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BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

Evocação de Henrique Barrilaro Ruas, por Augusto Ferreira do Amaral

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Agradeço muito à Real Associação de Lisboa, na pessoa do seu Presidente, João de Lancastre e Távora, a honra que me oferece de apresentar este livro em boa hora editado. E também por me dar a oportunidade de evocar Henrique Barrilaro Ruas, saudoso amigo e companheiro, que tanto admiro e com quem tanto de valioso aprendi.

Uma vez, a propósito já não sei de que transe político por que tínhamos passado, não resistindo ao que, havia muito, me ia na alma, atirei-lhe, como encómio, com a mais pura das sinceridades: «O Henrique é um Santo!». Ele riu-se, embaraçado, e negou-se, com humildade, tal qualificação, balbuciando a sorrir suaves protestos. Mas eu estava a dizer a verdade. Se a Política alguma vez foi compatível com a Santidade – o que é decerto, no mínimo, fortemente duvidoso - o santo foi Henrique Ruas, como melhor adiante justificarei.

Eis por que é para mim um gosto enorme poder trazer a público e desabafar com todos os presentes alguns dos que julgo serem aspectos mais relevantes desse notável português.

Cabe-me fundamentalmente apresentar um livro. Nesse plano – digo-o com a maior convicção – o livro merece todo o elogio. Não é apenas a iniciativa, em si, de recolher textos importantes e significativos de Henrique Ruas, que andavam dispersos e respeitavam a épocas e circunstâncias diversas.

Para um autor que era, sem sombra de dúvida, um intelectual profundo e um persistente militante político, influente do percurso do País, faz-se mister uma biografia cuidada. Mas tal não será possível sem uma atenta e paciente recolha e tratamento da produção escrita de Ruas, em grande parte disseminada por situações e publicações as mais diversas. Ora é esse labor o que determina a realização deste livro. Bem hajam, pois, os seus autores e impulsionadores, desde o organizador da recolha de textos, Vasco Rosa, cujo trabalho foi conseguido com bastante felicidade, passando pelo editor, a Real Associação de Lisboa, que presta um bom serviço à cultura e à história portuguesa dos nossos dias, até o prefaciador, Nuno Miguel Guedes, que nos brinda com um interessante e vivo depoimento sobre Henrique Ruas intelectual e político.

Acertado, também, foi o critério seguido para a organização desta antologia. É verdade que se não trata duma recolha exaustiva e nem sequer rigidamente sistematizada, como haveria de ser, se se destinasse a fins académicos – nem certamente seria esse o objectivo mais instante do momento presente. Mas é um primeiro approach muito útil, que terá o efeito de alertar o público para a memória dum notável vulto da verdadeira Política da segunda metade do século XX português.

As minhas enfáticas felicitações, pois, a todos os que levaram a efeito a realização deste livro.

Permitam-me, contudo, que aproveite a ocasião para falar um pouco, não já da antologia, mas do autor dos textos reunidos.

E digo falar, porque não está ao meu alcance nas circunstâncias actuais, ao abordar a memória de Henrique Ruas, ultrapassar a mera forma breve e coloquial. Vou tentar pois uma síntese que patenteie o que julgo serem as principais linhas de força do seu pensamento e da sua praxis.

Uma delas foi o seu patriotismo (que resulta, aliás muito claro dos textos agora antologizados). Mas um patriotismo declaradamente distante do nacionalismo e avesso, até, a qualquer resvalamento hegeliano. O patriotismo dele era natural e histórico (senão mesmo quase historicista). Sem se alimentar, sequer, do maurrasianismo, como ele explicitamente declarava.

Por isso seria o mais autêntico dos patriotismos, porque o dele era sempre um patriotismo radicalmente português. Não pedia emprestada qualquer ideologia de fora. Falava numa pátria na acepção que só um português podia falar, como o fez Camões (aliás figura histórica da sua predileção). Só não era telúrico à maneira dum Torga, porque, baseado ultimamente nos seus princípios filosóficos, não havia lugar, nele, para a tentação materialista.

E assim o modo como abordava a doutrina que propugnava impedia a comparabilidade das suas ideias com as de pensadores valorizadores do passado, mas de raiz positivista, como era Maurras.

A segunda grande linha de força era próxima e coerente com esta. Ruas era profundamente monárquico.

A monarquia, para ele, era essencial a Portugal. Não apenas por razões utilitárias. Fazia parte integrante da nossa condição de portugueses. Porque a monarquia era fundacional, indissociável da forma como o País nascera, da forma como evoluíra, da forma como se relacionara com o mundo inteiro, da forma como congregara os que nos antecederam, da forma como se achava imbricada em todo o desenrolar diacrónico da comunidade ao longo dos largos séculos que deram origem à nossa efémera actualidade. E, no futuro, velaria pelo que nos é essencial e imorredouro, para além da variabilidade da nossa actuação de portugueses.

Uma terceira linha de força: o imperativo da ética como fundamento da política.

O eticismo sem concessões perpassava por todo o seu pensamento e vertebrava toda a sua acção política. A política não constitui um fenómeno alheio à ética, nem lateral desta. Pode bem dizer-se que Ruas era – sempre foi até o fim – um anti-Maquiavel. Na sua visão, a política subordina-se à moral. É um desenvolvimento dela. Não faz sentido – nem é recomendável – se dela se desvia ou segue uma via própria, emancipada da raiz ética; e muito menos se tem a conquista do poder como objectivo predominante. Não se limitava a perfilhar este ponto de vista teórico. Tinha a permanente preocupação por realizá-lo, sempre que intervinha em pleno terreno da Polis. Ao longo dos anos me não lembro de qualquer opção que haja feito ou voto que haja dado, que não passasse por uma apreciação fundamentalmente ética e quase insensível aos interesses práticos do momento. A sua moral era, por seu turno, marcadamente anti-utilitária, anti-positivista e anti-nietzschiana. Provinha dos axiomas e princípios fundamentais filosófico-religiosos que sempre o guiaram.

