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BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

A liberdade para para sermos livres

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É irónico constatar como a teoria da Hegemonia Cultural (burguesa), que celebrizou o dirigente e intelectual comunista italiano Gramsci (1891-1937) e o projectou no campo da Ciência Política mais ao seu conceito de “superestrutura” (a ideologia, constituída pelas instituições, sistemas de ideias, doutrinas e crenças de uma sociedade), está, nos nossos dias, impregnada de uma indelével chancela marxista. De facto, hoje o marxismo domina a narrativa cultural e é facilmente detectável desde as produções intelectuais de massas (o chamado Soft Power, que se expressa pelo cinema, pelo jornalismo ou música pop) aos programas escolares em geral, de forma mais marcante nos ciclos de ensino mais precoce, principalmente nas disciplinas ligadas à História e às Ciências Humanas. É curioso verificar como, de uma forma ardilosa, as últimas gerações, nascidas nas prósperas democracias liberais, cresceram sob um padrão ideológico que cultiva o ressentimento social e o igualitarismo, por vezes fanático, promovendo uma tensão brutal e desequilibradora que apouca e condiciona o valor em disputa, que é o da Liberdade. A Liberdade de cada homem ou mulher se afirmar em plena autonomia psicológica e intelectual, de aprender a superar-se e fazer escolhas reflectidas e morais que não projectem sistematicamente para fora de si a responsabilidade dos seus falhanços. Foi graças a essa Liberdade que o Ocidente se afirmou no mundo.

Vem isto a propósito do modo como a História é ensinada às nossas crianças, que corresponde a uma forma de submissão mental que é plantada a jusante na capacidade crítica das novas gerações… apesar da proclamada liberdade de expressão que corre o risco de vir a ser um mero formalismo à medida que o pensamento único vai alargando a sua hegemonia.

Como dizia um amigo meu há dias, talvez a Escola se devesse limitar a ensinar Matemática, Filosofia e Latim. Concordo: era da forma que o Estado poupava muito trabalho aos pais que se vêem obrigados todos os dias em casa a desmontar os clichés e preconceitos que os miúdos aprendem e desafiá-los a pensarem pelas suas cabeças ministrando-lhes um pouco de verdade. Talvez dessa forma se estragassem menos famílias.

Texto adaptado do editorial da revista Correio Real nº 20

Entrevista a José Cid - Correio Real nº 15

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A propósito da feliz notícia da consagração do nosso correligionário José Cid com um Grammy “Prémio de Excelência Musical”, é com enorme alegria que recuperamos uma entrevista feita para o Correio Real em Mogofores na primavera de 2017.

José Cid dispensa grandes apresentações. Com uma carreira musical multifacetada, que vai do Fado, passando pelas baladas, à mais pura música Pop passando pelo Rock Sinfónico, este conceituado músico nascido na Chamusca em 1942 é representativo da diversidade do universo de monárquicos que somos todos nós. Cheguei à sua quinta em Mogofores depois de um almoço na Malaposta em Anadia gentilmente oferecido pelo casal José Cid e Gabriela Carrascalão, repasto que proporcionou uma amena conversa, que foi como um belo preâmbulo à nossa entrevista. Certo é que, talvez por ser monárquico, certamente consequência sua educação esmerada, o José Cid trata os seus convidados como príncipes, e foi como se eu tivera tal estatuto que me recebeu na sua casa e me mostrou a quinta de que tanto se orgulha, os seus cavalos e o sofisticado estúdio de gravação no último andar da casa fidalga do século XIX. Se o propósito da minha viagem ao Norte era entrevistar o cantor compositor José Cid como monárquico que sempre foi, muito bem impressionado fiquei com a profusa “iconografia” que se espalhava pela casa, reveladora dos valores que defende: as armas reais aqui, uma bandeira azul e branca ali, ou um retrato dos Duques de Bragança destacado numa bela moldura na sala de estar – decisivamente estava num ambiente civilizado e salubre. Foi numa tarde amena, no jardim junto a uma piscina de onde se vislumbravam por detrás de uma sebe as duas éguas de eleição do cantor que iniciámos a nossa conversa: 

CR - Foi da sua família que herdou a sua veia musical? Tinha um ambiente musical em casa dos seus pais?

José Cid - Sim, sem dúvida. Não dos meus pais, mas do meu avô paterno Manuel Luís Ferreira Tavares com quem vivi no Ribatejo, na Chamusca até aos meus onze anitos. Era guitarrista em Coimbra na época do Hilário. Dirigiu a Tuna, sabia música e tinha uma intuição musical muito grande. Foi ele que me ensinou a tentar tocar com a mão esquerda, porque eu em pequenito só tocava com a mão direita. Portanto a minha veia musical vem da parte da minha família Ferreira Tavares, originária de Albergaria.

CR - E tocavam em casa?

José Cid - O meu avô tocava piano e também a minha tia, Rosa Galar da Fonseca, tocava piano. E eu comecei logo a tocar piano e a cantar, em pequenito. Num piano velhote que havia no Ribatejo lá no sótão, na casa da costura. Tocava, tocava, tocava e cantava e as pessoas ficavam muito espantadas e perguntavam aos meus pais: “mas quem é que o ensinou a tocar e a cantar?” e os meus pais disseram: “Ninguém! Nem professor tem! Não tem nada!”. Foi então que me começaram a chamar “menino prodígio”, que é o titulo do meu último álbum.

