tem a quem servir», um empreendimento gratuito, uma utopia que dê sentido e ilumine mais fundo uma existência inevitavelmente árdua. Deus, Pátria e Rei foram esse sentido para Jacinto Ferreira, tornando as suas horas extra dedicadas a “O Debate” um contributo que se revelou fundamental para que possamos aos dias de hoje manter viva a nossa Causa Real. Neste livro, com prefácio de Manuel Braga da Cruz, em quase 400 páginas encontram-se alguns dos seus textos mais significativos, que a chancela Razões Reais publica com orgulho e cujo lançamento a todos se convida presenciar.

Publicado originalmente aqui

Espírito de Serviço e de Missão

(Lisboa, Igreja de São Vicente de Fora, 1-2-2025)

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Homilia na Missa de sufrágio por Sua Majestade Fidelíssima el-Rei D. Carlos e pelo Príncipe Real, D. Luís Filipe

  1. Introdução. “Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, Simeão recebeu-O em seus braços e bendisse a Deus, exclamando: ‘Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo’.” (Lc 2, 22.28-32).

As palavras de Simeão, “homem justo e piedoso que esperava a consolação de Israel” (Lc 2, 25) introduzem o episódio bíblico da apresentação de Jesus no templo, que se celebra todos os anos, no dia 2 de Fevereiro. Por uma feliz coincidência, esta celebração vespertina coincide com a Missa de sufrágio por el-Rei D. Carlos I e pelo Príncipe Real D. Luís Filipe que, no primeiro de Fevereiro de 1908, deram a sua vida por Portugal.

No aniversário do regicídio é um piedoso costume que Sua Alteza Real, o Duque de Bragança, na sua qualidade de Chefe da Casa Real portuguesa, mande celebrar uma solene eucaristia, não apenas pelas almas das reais vítimas desse atentado, mas também por Suas Majestades as Rainhas D. Maria Pia e D. Amélia, bem como pelo eterno descanso de el-Rei D. Manuel II. Que esta celebração tenha lugar neste magnífico templo explica-se pela contiguidade do Panteão Real, onde depois se rezará um responso pelas almas das pessoas reais aí sepultadas.

Agradeço a presença de todos os fiéis, nomeadamente os Cavaleiros e Damas da Soberana Ordem Militar de São João, também dita de Malta, e da pontifícia Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém, bem como os representantes das Ordens dinásticas de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e de Santa Isabel. Cumprimento ainda os membros presentes de outras Ordens honoríficas, o Secretário-Geral da Causa Real, o Presidente da Real Associação de Lisboa, a quem devo o amável convite para presidir a esta celebração, e o representante da Juventude Monárquica.

Saúdo também os restantes fiéis, esclarecendo que esta celebração, não obstante o significado histórico da data que evoca, não é de natureza política, mas exclusivamente espiritual, ou seja, de sufrágio pelas reais vítimas do regicídio.

Quando Jesus ensinou os seus discípulos a rezar, disse-lhes que, na sua súplica ao Pai, deviam interceder pelos seus inimigos, para poderem também obter a graça do perdão dos seus pecados. Por isso, na oração que o Senhor nos ensinou, dizemos: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Lc 11, 1-4). Imitando o Mestre quando, no alto da Cruz, pediu ao Pai que perdoasse os seus algozes, que desculpou dizendo que não sabiam o que faziam (Lc 23, 34), rezaremos também pelos que, atentando contra a vida do Rei e do Príncipe Real, feriram os nossos mais cristãos e patrióticos sentimentos. Também as suas almas carecem dos nossos sufrágios, na esperança de que a graça do arrependimento final lhes tenha permitido aceder à bem-aventurança celestial.

  1. Ano Jubilar. Para além da feliz coincidência de, neste ano, a Missa de sufrágio pelo Senhor Dom Carlos e pelo Príncipe Real ser também a celebração dominical vespertina da festa da Apresentação do Senhor, há a referir mais uma jubilosa ocorrência, qual é a de nos encontrarmos a viver, por felicíssima decisão do Papa Francisco, um Ano Santo, ou seja, um tempo de especial graça.