Uma quarta linha de força era o seu humanismo arreigadamente personalista. Via na pessoa humana um valor em si, dado expressamente por Cristo na sua revelação da vontade de Deus. Por isso não era nem podia ser adepto das preferências colectivistas, de direita ou de esquerda, que pusessem em causa a liberdade. É certo que a sua pessoa humana não era uma entidade abstracta, isolada do contexto social e histórico concreto em que brota. Esse contexto, longe de a apagar, mais reforça a especificidade e a superioridade do Homem (nesses tempos ditosos ainda não era necessário dizer “homens e mulheres”…). Sempre manteve uma visível repulsa pelos sistemas que isolam o indivíduo dos seus contextos intermédios e o põem à mercê, indefesa, do Estado ou duma qualquer vanguarda revolucionária.

Por isso, era Henrique Ruas, firmemente, um inveterado humanista. Quanto não sofreria ele hoje, se ainda connosco estivesse, e assistisse ao ataque ao humanismo que está em curso; quer devido à influência larvar do estruturalismo e dos desconstrutivistas, escolas filosóficas, geradas pela França decadente, que pareciam ter morrido sem honra nem glória; quer ao combate impiedoso, astuto, universal e multifacetado que vem sendo dirigido contra a família, instituição que é o grande sustentáculo do verdadeiro e forte humanismo; quer ao abandono matreiro e sofístico de direitos fundamentais da pessoa humana, como são os excessos do estatismo, o frenesi da saúde pública e dos big brothers que se arrogam serem a sua guarda sacerdotal, o fecho das opções do cidadão e do consumidor, a apologia da eutanásia e do aborto; quer ainda à perversão da nova idolatria totemisma acéfala e irracional, que crescente e perigosamente retira direitos da pessoa humana e os transfere para os animais; quer mesmo os exageros do fundamentalismo ecologista, que transcende a razão, o senso e a ciência, e tende a minar qualquer filosofia da história que possa qualificar-se como humanista. Não tenho dúvidas de que Ruas, que era um sincero e lúcido ecologista, em grande parte, tal como eu próprio, pelo magistério do nosso grande companheiro da política, Gonçalo Ribeiro Teles, não hesitaria em verberar com firmeza estes nóveis prosélitos do híper-ecologismo, que deturpam e caricaturam a causa do ambiente, e dela se aproveitam com vista a destruírem raivosamente os sustentáculos da sociedade humanista, em serviço duma utopia que nem eles próprios sabem racionalizar.

Outra linha de força de Henrique Ruas, possivelmente aquela que mais valorizava e que tão fielmente reflectia na prática, era o seu pensado e acrisolado cristianismo. Cristão autêntico, por convicção e por prática, bem pode dizer-se que a sua fé foi o mais presente e indeclinável guião ao longo da sua vida, maxime na Política, em que de perto o conheci. O seu desprendimento, a ausência de qualquer egoísmo ou egocentrismo como motor da sua carreira, o absorvente apelo que sentia do serviço à comunidade, a bondade e pureza de sentimentos com que o fazia, a imensa compreensão que sempre usava para com os que dele divergiam, a sua aposta franca nos valores e no Reino de Deus, fazem da sua intervenção na Política, um exemplo de verdadeira democracia cristã, cuja causa, de resto, abraçara desde muito novo.

Há todavia ainda uma outra faceta que funcionou como linha de força da sua conduta, porventura menos conhecida do grande público - a abertura ao outro, e ao pensamento e acção do outro. Mais do que tolerância, era uma atitude que, longe de se afunilar, tendeu a aumentar com a madurez do seu espírito. Quem apenas ler os seus escritos, mesmo na forma ampla como estão selecionados no livro agora apresentado, não fica cabalmente no conhecimento desta sua faceta. Só quem com ele teve a dita de fazer política, o pode mais completamente testemunhar.

Henrique Ruas, que parecia na sólida sobriedade dos seus escritos, em muitos aspectos, um reaccionário obstinado, estava muito longe de sê-lo na prática da política. Pelo contrário. A impressão global que guardo dele é, não a de quem se fechou numa torre de marfim onde, à defensiva, sustentasse com rigor todo um ideário pregresso, corporizado e imobilista, mas sim de quem foi apurando a essência dos valores fundamentais que perfilhava, descartando todo o lastro anacrónico, e adaptando-os, por forma crescentemente aberta, às realidades móveis da comunidade portuguesa.