CR - Em que ponto da sua vida é decidiu que ia viver para a música?

José Cid - Isso foi desde sempre. Comecei por cantar fado no Ribatejo e depois outros géneros musicais, quando entrei no colégio Camões em Coimbra, aos treze ou catorze anos. Arranjei uns amigos que tocavam também, juntávamo-nos para tocar quando podíamos, a seguir às refeições, ao almoço e ao jantar. Foi então que formámos uma banda: “Os Babies”, que foi provavelmente a primeira banda de Rock and roll de Portugal, em 1956. Depois veio a proibição dos meus pais, em conivência com o director do colégio Camões, que não queriam que eu fosse cantar para as festas universitárias. Eu, como tinha a sorte de dormir num quarto rés-do-chão, saltava pela janela e ia para lá tocar com os meus amigos.

CR – Portanto não tinha apoio em casa…

- Nenhum mesmo. Até menti à minha mãe (e claro que depois fui apanhado), dizendo que o dinheiro que ganhávamos era para as conferências de São Vicente Paulo, e aí a minha mãe já deixou. Era mentira. O certo é que depois fizemos muitos mais concertos solidários com muitas entidades religiosas, portanto redimimo-nos dessas mentiras mais tarde.

CR - A sua assumida costela monárquica tem origem cultural, familiar ou foi uma opção política racional?

José Cid - A última opção é a mais certa porque eu até já passei por uma tentação republicana, sabe? Mas depois percebi que os sistemas menos corruptos, com maior defesa dos valores da cultura, com mais igualdade de oportunidade para as pessoas, com melhor nível de vida e com maior apoio na saúde e na educação são monarquias. E como não são repúblicas, eu optei por pensar num sistema que fosse mais perfeito, um sistema mais próximo do povo, que não abusasse da ideia de povo. Esta coisa do “povo é quem mais ordena” e depois o povo passar fome, não me parece uma boa ideia, percebe? Eu gosto mais dum “povo que mais ordenha”, que tem cães, tem vacas, tem cabras, tem bens pessoais e vive melhor. É melhor assim. E eu acabei por idealizar, por conceber para Portugal um sistema que fosse mais justo, um sistema com provas dadas nas monarquias do norte da Europa, mais civilizadas sem dúvida nenhuma.

CR - O tempo confirmou algumas das suas composições como verdadeiros clássicos da música popular portuguesa. Após terminar o processo de composição, alguma vez lhe passava pela cabeça que estava a mudar a história, que tinha criado uma peça decisiva?

José Cid - Não tinha isso em mente, mas atenção: eu não pus um ponto final na minha criatividade! Neste momento tenho um álbum novo quase pronto, que eu adoro, que se chama: “O Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid” em que eu estou a cantar como se tivesse trinta aninhos. E tenho ainda outro disco feito, muito diferente, que se chama “Fados, Fandangos, Viras e Malhões”, e depois quero terminar a carreira com um último álbum que se chamará “Vozes do Além” em que retorno ao Rock sinfónico, com poesias de Lorca, de Sophia de Mello Breyner, de Natália Correia, que poeticamente espero seja o álbum mais poderoso de todos os álbuns sinfónicos que alguma vez fiz. Já está escrito, só que ainda não o comecei a gravar. O dos “Corações solitários” já está pronto, vai sair. O “Fados, Fandangos, Viras e Malhões” já está meio gravado, e depois o outro, vai ter de ser produzido em 2018, 2019 se Deus me der vida e voz.

A maior parte das minhas músicas mais conhecidas e mais comercias foram feitas nos anos 70 em que nós tínhamos que pagar a renda da casa, a prestação do automóvel, as fraldas e os biberões para os nossos filhos e o grupo 1111 passa por essa fase quando nos tornámos mais comerciais...

CR - Mas não é qualquer um que faz uma música comercial como “Vinte anos”, “A rosa que te dei” ou “O dia em que o rei fez anos”.

José Cid - Eu sou um privilegiado nesse aspecto. E muito mais ficaria da minha obra se eu não tivesse um boicote sistemático da minha obra a partir dos anos 90. Se eu tivesse mais apoio da rádio e mais divulgação de muitos temas que eu escrevi e que vão ficar absolutamente esquecidos e postos de lado. Nas últimas décadas escrevi muitos outros temas bons que simplesmente não passaram na rádio.

CR - Que razões atribui a essa ostracização?

José Cid – Por causa da minha independência. Quando não me sentia bem numa editora saía amigavelmente e ia para outra, e algumas delas multinacionais que possivelmente não ficaram contentes com essa forma de estar. Não me senti bem em algumas editoras, por isso neste momento tenho a minha própria editora que se chama “Acid Records” que publicou já alguns álbuns notáveis, um deles do monárquico António Pelarigo, outro do Zé Perdigão e o meu, “O Menino Prodígio” que é nomeado o melhor álbum da música portuguesa em 2016 pela Sociedade Portuguesa de Autores. Também já publicámos recentemente um disco do Mário Mata que é republicano, mas começa a perceber que talvez se possa ter enganado, e outro do meu sobrinho Gonçalo Tavares que, como não poderia deixar de ser, é monárquico também. Portanto a “Acid Records” é uma espécie de “gueto” monárquico na música, em que eu sou o Capitão, mas rodeado de tenentes muito bons.