Com a proclamação do Ano Jubilar, o Santo Padre a todos convida à prática sacramental da penitência, para assim beneficiarmos do amor misericordioso de Deus. Com efeito, feita a confissão contrita e completa das nossas faltas, Deus concede-nos, por intermédio do confessor, a absolvição sacramental, ou seja, a graça do seu perdão. Embora este sacramento elimine a culpa, bem como a pena eterna devida pelos pecados graves já confessados, não necessariamente extingue a pena temporal por eles devida e que pode ser remida, em parte ou totalmente, pelas indulgências parciais e plenárias, respectivamente. Neste Ano Santo, qualquer fiel pode mais facilmente lucrar, para si próprio ou para um fiel defunto, a graça da remissão da pena a expiar no Purgatório. Aproveitemos, pois, esta ‘porta santa’ que agora se nos abriu para o Céu e renovemos o propósito de tudo fazer para alcançar a glória, procurando que também os nossos familiares, colegas e amigos beneficiem dos tesouros de graça que, neste Ano Santo jubilar, mais copiosamente se nos oferecem.

  1. O paradoxo da Cruz. A feliz circunstância de nos encontrarmos num Ano Santo nos enche de alegria, mas a penosa lembrança que aqui nos congrega evoca, necessariamente, um terrível crime, que parece contradizer o júbilo próprio deste especial tempo de graça.

É verdade que o carácter jubiloso deste Ano Santo contrasta com o luto pela morte das reais pessoas, mas não são sentimentos contraditórios, pelo menos à luz da fé cristã. A visão meramente humana não é capaz de ir além do que é imediato e, nesse sentido, repudia o sofrimento e regozija-se com o prazer. A perspectiva da fé ultrapassa esse imediatismo, porque foi pela Cruz que Deus redimiu o mundo. Este é, com efeito, o paradoxo da nossa fé: o maior crime jamais acontecido, como foi a morte cruenta de Jesus Cristo, foi também a maior bênção dada à humanidade! Com efeito, no sacrifício redentor do Filho, o homem pecador obteve a graça da sua salvação e, pela efusão do Espírito Santo, conheceu o amor misericordioso do Pai!

São Paulo, na sua carta aos romanos, expressa em termos admiráveis este são optimismo, que é, afinal, o realismo da fé: “eu estou certo que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem as virtudes. Nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor que Deus nos manifesta em Jesus Cristo Nosso Senhor” (Rm 8, 38-39).

Aprendamos, pois, a ler a nossa História nacional, mas também a universal e a pessoal, à luz da teologia da cruz, sabendo que, mesmo o que aparenta ser uma desgraça pode ser também uma graça de Deus. E já que sobre graças e desgraças decorre o sermão, permitam-me que recorde que, terminada a Segunda Guerra Mundial, Churchill, o estadista a quem se ficou a dever a vitória dos aliados, perdeu as eleições legislativas na Grã-Bretanha. Ante uma tão ingrata atitude dos seus compatriotas, Sir Winston ficou compreensivelmente abatido. Sua mulher, querendo-o animar, disse-lhe então que, numa aparente desgraça está sempre escondida uma graça de Deus, ao que o marido, com o seu típico humor inglês, replicou: ‘Pois olha que esta graça está muito bem escondida!’ Mais tarde, viria a reconhecer quanta sabedoria cristã havia nas consoladoras palavras da sua mulher porque, apeado do poder, o ex-primeiro-ministro dedicou-se a escrever a história da Segunda Grande Guerra, pela qual ganhou o Prémio Nobel da literatura que, decerto, não lhe teria sido concedido se tivesse continuado à frente do Governo de Sua Majestade britânica!

Talvez nem sempre nos seja dado ver o que de bom há nas situações mais adversas, mas, nesses casos, alcance a nossa fé o que não vislumbra a nossa razão, numa aceitação filial da santíssima Vontade de Deus.

  1. Os caminhos da Providência de Deus. São Lucas relata que “ao chegarem os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, como está escrito na lei do Senhor” (Lc 2, 22-23).