Ele começou por ser um ortodoxo integralista. Parecia fadado para uma rejeição das novas instituições liberais que foram o espectro contra o qual tanto sobressaiu o Integralismo. E para uma prática conformista com o regime salazarista, que tanta influência recebeu, diga-se o que se disser, daquele conspícuo movimento cultural e politico. E, no entanto, não foi assim. Acabou, nos anos finais desse regime a alinhar com os movimentos oposicionistas e a participar, mesmo, no Congresso da Oposição de Aveiro. E fê-lo, quando isso doía e era inoportuno para o establishment, e não por motivos tácticos (a táctica era uma técnica a que Ruas era bastante avesso e adverso). Fê-lo por razões de princípio. Ao fundar, após a convergência monárquica, o PPM, pareceria que viria a ser o campeão, neste, de instituições, como a representação orgânica e autárquica, ditas tradicionais. Mas não foi assim. Aderiu na prática, com grande sinceridade, à representatividade parlamentar, ao sufrágio directo e universal e à liberdade de expressão do pensamento conotadas na altura, pelo vulgo, com o ideário demo-liberal. A sua simpatia pelo comunalismo e pelas liberdades municipais nunca o levou ao ponto de rejeitar as formas modernas mais gerais de organização do poder político. No Parlamento convivia amigavelmente com deputados da esquerda, mormente do MDP-CDE. É certo que sempre se manteve algo desconfiado e reservado sobre a existência permanente de partidos políticos, porém numa dose em que, possivelmente, até qualquer bom democrata lhe dará razão, tendo presente a partidocracia clubista em que Portugal excessivamente se deixou enredar, até hoje. E certo é também que sempre encarou com pouca simpatia a nossa adesão à União Europeia, provavelmente influenciado pelo zelo que nutria pela glória do passado português. Mas a afinação coerente do seu ideário político, que constantemente demandava, levou-o a abandonar a acentuação desse anti-europeismo e a centrar-se de preferência na propugnação de soluções mais actuais, requeridas pelos princípios fundamentais que o guiavam. Na prática, acabava por aceitar sem grande esforço tais realidades novas dum País que desejava sempre respeitador da sua existência transtemporal, mas caminhando no sentido indeclinável da democracia. Assim evoluindo, depurava os seus sólidos princípios por forma a manter-lhes a essencialidade, e jogava com franqueza e grande fair-play em campo aberto, e com o jogo sério da política, que aliás só antagonizava quando afectava directamente tais princípios. Era nisso, como em tudo, duma impressionante coerência.

Como é óbvio, Ruas não era deste “mundo”, se entendermos que este mundo era, e é, o da política baixa e rasteira, do mediático, dos interesses, das habilidades, das farsas, dos golpes, e do economicismo materialista. Neste dito “mundo”, com letra pequena, era ele voluntária e conscientemente, um desastrado. Por isso nunca visou as glórias de si próprio nem os favores nem as delícias do poder.

Mas também por isso, estou a falar dum Homem com H grande, brilhante e bom. De um Homem de quem recordo o exemplo, de quem me orgulho de ter sido companheiro político e por quem sinto a mais grata das saudades.

Augusto Ferreira do Amaral *

 

* Discurso de homenagem a Henrique Barrrilaro Ruas na apresentação do livro "Liberdade Portuguesa" no Centro Nacional de Cultura em Lisboa, a 17 de Outubro de 2019 

Veja o registo vídeo aqui

Vídeo do lançamento de "A Liberdade Portuguesa"

Veja aqui o registo vídeo do lançamento do livro "A Liberdade Portuguesa", uma antologia de textos dispersos de Henrique Barrilaro Ruas compilada por Vasco Rosa e com prefácio do jornalista Nuno Miguel Guedes publicada sob a chancela Razões Reais da Real Associação de Lisboa. A homenagem ao homem do pensamento e doutrinador monárquico que foi Henrique Barrilaro Ruas teve lugar no dia 17 de Outubro de 2019 no Centro Nacional de Cultura, contou com a apresentação de Augusto Ferreira do Amaral, Guilherme Oliveira Martins e a presença dos Duques de Bragança.

O livro encontra-se apenas disponível para aquisição na sede da Real Associação de Lisboa ou através da internet aqui

Elogio dum amigo

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Por volta de 1980, quando conheci João Távora, ambos amigos e colegas de liceu de diferentes filhos de Helena e Alberto Vaz da Silva, eu estava longe de imaginar — e ele certamente também — que um dia nos haveríamos de sentar a esta mesa para este momento tão especial de homenagem e lançamento duma antologia de uma das figuras mais nobres da vida política e parlamentar portuguesa daquele tempo, Henrique Barrilaro Ruas, que, com as suas longas barbas brancas, grossos óculos de massa e apenas algumas résteas de cabelo acima da testa, surgia certamente aos olhos dos jovens que então éramos como arauto duma ideia de Portugal, muito antiga sem dúvida mas cheia de dignidade e afinal de contas de uma sensatez iluminada e luminosa: a ideia de monarquia popular.

Sorte a nossa, que nos voltámos a encontrar regularmente desde 2008, quando um grupo heterogéneo decidiu contrariar, na blogosfera, as milionárias comemorações do centenário de um desastre e a glorificação dum duplo homicídio, então levada às escolas do ensino primário sob a forma arrepiante de uma canção de louvor a assassinos. Esse movimento dinâmico ajudou a impulsionar a Real Associação de Lisboa, onde, com Mattos Silva e Nuno Pombo, entre outros, João Távora iniciou e desenvolve ainda um trabalho de grande projecção e generosidade, sem o qual este livro A Liberdade Portuguesa não existiria.

Devemos-lhe muito, de facto. A colecção de livros Razões Reais, com três títulos lançados e um na calha, juntou-se em 2017 à publicação semestral do boletim Correio Real, actualmente com 19 números impressos, e desde 2017 órgão informativo extensivo a todas as associações regionais que formam a Causa Real. Quem sabe se estamos a caminho dum novo «dia inicial, luminoso e limpo» do verso de Sophia de Mello Breyner, neta do grande conde de Mafra, monárquica do Centro Nacional de Cultura, onde estamos, embora tal convicção não agrade aos seus comentadores habituais e a omitam sempre.