CR - Alguma vez sentiu que o facto de se ter assumido como monárquico lhe trazia alguns problemas na carreira?

José Cid – Não, porque na maior parte dos partidos políticos, particularmente da área do PSD e do CDS, há sempre muitos monárquico envergonhados e como eu também nunca me declarei anti-republicano... não sou republicano mas tenho a maior admiração pelo Professor Marcelo Rebelo de Sousa que de resto faz um papel perfeito dum Rei constitucional. Porque tem sentido de Estado e revela muita humanidade dentro dele, não olham para nós como se nós fossemos números dum Excel, que é uma coisa muito má na política, uma coisa que o sistema republicano tem trazido nos últimos anos. Eu já ouvi essa opinião por parte de um outro monárquico muito importante na república portuguesa que é o presidente do Governo Regional da Madeira, o Doutor Albuquerque.

 

CR – Sendo casado com Gabriela Carrascalão, que também é monárquica e que tem uma ligação ao povo timorense, como vê a contribuição do Duque de Bragança para a autodeterminação de Timor-Leste? Considera que essa mediação foi devidamente reconhecida pelas autoridades portuguesas?

José Cid - Algumas autoridades portuguesas, particularmente o Dr. Jorge Sampaio, foram extremamente injustos com ele em relação a Timor. O mesmo não aconteceu com Mário Soares que foi sempre muito educado com o Senhor Dom Duarte que hoje tem cidadania timorense. O Duque de Bragança é timorense e em conversa muitas vezes me disse a mim e à minha mulher Gabriela, de quem é extraordinariamente amigo, que se à época ele estivesse à frente do País nunca por nunca teria havido guerra civil e o morticínio que existiu em Timor. Nunca. Isso é porque os reis são vistos com uma independência do sistema político que por sua vez lhes proporciona uma outra perspectiva das coisas.

CR - Ainda persistem alguns estereótipos em relação aos monárquicos portugueses tidos como passadistas e saudosistas. O que é que podemos fazer para ultrapassar esses preconceitos?

José Cid - Esses monárquicos passadistas e saudosistas metade deles são muito também alpinistas sociais e eu aí sou completamente contra. O alpinismo social através da monarquia é, para mim, uma coisa completamente ridícula e que deveria ser ridicularizada. Num sistema monárquico actual, moderno, humanista as pessoas são o que são e não precisam de ser promovidas socialmente para serem mais do que são.

CR - Está em curso uma petição para garantir formalmente ao Duque de Bragança, como representante descendente dos reis de Portugal, um lugar adequado no protocolo de Estado como “Convidado Especial”. Concorda com esse reconhecimento?

José Cid – Completamente, porque o Senhor Dom Duarte é hoje uma pessoa que é importante na moralização do nosso país, é um grande português, o descendente dos Reis de Portugal, que por isso deveria ser objecto de outra consideração por parte do regime. O Dr. Jorge Sampaio, procedeu de uma forma muito injusta e isso trouxe algumas sequelas. Mas eu quero crer que o actual Primeiro-ministro e o actual Presidente da República são pessoas que percebem que é importante que se atribua à nossa família Real outra dignidade, outro protagonismo que lhe tem sido negado.

CR - Várias das suas canções contam histórias de Reis leais, ao lado do seu povo: “A Lenda do Rei D. Sebastião”, “O dia em que o Rei faz anos”. O seu pensamento político influenciou de alguma maneira a letra destas canções?

José Cid - Também, muito. Mas note que no meu próximo álbum eu tenho um tema que se chama “Saudades de Botequim” * em que diz que “Se viesse um Rei talvez fosse melhor porque ia impor a lei das sesmarias”, a propósito do nosso País em que metade do território está abandonado agricolamente. Quando há tanto desemprego, poderia pensar-se num Portugal que, com o clima que tem, com a água que tem, com os terrenos que tem, podia dar de comer a muito mais gente que está na miséria.

CR - Ao longo da sua carreira foi incorporando a história de Portugal nas suas composições. Como vê a consciência histórica actual dos portugueses? A culpa é só do ensino?

José Cid - É um problema cultural, completamente cultural. Por acaso a nossa vizinha Espanha, com as crises e com os problemas que tem de nacionalidades, nesse aspecto, ostenta uma defesa muito maior do seu património cultural. Eu acho até que os espanhóis até protegem o que é mau deles, enquanto que nós muitas vezes ostracizamos o que é bom em Portugal. E isso é uma má atitude política.

CR - Como entende que a restauração da monarquia em Portugal, exemplo das mais desenvolvidas nações europeias, poderia melhorar a vida dos portugueses?

José Cid - Eu acho que o facto da nossa Constituição não permitir uma alternativa monárquica representa um complexo enorme dos republicanos em relação à monarquia. Porque o sistema republicano começa a perceber que os países monárquicos do mundo – e volto a repetir - são menos corruptos, mais desenvolvidos e mais democráticos. Nós devíamos combinar um sistema desses com a vantagem de termos tanto sol, o fado, o fandango e os viras...

CR - Quais são os seus projectos artísticos do futuro? Está nos seus planos a remasterização e a reedição da sua discografia?