É por ocasião da purificação legal de Maria que, por ser já então “cheia de graça” (Lc 1, 28), dela não carecia, mas a que se quis sujeitar, para nos servir de exemplo de humildade e de obediência à Lei de Deus, que surge Simeão, “homem justo e piedoso que esperava a consolação de Israel”, a quem o Espírito Santo revelara “que não morreria sem antes ver o Messias do Senhor” (Lc 2, 25-26). A sua presença no templo, no exacto momento em que “Maria e José levaram Jesus a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor” só pode ter sido, como é óbvio, providencial, como providencial foi também que, então, profetizasse a Maria que o seu Filho “foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição” e, ainda, que uma espada trespassaria o seu imaculado coração (Lc 2, 34-35), porque a lança que já não pôde ferir o corpo morto de Jesus, trespassou, sem dúvida, o coração doloroso de sua Mãe, que estava junto à sua Cruz (Jo 19, 25).

Para além das vítimas principais do regicídio, el-Rei D. Carlos e o Príncipe Dom Luís Filipe, importa não esquecer que também o foram, de certo modo, as Rainhas D. Maria Pia, que nele perdeu seu filho e neto primogénitos, e D. Amélia, que também sofreu a perda de um filho e a de seu marido. Se nos indigna a cobardia dos assassinos, que nem sequer se atreveram a enfrentar as vítimas, que abateram cobardemente, também nos orgulha o heroísmo do Príncipe Real, que foi o primeiro a erguer-se para defender o seu augusto Pai, dando pelo Rei a sua tão promissora vida, bem como o da Rainha Dona Amélia que, erguendo-se, se expôs valerosamente às balas, numa desesperada tentativa de defender el-Rei D. Carlos e os príncipes seus filhos. O Rei e o Príncipe herdeiro foram mortos, mas morreram como heróis, enriquecendo a glória da sua Família e a de Portugal, com o mesmo sangue que mancha a memória dos seus traiçoeiros assassinos, bem como o regime implantado à custa de um tão hediondo crime.

Outras duas personagens que intervieram valerosamente nessa ocasião caíram, contudo, no esquecimento, não obstante ambas terem sido também baleadas pelo principal regicida, que foi o autor material do assassinato de el-Rei e do Príncipe Real. Trata-se de dois militares que, naquela hora trágica, reagiram com a valentia que se espera de um verdadeiro português: o soldado Henrique Alves da Silva Valente, que o não era só de nome, e o Tenente Francisco de Paula Figueira Freire da Câmara que, como estava de serviço como oficial às ordens do Rei, acompanhava, a cavalo, o landau real. Não obstante a sua diferente condição social, ambos souberam defender o seu Rei, como se o povo e a nobreza, que representavam pelas suas respectivas proveniências, neles se unissem para prestar um derradeiro testemunho de lealdade à Pátria e à Família Real.

Lê-se num recente estudo sobre o regicídio que, logo depois de disparados os tiros que vitimaram o Rei e o Príncipe Real, “um soldado de apelido Valente cai sobre Buíça, que lhe desfere um tiro sobre a coxa esquerda (…). O oficial às ordens de sua Majestade, Tenente Figueira Freire, desembainha o sabre, acutila Costa, já caído por terra, e como um relâmpago cai sobre Buíça. Reage o assassino e uma vez mais, calmamente, vendo-se acossado pelo oficial, pára e dispara, atingindo-o na coxa direita. Aos gritos de ‘assassino’, Figueira Freire atravessa Buíça com o sabre, à altura dos rins. E ali mesmo foi agarrado por populares e por soldados. Apesar de muito ferido, o assassino ainda teve forças para morder a mão de um dos expedecionários, que lhe desferiu um tiro na cabeça. E o Tenente Figueira, levemente curvado sobre a coxa direita”, ferida por uma bala do regicida, “gritava de cima do cavalo: ‘Dêem-me a carabina desse assassino!...’ Dos cinco tiros que o carregador da Winchester comportava, Buíça não falhou um único!” (Miguel Sanches de Baêna, Diário de D. Manuel e estudo sobre o regicídio, Publicações Alfa, Lisboa 1990, págs. 183-184). Caso para dizer que o regicida teve uma sorte dos diabos.