Se aqui faço o elogio de João Távora é também porque me sinto honrado por ele me ter permitido ser seu leal ajudante-de-campo — um pouco mais velho, é certo, embora não pareça — nessa batalha árdua e decisiva de prosseguir o trabalho de verdadeiros Gigantes como Henrique Barrilaro Ruas e Gonçalo Ribeiro Telles. Esta é apenas, e só, a retribuição humilde ao quão inspiradores eles foram para nós, como parte da geração de portugueses que cresceu com a revolução de 1974, como o prefácio de Nuno Miguel Guedes regista de forma inspirada.

Ora, o que este livro nos traz de volta, pela primeira vez, é tudo aquilo que desconhecíamos — ou conhecíamos menos bem — de anterior a esse marco histórico fundador, e do longo esforço desenvolvido durante décadas, em jornais como Debate. Semanário de crítica e actualidade ou em pequenas editoras como Gama, Aster e Biblioteca do Pensamento Político, para manter vivas a restauração monárquica e a defesa de um regime político original que a expressão agora em título — A Liberdade Portuguesa — exprime à perfeição.

Barrilaro Ruas teve incansável actividade nesses dois campos editoriais, o da imprensa e o dos livros, tendo impresso em 1971 uma escolha dos seus escritos a que chamou A Liberdade e o Rei. Estava-se num período charneira da vida portuguesa, em que grupos e personalidades monárquicos tiveram intervenção oposicionista relevante, ainda que o que prevaleceu depois, por influência esconsa, fosse uma imagem tradicionalista e comprometida que era aquela que mais convinha, afinal, a quem preferiu chamar a si todo o exclusivo da resistência política e da intervenção democrática. A Liberdade e o Rei nunca foi reeditado, o que a acontecer teria de acrescentar quanto o autor escreveu para jornais democráticos no pós- Novembro de 1975 — e juntar essas duas partes foi de certa forma o que preferimos agora fazer neste livro, com todas as limitações de pesquisa e de produção editorial que a Nota de abertura esclarece, e devemos compreender e aceitar.

Em 2010, depois de semanas de pesquisas, inclusive junto do espólio conservado na Biblioteca Nacional e organizado pela historiadora Maria Teresa Mónica, e conversas com o editor Manuel Vieira da Cruz, apresentei a um conhecido grupo editorial sediado em São Sebastião da Pedreira um projecto de edição da obra completa de Henrique Barrilaro Ruas, que além dos seus escritos históricos e literários, como grande especialista de Luiz de Camões, reunisse os seus escritos monárquicos. Era a forma de assinalar condignamente, em Março de  2011, os 90 anos do seu nascimento, com quatro volumes calculados em c. 400 páginas cada, e a seguinte ordenação: I, Deus; II, Rei; III, Portugal; IV, Camões — mas tudo não foi além de uma conversa cúmplice e gentilíssima com o meu doravante amigo Vasco Silva, o leitor habitual da cadeira G8 da Biblioteca Nacional.

Que hoje, noutra circunstância mas com idêntica finalidade — a de honrar Henrique Barrilaro Ruas — este livro, A Liberdade Portuguesa, possa ser lançado pela esforçada Real Associação de Lisboa e no Centro Nacional de Cultura que ele ajudou a fundar e dirigiu, demonstra que apesar das contrariedades conseguimos levar adiante os nossos projectos e que uma «nova» geração de monárquicos — portugueses de serviço — parece afirmar-se preparada para levar avante o desígnio lúcido que recebeu de quem tão brilhantemente a precedeu. O caminho faz-se caminhando e nós aqui estamos, para o que der e viver.

Viva Portugal! Viva o Rei!

Muito obrigado, João!

Vasco Rosa*

*Discurso de apresentação do livro "Liberdade Portuguesa" de Henrique Barrilaro Ruas no Centro Nacional de Cultura em Lisboa, a 17 de Outubro de 2019

 

A liberdade para para sermos livres

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É irónico constatar como a teoria da Hegemonia Cultural (burguesa), que celebrizou o dirigente e intelectual comunista italiano Gramsci (1891-1937) e o projectou no campo da Ciência Política mais ao seu conceito de “superestrutura” (a ideologia, constituída pelas instituições, sistemas de ideias, doutrinas e crenças de uma sociedade), está, nos nossos dias, impregnada de uma indelével chancela marxista. De facto, hoje o marxismo domina a narrativa cultural e é facilmente detectável desde as produções intelectuais de massas (o chamado Soft Power, que se expressa pelo cinema, pelo jornalismo ou música pop) aos programas escolares em geral, de forma mais marcante nos ciclos de ensino mais precoce, principalmente nas disciplinas ligadas à História e às Ciências Humanas. É curioso verificar como, de uma forma ardilosa, as últimas gerações, nascidas nas prósperas democracias liberais, cresceram sob um padrão ideológico que cultiva o ressentimento social e o igualitarismo, por vezes fanático, promovendo uma tensão brutal e desequilibradora que apouca e condiciona o valor em disputa, que é o da Liberdade. A Liberdade de cada homem ou mulher se afirmar em plena autonomia psicológica e intelectual, de aprender a superar-se e fazer escolhas reflectidas e morais que não projectem sistematicamente para fora de si a responsabilidade dos seus falhanços. Foi graças a essa Liberdade que o Ocidente se afirmou no mundo.

Vem isto a propósito do modo como a História é ensinada às nossas crianças, que corresponde a uma forma de submissão mental que é plantada a jusante na capacidade crítica das novas gerações… apesar da proclamada liberdade de expressão que corre o risco de vir a ser um mero formalismo à medida que o pensamento único vai alargando a sua hegemonia.