Não estou muito preocupado com isso. Penso fazer uma fundação José Cid, em que depois a Gabriela, que é um pouco mais nova do que eu e o meu sobrinho Gonçalo Tavares poderão gerir a minha discografia separando as coisas. Porque eu tenho uma grande mistura de estilos, há uma grande confusão na minha obra, é muito camaleónica, e portanto vão ter que separar José Cid e os poetas, isto é, José Cid cantando Gabriela Mistral ou cantando Lorca ou cantando Sophia de Mello Breyner ou cantando Teixeira de Pascoaes ou Júlio de Castro. Separando o José Cid só baladas, José Cid só canções de amor, José Cid canções de intervenção, José Cid rock sinfónico, o José Cid o fado, porque apesar de eu ser um fadista amador,  sou muito amigo de grandes fadistas profissionais como o Camané, o João Ferreira Rosa, o António Pelarigo, o Zé Gonzalez são pessoas que me apoiam muito quando me ouvem cantar fado. Eu canto fado desde sempre, não é por oportunismo ou porque esteja na moda. Portanto isso é uma coisa para futuro e neste momento estou preocupado com o meu próximo álbum, “Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid”, com o outro álbum que vem a seguir, “Vozes do Além”, que ainda não está gravado, que é rock sinfónico e outro álbum que está praticamente pronto que se chama “Fados, Fandangos, Viras e Malhões”. Para já, acho que quando chegar aos 80 anos isto estará tudo pronto e será a altura de parar de gravar e então gerir a minha decadência.

 

In Correio Real nº 15

Entrevista Coordenada por João Távora,

Mogofores, 06 de Abril de 2017

Da redenção de Portugal

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“A doutrinação é a pedra angular de toda a actividade politica, não só porque ela contém em si a garantia da expansão de princípios, como também porque só mediante ela é possível criar vontades decididas e convicções capazes de dar corpo aos princípios abraçados. É da adesão das inteligências mais do que das inclinações sentimentais, que há-de resultar a profunda transformação em geral desejada e considerada indispensável para a redenção de Portugal”.

Temo que esta coerente formulação de António Jacinto Ferreira, fundador e director do Jornal “O Debate”, o mais relevante órgão de comunicação monárquico que subsistiu com grande tiragem entre 1951 e 1974 quando após a revolução foi extinto pelo MFA, não passe afinal de um “wishful thinking”. Só isso justifica que toda a produção intelectual de uma excepcional geração de grandes pensadores e filósofos políticos do século XX português como Jacinto Ferreira, João Camossa, João Taborda, Francisco Sousa Tavares, Ribeiro Telles, Barrilaro Ruas, Mário Saraiva, António Sardinha, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo, Almeida Braga, Alfredo Pimenta, e Alberto Monsaraz entre outros, tenha caído no quase completo esquecimento, e à qual urge fazer justiça num país que a cada dia mais se afunda no mais cínico niilismo sócio-existencial. Cada um por si tiranizado pelo curto prazo.

Combate Desigual

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(…) Concebido assim, nenhum Rei é obstáculo. A nenhum ideal político o rei é oposto. A nenhum homem e a nenhuma ideia. Só ele é por si, um princípio de síntese, de integração histórica dos contrários no processo evolutivo da vida nacional. Só o rei, só o princípio real, contem a força política autónoma que o torna «indiferente». O Rei não precisa de partido porque não é votado; não precisa de propaganda porque não é efémero; não precisa de conquistar o poder porque está para além do poder.

O princípio da autoridade, que nele se contém é como o fundamento da participação de todos nós no mistério do poder. Nas grandes crises nacionais, nas épocas em que a Nação busca ansiosamente rumo, como é a nossa, só o Rei tem a virtualidade de se identificar com todos e com ninguém, de «servir», de realizar todos os ideais sem com eles se confundir, de consentir todas as esperanças sem que uma exclua ou mate necessariamente as outras. (…)
Não será necessário que a Nação viva livremente e que como outrora, da pujança nacional brotem gradualmente as formas genuínas da liberdade, da convivência e da política do homem português?
E quem garante a vida livre da Nação? Quem tem por si o dom de El-Rei, o dom da serenidade no poder, o dom de deixar, sem medo, brotar a liberdade?  (...)

 

Francisco Sousa Tavares in "Combate Desigual - Ensaios" 1960

Dia de Portugal 2019

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Claramente uma improbabilidade geopolítica nascida há quase 900 anos, Portugal é um dos Estados Nação mais antigos da Europa, e concedo que não padece de uma crise identitária ou careça de especial esforço de afirmação patriótica. Talvez o facto de sermos esse “dado adquirido” explique porque razão tratamos tão mal os nossos símbolos e a nossa História, a qual quase ninguém conhece, assim como os seus heróis, principalmente se não se distinguiram a jogar à bola e por azar morreram antes de haver televisão. Assim, como uns parolos de geração espontânea, autorizamo-nos a refazer a cada momento os nossos símbolos, de que a república de 1910 encarregou-se impiedosamente decapitar os principais, para simular uma revolucionária fraude a que chamaram “refundação”. Aqui chegados, importa que não desistamos de fazer do Dia de Portugal um sobressalto sobre aquilo que somos, de onde viemos, e principalmente o que, como comunidade, ambicionamos para os nossos netos. 

 

PS.: Há muitos anos que não ouvia integralmente um discurso das cerimónias do 10 de Junho como aconteceu hoje com o de João Miguel Tavares. Ouvi tudo. Se gostei? O que eu gostava que os meus filhos também o tivessem escutado...