Neste relato, impressiona tanto a violência dos agressores como a fúria dos defensores, mas não se equiparem ambas acções porque, enquanto uns agiram criminosamente, outros fizeram-no em legítima defesa, não apenas do seu Rei, mas também da Pátria. Por isso, enquanto os primeiros carecem do nosso perdão e dos nossos sufrágios, a nossa oração pelas reais vítimas há-de ser de acção de graças e de louvor: que Deus os tenha na sua glória e que a Pátria nunca esqueça o seu sacrifício!   

  1. Conclusão. Na leitura da profecia de Malaquias, ouvimos a “fala do Senhor Deus: ‘Vou enviar o meu mensageiro, para preparar o caminho diante de Mim’” (Mal 3, 1). Honremos a memória de el-Rei D. Carlos e do Príncipe D. Luís Filipe, mártires da Pátria que, com o holocausto das suas vidas, nos ensinaram a gastar as nossas existências ao serviço de Deus e de Portugal. Eles, vítimas do ódio, foram mensageiros da paz, que é, decerto, o seu principal legado e maior herança, mas também da caridade cristã, porque “não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).

Lembremos também o soldado Henrique Valente e o não menos valente Tenente Francisco Figueira Freire que, mesmo feridos com gravidade, lutaram pelo seu Rei e pelo seu país, honrando as suas fardas com o testemunho supremo da heroicidade. O seu exemplo não é apenas para os militares, porque todos os portugueses, qualquer que seja a sua condição e profissão, devem estar também comprometidos com uma causa que os transcende, como é o serviço do bem comum e da nação.

Que bem soube expressar este espírito de serviço e de missão o inspirado autor da Mensagem, através da voz anónima do homem do leme! Recorrendo, nesta véspera da festa da apresentação do Senhor, à intercessão da nossa Padroeira e Rainha, Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, façamos nossa essa prece que, com a audácia dos santos e a coragem dos heróis, desafia o destino: “Aqui ao leme sou mais do que eu: sou um Povo que quer o mar que é teu! E mais que o mostrengo, que me a alma teme, e roda nas trevas do fim do mundo, manda a vontade, que me ata ao leme, de El-Rei D. João Segundo!” (Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa 1934, Parceria António Maria Pereira, pág. 56).

Assim seja!     

Gonçalo Portocarrero de Almada

Chefe de Estado

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Desconfio que por detrás da grande adesão popular à candidatura de Gouveia e Melo revelada pelas sondagens, está um sentimento de orfandade de muitos portugueses do seu  Rei, pátria em figura humana, reserva moral de um povo inconscientemente à procura de um sentido superior de existência, acima da mesquinhez das inevitáveis bravatas entre facções e disputas entre partidos e grupos de interesses.

Parece-me que a figura de Gouveia e Melo, por enquanto em silêncio – e muito por causa disso - em certa medida corresponde a esse imaginário, o de um Chefe de Estado, sóbrio, austero e patriota – em tudo diferente ao actual incumbente. Mas o Almirante não tem a legitimidade de um rei, e em breve ver-se-á obrigado a despir a garbosa farda e descer ao ringue para enfrentar os outros candidatos para uma luta intestina, a esgrimir golpes baixos, às vezes na lama.

Se a república nos provou alguma coisa é que os portugueses aguentam tudo, até terem o Rato Mickey como Chefe de Estado se a tal forem obrigados.

Surpreendente testemunho

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Ontem, fora de horas, tendo apanhado um Uber conduzido por um jovem negro, reparei no facto curioso de o mostrador do rádio exibir uma emissora de Luanda. Porque a viagem era longa, para fazer um pouco de conversa, perguntei-lhe se era natural da capital de Angola, ao que o motorista me respondeu que não, que era oriundo de Cabinda. Então, veio à liça a sua preocupação com o abandono do governo angolano deste riquíssimo enclave e da permanência do latente conflito do seu povo que sente merecer outra atenção, talvez o reconhecimento de alguma autonomia administrativa face a Luanda. Com um discurso estruturado e muito razoável face a este sensível imbróglio, foi com alguma surpresa da minha parte que o ouvi traçar rasgados elogios ao Duque de Bragança, que o jovem angolano considerou como um dos protagonistas com uma posição mais equilibrada e independente sobre o assunto.