Como dizia um amigo meu há dias, talvez a Escola se devesse limitar a ensinar Matemática, Filosofia e Latim. Concordo: era da forma que o Estado poupava muito trabalho aos pais que se vêem obrigados todos os dias em casa a desmontar os clichés e preconceitos que os miúdos aprendem e desafiá-los a pensarem pelas suas cabeças ministrando-lhes um pouco de verdade. Talvez dessa forma se estragassem menos famílias.

Texto adaptado do editorial da revista Correio Real nº 20

Entrevista a José Cid - Correio Real nº 15

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A propósito da feliz notícia da consagração do nosso correligionário José Cid com um Grammy “Prémio de Excelência Musical”, é com enorme alegria que recuperamos uma entrevista feita para o Correio Real em Mogofores na primavera de 2017.

José Cid dispensa grandes apresentações. Com uma carreira musical multifacetada, que vai do Fado, passando pelas baladas, à mais pura música Pop passando pelo Rock Sinfónico, este conceituado músico nascido na Chamusca em 1942 é representativo da diversidade do universo de monárquicos que somos todos nós. Cheguei à sua quinta em Mogofores depois de um almoço na Malaposta em Anadia gentilmente oferecido pelo casal José Cid e Gabriela Carrascalão, repasto que proporcionou uma amena conversa, que foi como um belo preâmbulo à nossa entrevista. Certo é que, talvez por ser monárquico, certamente consequência sua educação esmerada, o José Cid trata os seus convidados como príncipes, e foi como se eu tivera tal estatuto que me recebeu na sua casa e me mostrou a quinta de que tanto se orgulha, os seus cavalos e o sofisticado estúdio de gravação no último andar da casa fidalga do século XIX. Se o propósito da minha viagem ao Norte era entrevistar o cantor compositor José Cid como monárquico que sempre foi, muito bem impressionado fiquei com a profusa “iconografia” que se espalhava pela casa, reveladora dos valores que defende: as armas reais aqui, uma bandeira azul e branca ali, ou um retrato dos Duques de Bragança destacado numa bela moldura na sala de estar – decisivamente estava num ambiente civilizado e salubre. Foi numa tarde amena, no jardim junto a uma piscina de onde se vislumbravam por detrás de uma sebe as duas éguas de eleição do cantor que iniciámos a nossa conversa: 

CR - Foi da sua família que herdou a sua veia musical? Tinha um ambiente musical em casa dos seus pais?

José Cid - Sim, sem dúvida. Não dos meus pais, mas do meu avô paterno Manuel Luís Ferreira Tavares com quem vivi no Ribatejo, na Chamusca até aos meus onze anitos. Era guitarrista em Coimbra na época do Hilário. Dirigiu a Tuna, sabia música e tinha uma intuição musical muito grande. Foi ele que me ensinou a tentar tocar com a mão esquerda, porque eu em pequenito só tocava com a mão direita. Portanto a minha veia musical vem da parte da minha família Ferreira Tavares, originária de Albergaria.

CR - E tocavam em casa?

José Cid - O meu avô tocava piano e também a minha tia, Rosa Galar da Fonseca, tocava piano. E eu comecei logo a tocar piano e a cantar, em pequenito. Num piano velhote que havia no Ribatejo lá no sótão, na casa da costura. Tocava, tocava, tocava e cantava e as pessoas ficavam muito espantadas e perguntavam aos meus pais: “mas quem é que o ensinou a tocar e a cantar?” e os meus pais disseram: “Ninguém! Nem professor tem! Não tem nada!”. Foi então que me começaram a chamar “menino prodígio”, que é o titulo do meu último álbum.

CR - Em que ponto da sua vida é decidiu que ia viver para a música?

José Cid - Isso foi desde sempre. Comecei por cantar fado no Ribatejo e depois outros géneros musicais, quando entrei no colégio Camões em Coimbra, aos treze ou catorze anos. Arranjei uns amigos que tocavam também, juntávamo-nos para tocar quando podíamos, a seguir às refeições, ao almoço e ao jantar. Foi então que formámos uma banda: “Os Babies”, que foi provavelmente a primeira banda de Rock and roll de Portugal, em 1956. Depois veio a proibição dos meus pais, em conivência com o director do colégio Camões, que não queriam que eu fosse cantar para as festas universitárias. Eu, como tinha a sorte de dormir num quarto rés-do-chão, saltava pela janela e ia para lá tocar com os meus amigos.

CR – Portanto não tinha apoio em casa…

- Nenhum mesmo. Até menti à minha mãe (e claro que depois fui apanhado), dizendo que o dinheiro que ganhávamos era para as conferências de São Vicente Paulo, e aí a minha mãe já deixou. Era mentira. O certo é que depois fizemos muitos mais concertos solidários com muitas entidades religiosas, portanto redimimo-nos dessas mentiras mais tarde.

CR - A sua assumida costela monárquica tem origem cultural, familiar ou foi uma opção política racional?

José Cid - A última opção é a mais certa porque eu até já passei por uma tentação republicana, sabe? Mas depois percebi que os sistemas menos corruptos, com maior defesa dos valores da cultura, com mais igualdade de oportunidade para as pessoas, com melhor nível de vida e com maior apoio na saúde e na educação são monarquias. E como não são repúblicas, eu optei por pensar num sistema que fosse mais perfeito, um sistema mais próximo do povo, que não abusasse da ideia de povo. Esta coisa do “povo é quem mais ordena” e depois o povo passar fome, não me parece uma boa ideia, percebe? Eu gosto mais dum “povo que mais ordenha”, que tem cães, tem vacas, tem cabras, tem bens pessoais e vive melhor. É melhor assim. E eu acabei por idealizar, por conceber para Portugal um sistema que fosse mais justo, um sistema com provas dadas nas monarquias do norte da Europa, mais civilizadas sem dúvida nenhuma.