Efemérides e a mais nobre causa

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Reparei há dias que por esta altura faz dez anos que me envolvi nas lides monárquicas, a convite do saudoso João Mattos e Silva. Foi num almoço numa tarde destas nas Amoreiras que o João e o Nuno Pombo me desafiaram a passar das palavras aos actos, para se reerguer a Real Associação de Lisboa que vinha duma crise complicada. Poucos meses depois estávamos a publicar o 1º número do Correio Real e estreávamos um blogue. Então, estávamos a um ano do centenário da república, o apelo era desafiante. Nesta empresa, com mais turra ou menos turra, envolvido em diferentes direcções, o facto é que a minha vida nunca mais foi a mesma: alimentei enganos e ambições, ilusões e pretensões, ajustei.me, sempre ocupando aquele lugar onde se esconde o trabalho, muitos projectos por concretizar, só possíveis quando nos sabemos bem acompanhados. Durante este tempo, para casa nunca levei nada a não ser o orgulho de militar na mais nobre das causas, precisamente porque o que tem para nos oferecer é a noção de que fazemos falta (mal de nós quando não tivermos a quem servir), que este sonho de um Portugal que emerge dos confins da História e encarna em figura de gente, não morre.
Entretanto a Real Associação de Lisboa no passado sábado celebrou o seu 30º aniversário com uma inesquecível festa na Lourinhã. Gratos ficámos todos para com aquelas gentes pelo acolhimento, em especial os voluntários envolvidos na realização desta jornada que permanecerá para sempre na nossa memória. Venham de lá os anos que forem necessários para cumprirmos o desiderato do reconhecimento do rei dos portugueses. Para que, quando aí chegarmos, com a consciência tranquila fecharmos finalmente as portas e voltarmos para casa. 

Fazer das tripas coração

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Não tenhamos dúvidas de que a melhor resposta à perturbadora conjuntura que vivemos é a da participação cívica. Assumindo-me como um democrata céptico à maneira do pensador e historiador Alexis de Tocqueville (1805 — 1859), cujo avô foi guilhotinado na torrente sanguinária da revolução francesa a que os seus pais escaparam por pouco graças à queda de Robespierre, estou convicto de que o melhor antídoto contra as demandas populistas e revolucionárias é uma sociedade civil organizada e comprometida com a coisa pública. Tal premissa torna-se mais urgente nesta época de atomização social e perda de influência das tradicionais estruturas agregadoras da “nação cultural” em face aos desafios da inevitável globalização e da revolução tecnológica que alterou definitivamente as tradicionais formas de comunicação de massas, em si também elementos agregadores em decadência acelerada. Enfrentamos de facto tempos perigosos, ou “interessantes” como lhe chamam os chineses, numa salutar perspectiva de que as crises podem ser vistas como oportunidades.
O problema é que a conjuntura só poderia ser transformada em oportunidade se as pessoas tomassem em mãos as causas em que acreditam e por elas se mobilizassem de forma organizada.
Acontece que é dessa mudança de atitude que também depende, a médio prazo, a Causa Real, estrutura nacional assente nas Reais Associações, que mostra preocupantes dificuldades de atrair massa crítica para se renovar e, desse modo, para cumprir com eficácia os seus desígnios. Não basta termos uma Família Real empenhada e exemplar nos valores que transmite, como temos. Não nos basta a generosidade e dedicação a uma vida de serviço de que é exemplo o Senhor Dom Duarte, e não chegam os inspiradores passos dados nesse sentido pelo Príncipe da Beira, cujas recentes aparições públicas nos autorizam a projectar esperança para os que vierem depois de nós. A verdade, a crua verdade, porém, é esta: para que este nosso sonho tenha futuro urge conseguirmos atrair gente para a participação e compromisso com as nossas estruturas. É urgente invertermos a tendência para a indiferença de quantos remetem as suas convicções monárquicas para um espaço privado, ou quanto muito, as assumem através de bem-intencionadas, posto que inócuas, tiradas nas redes sociais – que resultam perversamente numa perigosa ilusão de participação. O grande desafio para os anos que se aproximam é o mesmo que clama o nosso bem-amado Portugal e uma Europa fracturada: que todos quantos se sintam interpelados em assumir algum protagonismo no seu destino, jovens e menos jovens, assumam a sua (mesmo que pequena) parte de intervenção no curso da História. A continuidade do movimento monárquico em Portugal, tão necessário à afirmação de valores que dão sentido e espessura à nossa comunidade, depende tragicamente de uma nova atitude dos seus simpatizantes e da sua adesão concreta e comprometida. E não vale a pena procurar fora de cada um justificações e culpados que legitimem a inércia e o conformismo. A pergunta a que temos o dever moral de dar resposta é só esta: o que é que eu posso fazer mais por aquilo em acredito?

 

In Correio Real nº 18 - João Távora
Presidedente da Real Associação de Lisboa 

 

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Quinze de Maio

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Feliz coincidência é o Chefe da Casa Real Portuguesa ter nascido a 15 de Maio, data em que veio a ser instituído o Dia Internacional da Família, uma efeméride que ganha importância num tempo de desagregação e decadência deste testado modelo de organização social que os Duques de Bragança tão bem dignificam. Ao Senhor Dom Duarte de Bragança aqui deixamos os nossos votos de feliz aniversário e a expressão da nossa profunda gratidão pela sua incansável dedicação a Portugal e aos portugueses ao longo de toda sua vida.