De facto, há décadas que, longe dos holofotes e sem reclamar estrelato, o Senhor Dom Duarte percorre os territórios e comunidades da antiga portugalidade, onde é acarinhado e muito respeitado, a construir pontes e semear laços de paz.

Foi um surpreendente e consolador testemunho, este que ontem me foi dado viver. 

Mensagem de 1 de Dezembro de 2024

S.A.R. o Senhor D. Duarte, Duque de Bragança

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Portugueses,

O ano de 2024 tem sido para Portugal um ano marcado por uma carência grave de estabilidade governativa, sem a qual qualquer governação se vê incapacitada de fazer face aos problemas do país. Foram várias as situações que vivemos, com particular destaque para as coligações negativas entre partidos da oposição que forçaram decisões que vão contra o programa do Governo eleito, gerando uma incerteza grande face ao futuro.

Esta situação, decorrente da recomposição do panorama partidário português pode exigir uma reflexão sobre o nosso sistema eleitoral e sobre a necessidade da sua reforma. O sistema de representação proporcional torna o parlamento excessivamente fragmentado, dificultando a obtenção de maiorias para governar. Esta situação obriga a coligações que não conseguem terminar o seu mandato ou têm muita dificuldade em cooperar.

Precisamos de um sistema eleitoral que aproxime os cidadãos dos eleitos, que favoreça o aparecimento de maiorias, a governabilidade, a estabilidade, e que, simultaneamente, potencie ao máximo a proporcionalidade, através do círculo nacional. Um sistema misto parece impor-se, que conjugue sistema maioritário e proporcional, com um duplo voto para a eleição do parlamento.

O fim da estabilidade é favorecer o crescimento económico, sem o qual não se pode enfrentar de forma eficaz e duradoura a redução dos problemas da pobreza.

Durante os últimos anos, Portugal enfrenta novos desafios, um pouco à semelhança do resto da Europa. Destes desafios, talvez o maior seja a natalidade e imigração. O país precisa urgentemente de uma política de imigração e de uma política de natalidade. Actualmente, temos uma política frágil nesta área sem qualquer estratégia clara. Há mesmo quem pareça querer diminuir o número de portugueses e substitui-lo por não portugueses. A situação é complexa, mas a experiência mostra que os países que não controlaram a imigração estão a sofrer gravíssimas consequências.

A imigração controlada permite que esses homens e mulheres sejam devidamente apoiados a fim de não correrem o risco de serem explorados e lançados à mendicidade ou recorrerem a práticas ilegais. A política de atribuição de vistos tem que ser urgentemente adaptada à realidade atual para impedir o agravamento das consequências do descontrolo imigratório. Aos que acreditam que estes imigrantes contribuem para a sustentabilidade da segurança social, há que lembrar que uma grande parte desses imigrantes não encontram ou não estão interessados em trabalhar em Portugal, usando o nosso País como plataforma para a Europa.

Por outro lado, são necessários verdadeiros incentivos à natalidade, para que as famílias portuguesas possam ter os filhos que querem. O país precisa também de uma política de dignificação da família.

Nestes últimos anos, o país tem conhecido um clima de insegurança nas periferias urbanas, que obriga a reflectir sobre a necessidade de respeitar as forças de segurança e cuidar da inclusão social das periferias. É preciso reconhecer o compromisso diário das nossas forças policiais em proteger as nossas comunidades, muitas vezes em condições difíceis e com recursos limitados.

A sociedade portuguesa confia na sua dedicação e profissionalismo que são fundamentais para preservar a paz e a ordem pública.

No seguimento destas preocupações, é também urgente reforçar a unidade nacional prestando atenção à desertificação do Interior. Os portugueses do interior são portugueses de pleno direito. Não faz sentido retirar serviços (tribunais, finanças, escolas, hospitais…) e continuar a dizer que se pretende fixar populações no interior. Os incêndios são em parte consequências deste abandono.

Este abandono sente se não tanto nas vilas sedes de concelho, mas mais nas aldeias de onde uma parte da população vem viver para as vilas e outra parte para as cidades ou para o estrangeiro.