CR - O tempo confirmou algumas das suas composições como verdadeiros clássicos da música popular portuguesa. Após terminar o processo de composição, alguma vez lhe passava pela cabeça que estava a mudar a história, que tinha criado uma peça decisiva?

José Cid - Não tinha isso em mente, mas atenção: eu não pus um ponto final na minha criatividade! Neste momento tenho um álbum novo quase pronto, que eu adoro, que se chama: “O Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid” em que eu estou a cantar como se tivesse trinta aninhos. E tenho ainda outro disco feito, muito diferente, que se chama “Fados, Fandangos, Viras e Malhões”, e depois quero terminar a carreira com um último álbum que se chamará “Vozes do Além” em que retorno ao Rock sinfónico, com poesias de Lorca, de Sophia de Mello Breyner, de Natália Correia, que poeticamente espero seja o álbum mais poderoso de todos os álbuns sinfónicos que alguma vez fiz. Já está escrito, só que ainda não o comecei a gravar. O dos “Corações solitários” já está pronto, vai sair. O “Fados, Fandangos, Viras e Malhões” já está meio gravado, e depois o outro, vai ter de ser produzido em 2018, 2019 se Deus me der vida e voz.

A maior parte das minhas músicas mais conhecidas e mais comercias foram feitas nos anos 70 em que nós tínhamos que pagar a renda da casa, a prestação do automóvel, as fraldas e os biberões para os nossos filhos e o grupo 1111 passa por essa fase quando nos tornámos mais comerciais...

CR - Mas não é qualquer um que faz uma música comercial como “Vinte anos”, “A rosa que te dei” ou “O dia em que o rei fez anos”.

José Cid - Eu sou um privilegiado nesse aspecto. E muito mais ficaria da minha obra se eu não tivesse um boicote sistemático da minha obra a partir dos anos 90. Se eu tivesse mais apoio da rádio e mais divulgação de muitos temas que eu escrevi e que vão ficar absolutamente esquecidos e postos de lado. Nas últimas décadas escrevi muitos outros temas bons que simplesmente não passaram na rádio.

CR - Que razões atribui a essa ostracização?

José Cid – Por causa da minha independência. Quando não me sentia bem numa editora saía amigavelmente e ia para outra, e algumas delas multinacionais que possivelmente não ficaram contentes com essa forma de estar. Não me senti bem em algumas editoras, por isso neste momento tenho a minha própria editora que se chama “Acid Records” que publicou já alguns álbuns notáveis, um deles do monárquico António Pelarigo, outro do Zé Perdigão e o meu, “O Menino Prodígio” que é nomeado o melhor álbum da música portuguesa em 2016 pela Sociedade Portuguesa de Autores. Também já publicámos recentemente um disco do Mário Mata que é republicano, mas começa a perceber que talvez se possa ter enganado, e outro do meu sobrinho Gonçalo Tavares que, como não poderia deixar de ser, é monárquico também. Portanto a “Acid Records” é uma espécie de “gueto” monárquico na música, em que eu sou o Capitão, mas rodeado de tenentes muito bons.

CR - Alguma vez sentiu que o facto de se ter assumido como monárquico lhe trazia alguns problemas na carreira?

José Cid – Não, porque na maior parte dos partidos políticos, particularmente da área do PSD e do CDS, há sempre muitos monárquico envergonhados e como eu também nunca me declarei anti-republicano... não sou republicano mas tenho a maior admiração pelo Professor Marcelo Rebelo de Sousa que de resto faz um papel perfeito dum Rei constitucional. Porque tem sentido de Estado e revela muita humanidade dentro dele, não olham para nós como se nós fossemos números dum Excel, que é uma coisa muito má na política, uma coisa que o sistema republicano tem trazido nos últimos anos. Eu já ouvi essa opinião por parte de um outro monárquico muito importante na república portuguesa que é o presidente do Governo Regional da Madeira, o Doutor Albuquerque.

 

CR – Sendo casado com Gabriela Carrascalão, que também é monárquica e que tem uma ligação ao povo timorense, como vê a contribuição do Duque de Bragança para a autodeterminação de Timor-Leste? Considera que essa mediação foi devidamente reconhecida pelas autoridades portuguesas?

José Cid - Algumas autoridades portuguesas, particularmente o Dr. Jorge Sampaio, foram extremamente injustos com ele em relação a Timor. O mesmo não aconteceu com Mário Soares que foi sempre muito educado com o Senhor Dom Duarte que hoje tem cidadania timorense. O Duque de Bragança é timorense e em conversa muitas vezes me disse a mim e à minha mulher Gabriela, de quem é extraordinariamente amigo, que se à época ele estivesse à frente do País nunca por nunca teria havido guerra civil e o morticínio que existiu em Timor. Nunca. Isso é porque os reis são vistos com uma independência do sistema político que por sua vez lhes proporciona uma outra perspectiva das coisas.

CR - Ainda persistem alguns estereótipos em relação aos monárquicos portugueses tidos como passadistas e saudosistas. O que é que podemos fazer para ultrapassar esses preconceitos?