 

Fotografia Revista Sábado

Apresentação de Requiem "Por El-Rei e pelo Príncipe Real"

Veja aqui o video do lançamento de "Requiem Por El-Rei e pelo Príncipe Real" da autoria do Reverendo Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, a mais recente publicação da chancela “Razões Reais” da Real Associação de Lisboa. 

Dignaram-se comparecer a este acontecimento Suas Altezas Reais a Duquesa de Bragança e o Príncipe da Beira, que testemunharam as magnificas intervenções do autor e de Nuno Pombo encarregue da apresentação da obra. No final SAR o Senhor Dom Afonso entregou Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, distinto sócio da Real Associação de Lisboa desde 1996, a medalha de mérito atribuída na última Assembleia Geral. No final desta apresentação, João Távora, presidente da Real Associação de Lisboa, agradeceu a todos os envolvidos neste projecto, tendo o autor realizado uma concorrida sessão de autógrafos. O livro encontra-se à venda na livraria Ferin e disponível para encomenda no nosso sítio da Internet.

A Monarquia do Norte e o Cerco de Monsanto

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Centenário de uma história de resistência

 

A chamada Monarquia do Norte, de que se celebram cem anos neste mês de Janeiro, nasceu do movimento das Juntas Militares, criado em meados de 1918. O sidonismo trouxera para a primeira linha da vida política o exército, fortalecido na ala ordeira e decepado na turbulenta ala republicana. Depois da proclamação da república os oficiais monárquicos, estarrecidos com a súbita vitória do pequeno partido que tão pouca implantação tinha no país, não encontraram outra forma de protesto senão a demissão em massa. Gesto de fidelidade bem-intencionado, foi, no entanto, um alto serviço que prestaram à república. Entregaram-lhe sem custos a espontânea depuração do exército, cujos altos comandos puderam então ser ocupados pela oficialidade afecta ao novo regime. Mas em poucos anos as intrigas e as desavenças entre os vencedores do 5 de outubro vieram a dividi-los em campos tão irredutivelmente opostos, que os menos afeiçoados ao republicanismo radical se viram constrangidos a procurar a aliança com as forças monárquicas sobreviventes. Os dois políticos que se opuseram com maior frontalidade ao monopólio do poder exercido pelo partido democrático, Pimenta de Castro e Sidónio Pais, colheram fartos apoios no campo monárquico. Reintegraram grande número de oficiais demitidos e entregaram-lhes postos da mais alta hierarquia. Combateram o sistema de caciquismo e fraude eleitoral de Afonso Costa, apoiando-se no sufrágio universal, tão louvado pelo partido republicano antes de 1910 como temido por ele depois desta data. Também para este propósito se apoiaram na força eleitoral dos monárquicos. De tal modo que se vivia, pelos finais de 1918, num regime republicano governado, em grande parte, por monárquicos. A paz estava restabelecida nas ruas, terminara o regime do tumulto constante, dos confrontos de rua, dos assaltos aos jornais e dos cidadãos diariamente intimidados por bandos desordeiros. Mas ninguém calculava quanto tempo duraria a acalmação. O pior cenário que se podia prever era o do regresso de Afonso Costa e dos seus violentos correligionários. Para impedir semelhante desgraça, um numeroso grupo de oficiais do exército criou o movimento das Juntas Militares, com um programa que se pretendia neutro em matéria política. O ponto principal consistia em impedir que, por morte de Sidónio ou outro motivo, o regime resvalasse de novo para as mãos da “demagogia”, ou seja, do partido democrático. Dentro de poucos meses o movimento das Juntas Militares alastrou a todos os distritos. Regia-se por uma hierarquia militar e tinha o propósito de, dentro de cada regimento, reunir a maioria dos oficiais, de modo que, num cenário de assalto ao poder, os centros de decisão dentro dos quartéis fossem dominados pelos seus oficiais. Dentro das Juntas Militares, os oficiais monárquicos procuraram também obter as maiorias, para que pudessem dirigir a feição de qualquer pronunciamento futuro. Um mês antes da morte de Sidónio, na Junta Militar do Norte, estavam alcançados os dois objectivos: Todos os regimentos eram fiéis à Junta e os oficiais monárquicos predominavam sem contestação. A Junta Militar do Sul estava longe de tão favoráveis resultados.

A monarquia foi proclamada no Porto em Janeiro de 1919, um mês depois da morte de Sidónio, mas já desde a data do assassínio a Junta Militar vinha exercendo sobre as províncias do Norte uma verdadeira tutela política, sobrepondo-se com frequência aos ditames de Lisboa. Nomeava administradores de concelhos, anulava nomeações vindas da capital, discutia e recusava decisões do governo. Os sucessores de Sidónio mostravam-se tíbios e sem convicção no rumo que seguiam, o presidencialismo ia resvalando para o desacreditado regime parlamentar, as cedências aos partidos da república velha vinham acirrar a oposição das juntas. Em 7 de Janeiro o governo foi remodelado por força das negociações entre Lisboa e a Junta Militar do Norte. Os poucos concelhos nortenhos que não reconheciam esta autoridade foram submetidos por um corpo do exército comandado pelo capitão Sá Guimarães. À nomeação de um comandante militar retintamente republicano para Vila Real, reagiu a Junta com uma expedição que cercou a cidade até à exoneração do oficial intruso. Esta atitude de firmeza soberana foi o que conduziu à instalação dos cabecilhas monárquicos na capital do Norte. O predomínio dos oficiais monárquicos nos comandos das unidades era esmagador. Não se previa a possibilidade de concentrar forças republicanas nos distritos a norte do Douro.