Quanto a esta situação, recomendo vivamente a leitura do livro “porque sou monárquico” que resume a obra de uma vida, do amigo, Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles. Ele foi o responsável para que a ecologia passasse a ser uma preocupação política do Estado, promovendo grande parte das leis actuais sobre o ordenamento do território e a promoção de uma ecologia preocupada com a natureza, mas tendo em vista o bem-estar da população. Em suma, uma ecologia verdadeiramente humanista.

A técnica que ele defendeu para impedir o alastramento dos incêndios florestais não têm sido postas em prática e a consequência está à vista com a continuação dos grandes incêndios florestais.

Infelizmente, muitas das suas reformas não têm sido respeitadas pelas autoridades regionais e nacionais em parte por ignorância e também por interesses políticos e económicos imediatos.

É urgente também que o Estado cumpra as suas tarefas de soberania: para além das Forças Armadas (cumprindo a o compromisso de destinar 2% do PIB à Defesa), também a justiça precisa de ser reforçada, para a tornar mais rápida e eficiente. O sistema prisional precisa de repensar a segurança e de cuidar da reintegração dos reclusos.

Perante a deterioração da paz a nível mundial – guerras da Ucrânia, no Medio Oriente e o terrorismo em Moçambique – é urgente dignificar e reforçar as Forças Armadas Portuguesas, para que possa responder aos seus compromissos internacionais, mormente no âmbito da NATO. A procura da paz, obriga a estarmos preparados para enfrentar os riscos de guerra.

Assim, mais uma vez manifesto a minha gratidão às nossas Forças Armadas por defenderem os valores e interesses nacionais dentro e fora de Portugal. Num período em que a segurança europeia enfrenta grandes desafios, a capacidade e o sacrifício destes homens e mulheres reforçam a confiança dos portugueses na sua missão de garantir a soberania e a estabilidade.

Noutro sector distinto, gostaria também de agradecer aos profissionais de saúde por continuarem a darem o melhor de si, mesmo perante adversidades que temos conhecido ao longo dos últimos anos. O seu esforço incansável, especialmente nos momentos mais críticos, é indispensável para assegurar um sistema de saúde digno e acessível a todos os portugueses.

Com o esforço e a dedicação de cada um, certamente Portugal continuará um País seguro, forte e saudável.

No que diz respeito ao ambiente, uma das minha principais preocupações, gostaria de destacar a importância da sustentabilidade ambiental e propor ações concretas, tais como: a Preservação dos Recursos Naturais (tais como o Incentivar de práticas de conservação de água, reflorestamento e proteção da biodiversidade);  o uso de uma Energia Limpa (com o apoio  ao uso de energias renováveis, como solar e eólica, promovendo a independência energética); uma Economia Circular (encorajando políticas que reduzam o desperdício e priorizem a reciclagem e reutilização) e uma reforçada Educação Ambiental (reforçando a sensibilização pública sobre mudanças climáticas e responsabilidade ambiental).

Essas minhas sugestões têm o objectivo de alinhar tradição e inovação em favor do ambiente.

Hoje, em tempos de desafios e oportunidades, reforço meu compromisso com Portugal e seu futuro. A nossa nação, rica em história e cultura, enfrenta grandes obstáculos, tais como a recuperação económica, o bem-estar social e o fortalecimento de nossas instituições democráticas.

Como chefe da Casa Real, enalteço o valor da unidade nacional. Apelo à colaboração entre setores públicos e privados para fomentar inovação, inclusão e sustentabilidade. Juntos, construiremos um Portugal mais próspero, com respeito ao passado e determinação pelo futuro.

Como sempre, a minha família eu próprio estamos à disposição dos portugueses para servir no que for entendido como necessário.

Desejamos a todos um feliz Natal e um ano de 2025 abençoado por Deus! 

 

Viva Portugal!

A Real Associação de Lisboa é uma estrutura regional integrante da Causa Real, o movimento monárquico de âmbito nacional. Esta é uma associação que visa a divulgação, promoção e defesa da monarquia e da Instituição Real corporizada na Coroa Portuguesa, cujos direitos dinásticos estão na pessoa do Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e em quem legitimamente lhe vier a suceder. Cabe a esta associação a prossecução de iniciativas e de projectos de interesse cultural, social, assistencial e de solidariedade que visem a dignificação, a valorização e o desenvolvimento dos seus associados e da comunidade em que se insere.

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