José Cid - Esses monárquicos passadistas e saudosistas metade deles são muito também alpinistas sociais e eu aí sou completamente contra. O alpinismo social através da monarquia é, para mim, uma coisa completamente ridícula e que deveria ser ridicularizada. Num sistema monárquico actual, moderno, humanista as pessoas são o que são e não precisam de ser promovidas socialmente para serem mais do que são.

CR - Está em curso uma petição para garantir formalmente ao Duque de Bragança, como representante descendente dos reis de Portugal, um lugar adequado no protocolo de Estado como “Convidado Especial”. Concorda com esse reconhecimento?

José Cid – Completamente, porque o Senhor Dom Duarte é hoje uma pessoa que é importante na moralização do nosso país, é um grande português, o descendente dos Reis de Portugal, que por isso deveria ser objecto de outra consideração por parte do regime. O Dr. Jorge Sampaio, procedeu de uma forma muito injusta e isso trouxe algumas sequelas. Mas eu quero crer que o actual Primeiro-ministro e o actual Presidente da República são pessoas que percebem que é importante que se atribua à nossa família Real outra dignidade, outro protagonismo que lhe tem sido negado.

CR - Várias das suas canções contam histórias de Reis leais, ao lado do seu povo: “A Lenda do Rei D. Sebastião”, “O dia em que o Rei faz anos”. O seu pensamento político influenciou de alguma maneira a letra destas canções?

José Cid - Também, muito. Mas note que no meu próximo álbum eu tenho um tema que se chama “Saudades de Botequim” * em que diz que “Se viesse um Rei talvez fosse melhor porque ia impor a lei das sesmarias”, a propósito do nosso País em que metade do território está abandonado agricolamente. Quando há tanto desemprego, poderia pensar-se num Portugal que, com o clima que tem, com a água que tem, com os terrenos que tem, podia dar de comer a muito mais gente que está na miséria.

CR - Ao longo da sua carreira foi incorporando a história de Portugal nas suas composições. Como vê a consciência histórica actual dos portugueses? A culpa é só do ensino?

José Cid - É um problema cultural, completamente cultural. Por acaso a nossa vizinha Espanha, com as crises e com os problemas que tem de nacionalidades, nesse aspecto, ostenta uma defesa muito maior do seu património cultural. Eu acho até que os espanhóis até protegem o que é mau deles, enquanto que nós muitas vezes ostracizamos o que é bom em Portugal. E isso é uma má atitude política.

CR - Como entende que a restauração da monarquia em Portugal, exemplo das mais desenvolvidas nações europeias, poderia melhorar a vida dos portugueses?

José Cid - Eu acho que o facto da nossa Constituição não permitir uma alternativa monárquica representa um complexo enorme dos republicanos em relação à monarquia. Porque o sistema republicano começa a perceber que os países monárquicos do mundo – e volto a repetir - são menos corruptos, mais desenvolvidos e mais democráticos. Nós devíamos combinar um sistema desses com a vantagem de termos tanto sol, o fado, o fandango e os viras...

CR - Quais são os seus projectos artísticos do futuro? Está nos seus planos a remasterização e a reedição da sua discografia?

Não estou muito preocupado com isso. Penso fazer uma fundação José Cid, em que depois a Gabriela, que é um pouco mais nova do que eu e o meu sobrinho Gonçalo Tavares poderão gerir a minha discografia separando as coisas. Porque eu tenho uma grande mistura de estilos, há uma grande confusão na minha obra, é muito camaleónica, e portanto vão ter que separar José Cid e os poetas, isto é, José Cid cantando Gabriela Mistral ou cantando Lorca ou cantando Sophia de Mello Breyner ou cantando Teixeira de Pascoaes ou Júlio de Castro. Separando o José Cid só baladas, José Cid só canções de amor, José Cid canções de intervenção, José Cid rock sinfónico, o José Cid o fado, porque apesar de eu ser um fadista amador,  sou muito amigo de grandes fadistas profissionais como o Camané, o João Ferreira Rosa, o António Pelarigo, o Zé Gonzalez são pessoas que me apoiam muito quando me ouvem cantar fado. Eu canto fado desde sempre, não é por oportunismo ou porque esteja na moda. Portanto isso é uma coisa para futuro e neste momento estou preocupado com o meu próximo álbum, “Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid”, com o outro álbum que vem a seguir, “Vozes do Além”, que ainda não está gravado, que é rock sinfónico e outro álbum que está praticamente pronto que se chama “Fados, Fandangos, Viras e Malhões”. Para já, acho que quando chegar aos 80 anos isto estará tudo pronto e será a altura de parar de gravar e então gerir a minha decadência.

 

In Correio Real nº 15

Entrevista Coordenada por João Távora,

Mogofores, 06 de Abril de 2017

Da redenção de Portugal

Pela Lei e pela Grei.jpg

“A doutrinação é a pedra angular de toda a actividade politica, não só porque ela contém em si a garantia da expansão de princípios, como também porque só mediante ela é possível criar vontades decididas e convicções capazes de dar corpo aos princípios abraçados. É da adesão das inteligências mais do que das inclinações sentimentais, que há-de resultar a profunda transformação em geral desejada e considerada indispensável para a redenção de Portugal”.

Temo que esta coerente formulação de António Jacinto Ferreira, fundador e director do Jornal “O Debate”, o mais relevante órgão de comunicação monárquico que subsistiu com grande tiragem entre 1951 e 1974 quando após a revolução foi extinto pelo MFA, não passe afinal de um “wishful thinking”. Só isso justifica que toda a produção intelectual de uma excepcional geração de grandes pensadores e filósofos políticos do século XX português como Jacinto Ferreira, João Camossa, João Taborda, Francisco Sousa Tavares, Ribeiro Telles, Barrilaro Ruas, Mário Saraiva, António Sardinha, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo, Almeida Braga, Alfredo Pimenta, e Alberto Monsaraz entre outros, tenha caído no quase completo esquecimento, e à qual urge fazer justiça num país que a cada dia mais se afunda no mais cínico niilismo sócio-existencial. Cada um por si tiranizado pelo curto prazo.