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Desde o cinco de outubro estava estabelecido, por consenso tácito, que qualquer insurreição monárquica devia ter à cabeça o destemido Paiva Couceiro. O antigo governador de Angola ganhou esse privilégio em 1910, quando se revelou o único oficial capaz de fazer frente à insurreição republicana, e consolidou-o nas duas incursões falhadas, mas altamente louvadas, de 1911 e 1912. Apesar de todas as recomendações de D. Manuel II para que os seus fiéis se mantivessem calmos, ordeiros e pacíficos, abstendo-se de aventuras revolucionárias, os monárquicos militantes, na sua maior parte, admiravam acima de tudo a constante disposição conspirativa de Paiva Couceiro. Ultrapassando a hierarquia da Causa Monárquica, viam nele o verdadeiro chefe e ofereciam-lhe constantemente os seus serviços. Mesmo os oficiais de patentes superiores, não hesitavam em pôr-se sob o seu comando, prontos a qualquer aventura que o “comandante” ordenasse. Desde o tempo das incursões monárquicas Paiva Couceiro agregara em torno de si um pequeno grupo de fidelíssimos veteranos, os “rapazes da Galiza”, que o acompanhavam para todo o lado e seguiam cegamente as suas directivas. Foi com este estado-maior que se dirigiu ao Porto, onde a Junta Militar estava pronta a entregar-lhe o poder. A conspiração estava concentrada entre os meios militares, o círculo íntimo de Paiva Couceiro e um reduzido grupo de civis, próximos do integralismo necessário. Faltava-lhe a ligação aos órgãos dirigentes da Causa Monárquica e a aprovação régia, problema que se contornou com uma carta endereçada a Aires de Ornelas, onde se pedia o seu comentário a um conjunto de propostas um tanto vagas. O lugar-tenente de El-Rei respondeu apontando o seu parecer sobre cada um dos pontos e um dos comentários prestou-se a um famoso equívoco: “go on, palavras de El Rei”, respondia Aires de Ornelas à proposta, que lhe parecia remota, de um movimento insurrecional. Mal sabia ele que o dito movimento estava prestes a rebentar. Para os couceiristas não foi preciso outro encorajamento: estavam sancionados pela vontade régia.  

Pela uma hora da tarde do dia 19 de Janeiro encontravam-se reunidos no Monte Pedral contingentes de todos os corpos da guarnição militar. Pouco depois compareceu Paiva Couceiro, acompanhado de uns poucos oficiais da Galiza. O major Satúrio Pires leu a proclamação do “comandante” e de seguida içou-se a bandeira azul e branca. Estava proclamada a monarquia, que de imediato foi reconhecida em seis distritos sem efusão de sangue. Constituiu-se um Junta Governativa do Reino, presidida por Paiva Couceiro. Nos dias seguintes restaurou-se a carta constitucional e toda a simbologia do Reino de Portugal. Foi abolida a lei da separação da igreja e do estado. A preocupação maior da junta governativa, ao longo dos 25 dias que durou, foi a consolidação e defesa do território sujeito à restauração monárquica. A Norte do Douro havia pequenos focos de resistência republicana, que foram vencidos pelas forças enviadas do Porto. A vila de Chaves, onde os monárquicos não conseguiram entrar em 1912, mostrou-se mais uma vez inexpugnável e constituiu o bastião da resistência republicana no Norte do país. A sul do Vouga enfrentaram as forças monárquicas as duas colunas enviadas pelo governo de Lisboa, comandadas pelos generais Abel Hipólito e João Ilharco. A resistência oferecida pelas tropas monárquicas não podia opor grande obstáculo às forças da república, dotadas de superioridade em homens e armamento. O exército republicano era apoiado pela marinha no ataque ao longo da costa, reforço que faltava à Junta Governativa, totalmente privada de meios navais.  

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Monsanto

 

O destino da monarquia jogava-se, no entanto, em Lisboa. A reacção da capital aos acontecimentos do Norte foi lenta e hesitante. O governo não tinha autoridade para impor um rumo de acção ao exército. A iniciativa militar dependia daquilo que fosse concertado nas reuniões dos comandantes de regimentos, que começaram logo no dia 19, em ambiente crispado. Desde o primeiro dia se fez sentir uma cisão. Os comandantes de 14 unidades recusavam a adesão ao movimento monárquico, só 4 comandantes se mostravam dispostos a seguir a via revolucionária. Muitos oficiais monárquicos voltavam as costas à rebelião invocando fidelidades pessoais, compromissos com a ordem pública, o respeito pela hierarquia ou simplesmente as reduzidas forças que se dispunham a acompanhar os insurgentes. Entretanto o governo, privado de autoridade entre os militares, recorria à velha receita, chamava às armas em defesa da república os revolucionários civis, sobreviventes da carbonária e da “formiga branca”. Os quartéis de cavalaria 2 e 4 eram os bastiões da monarquia em Lisboa, para eles já se dirigiam grupos de civis, em busca de abrigo contra os bandos republicanos que infestavam a cidade. Avolumavam-se os preparativos para um assalto aos quartéis monárquicos e os comandantes, vendo que não se podiam defender dentro das suas unidades, procuraram um ponto de reunião na serra de Monsanto.

A escolha de Monsanto para local de concentração das forças monárquicas ficou lembrada nos manuais de história como o protótipo da decisão estrategicamente errada. Posição essencialmente defensiva, não permitia que se desencadeasse o ataque contra forças superiores em número e em munições, de onde se seguia uma probabilidade mínima de as aniquilar. Os monárquicos não levavam mantimentos que lhes permitissem resistir a um longo cerco e as munições que tinham esgotaram-se no segundo dia de combates. A artilharia que levavam era de curto alcance, enquanto as tropas governamentais dispunham de peças de longo alcance. Não visavam objectivos militares bem definidos, sobre os quais pudessem concentrar o seu tiro. Evitaram fazer fogo sobre a cidade, o que manteve ao abrigo do tiro a maior parte das unidades militares fiéis ao governo. Do lado contrário beneficiavam das condições opostas. Lutavam contra um inimigo bem localizado, sem capacidade de renovar as munições. Peças de artilharia, tinham-nas em abundância e chegaram-lhes reforços em homens e material ao longo dos dois dias de cerco, além do concurso de civis aguerridos, treinados no manejo das armas e no combate de rua.

Na verdade, Monsanto não foi uma opção estratégica. Todos os oficiais comprometidos reconheceram posteriormente que, se procurassem uma acção eficaz, deveriam ter tomado a ofensiva, ocupando os ministérios e outros pontos chaves da capital. Mas no ambiente carregado de dúvidas em que se encontravam, os poucos oficiais verdadeiramente empenhados em secundar o movimento do Norte tiveram dificuldade em arrastar os hesitantes. Foi perante a ameaça de assaltos aos quartéis que os convenceram a acompanhá-los, e mesmo assim, só depois de se comprometerem a uma acção meramente defensiva. Nascido na atmosfera do desânimo, o movimento de Monsanto estava fadado a uma curta vida. Os conselheiros Aires de Ornelas e João de Azevedo Coutinho, tardiamente envolvidos na conspiração, receberam o comando das forças monárquicas. Durante os dias 23 e 24 de Janeiro os regimentos de cavalaria 2 (lanceiros) e 4, o esquadrão de cavalaria 7, o grupo de baterias a cavalo de Queluz e três corpos menores, acompanhados de 200 praças de outros regimentos e de poucas centenas de civis, resistiram ao ataque de várias baterias de obuses, regimentos de engenharia, metralhadoras e infantaria, além de largas centenas de civis armados pelo governo. Apesar da desproporção de forças, os monárquicos só cederam o terreno quando se lhes esgotaram as munições.

proclamação da Restauração da Monarquia na var

O Fim da Monarquia do Norte

 

A derrota monárquica em Monsanto anunciou o epílogo próximo da insurreição no Norte. Em Lisboa concentravam-se os regimentos com maior poder de fogo, ninguém acreditava que a província pudesse prevalecer militarmente sobre a capital. Do ponto de vista diplomático a Junta do Porto encontrava-se isolada, nem se sabia ao certo se a rebelião contava com o apoio do rei D. Manuel. As primeiras notícias divulgadas pela imprensa republicana davam conta da reprovação régia, mas quando os monárquicos se concentraram no regimento de lanceiros, a adesão de Aires de Ornelas, lugar-tenente de El-Rei, veio dar uma aprovação de que muito necessitavam os combatentes. Sem a posse da capital, no entanto, nenhuma potência poderia reconhecer o governo monárquico. O Ministro dos Estrangeiros da Junta Governativa, Luís de Magalhães, deslocou-se a Espanha, onde esperava encontrar o rei, mas as notícias sobre o paradeiro de D. Manuel revelaram-se falsas. As energias de Paiva Couceiro eram consumidas na defesa de Lamego, Mirandela, Estarreja, enquanto o pequeno exército monárquico ia cedendo terreno aos generais de Lisboa. No Porto o desânimo ia tomando conta dos quartéis e os menos fervorosos já faziam cálculos sobre o melhor modo de escapar a penas de prisão. A ausência de Paiva Couceiro e de outros chefes militares favoreceu uma conspiração em que se coligaram oficiais republicanos e outros que procuravam apenas uma saída airosa da situação. Em 13 de Fevereiro os membros da Junta Governativa foram surpreendidos por uma revolta que em poucas horas alastrou a vários regimentos. Paiva Couceiro, avisado tardiamente, regressou ao Porto, onde já não encontrou forças que pudessem combater a insurreição.  
     

Ao fim de 25 dias terminava a Monarquia do Norte.

 

Carlos Bobone

In Correio Real nº 18 

 

 

A Real Associação de Lisboa é uma estrutura regional integrante da Causa Real, o movimento monárquico de âmbito nacional. Esta é uma associação que visa a divulgação, promoção e defesa da monarquia e da Instituição Real corporizada na Coroa Portuguesa, cujos direitos dinásticos estão na pessoa do Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e em quem legitimamente lhe vier a suceder. Cabe a esta associação a prossecução de iniciativas e de projectos de interesse cultural, social, assistencial e de solidariedade que visem a dignificação, a valorização e o desenvolvimento dos seus associados e da comunidade em que se insere.

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