Combate Desigual

Francisco Sousa Tavares.jpg

(…) Concebido assim, nenhum Rei é obstáculo. A nenhum ideal político o rei é oposto. A nenhum homem e a nenhuma ideia. Só ele é por si, um princípio de síntese, de integração histórica dos contrários no processo evolutivo da vida nacional. Só o rei, só o princípio real, contem a força política autónoma que o torna «indiferente». O Rei não precisa de partido porque não é votado; não precisa de propaganda porque não é efémero; não precisa de conquistar o poder porque está para além do poder.

O princípio da autoridade, que nele se contém é como o fundamento da participação de todos nós no mistério do poder. Nas grandes crises nacionais, nas épocas em que a Nação busca ansiosamente rumo, como é a nossa, só o Rei tem a virtualidade de se identificar com todos e com ninguém, de «servir», de realizar todos os ideais sem com eles se confundir, de consentir todas as esperanças sem que uma exclua ou mate necessariamente as outras. (…)
Não será necessário que a Nação viva livremente e que como outrora, da pujança nacional brotem gradualmente as formas genuínas da liberdade, da convivência e da política do homem português?
E quem garante a vida livre da Nação? Quem tem por si o dom de El-Rei, o dom da serenidade no poder, o dom de deixar, sem medo, brotar a liberdade?  (...)

 

Francisco Sousa Tavares in "Combate Desigual - Ensaios" 1960

Dia de Portugal 2019

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Claramente uma improbabilidade geopolítica nascida há quase 900 anos, Portugal é um dos Estados Nação mais antigos da Europa, e concedo que não padece de uma crise identitária ou careça de especial esforço de afirmação patriótica. Talvez o facto de sermos esse “dado adquirido” explique porque razão tratamos tão mal os nossos símbolos e a nossa História, a qual quase ninguém conhece, assim como os seus heróis, principalmente se não se distinguiram a jogar à bola e por azar morreram antes de haver televisão. Assim, como uns parolos de geração espontânea, autorizamo-nos a refazer a cada momento os nossos símbolos, de que a república de 1910 encarregou-se impiedosamente decapitar os principais, para simular uma revolucionária fraude a que chamaram “refundação”. Aqui chegados, importa que não desistamos de fazer do Dia de Portugal um sobressalto sobre aquilo que somos, de onde viemos, e principalmente o que, como comunidade, ambicionamos para os nossos netos. 

 

PS.: Há muitos anos que não ouvia integralmente um discurso das cerimónias do 10 de Junho como aconteceu hoje com o de João Miguel Tavares. Ouvi tudo. Se gostei? O que eu gostava que os meus filhos também o tivessem escutado...

Efemérides e a mais nobre causa

Eu_RAL_2019_2.jpg

Reparei há dias que por esta altura faz dez anos que me envolvi nas lides monárquicas, a convite do saudoso João Mattos e Silva. Foi num almoço numa tarde destas nas Amoreiras que o João e o Nuno Pombo me desafiaram a passar das palavras aos actos, para se reerguer a Real Associação de Lisboa que vinha duma crise complicada. Poucos meses depois estávamos a publicar o 1º número do Correio Real e estreávamos um blogue. Então, estávamos a um ano do centenário da república, o apelo era desafiante. Nesta empresa, com mais turra ou menos turra, envolvido em diferentes direcções, o facto é que a minha vida nunca mais foi a mesma: alimentei enganos e ambições, ilusões e pretensões, ajustei.me, sempre ocupando aquele lugar onde se esconde o trabalho, muitos projectos por concretizar, só possíveis quando nos sabemos bem acompanhados. Durante este tempo, para casa nunca levei nada a não ser o orgulho de militar na mais nobre das causas, precisamente porque o que tem para nos oferecer é a noção de que fazemos falta (mal de nós quando não tivermos a quem servir), que este sonho de um Portugal que emerge dos confins da História e encarna em figura de gente, não morre.
Entretanto a Real Associação de Lisboa no passado sábado celebrou o seu 30º aniversário com uma inesquecível festa na Lourinhã. Gratos ficámos todos para com aquelas gentes pelo acolhimento, em especial os voluntários envolvidos na realização desta jornada que permanecerá para sempre na nossa memória. Venham de lá os anos que forem necessários para cumprirmos o desiderato do reconhecimento do rei dos portugueses. Para que, quando aí chegarmos, com a consciência tranquila fecharmos finalmente as portas e voltarmos para casa. 

Fazer das tripas coração

Tripas coração.jpg

Não tenhamos dúvidas de que a melhor resposta à perturbadora conjuntura que vivemos é a da participação cívica. Assumindo-me como um democrata céptico à maneira do pensador e historiador Alexis de Tocqueville (1805 — 1859), cujo avô foi guilhotinado na torrente sanguinária da revolução francesa a que os seus pais escaparam por pouco graças à queda de Robespierre, estou convicto de que o melhor antídoto contra as demandas populistas e revolucionárias é uma sociedade civil organizada e comprometida com a coisa pública. Tal premissa torna-se mais urgente nesta época de atomização social e perda de influência das tradicionais estruturas agregadoras da “nação cultural” em face aos desafios da inevitável globalização e da revolução tecnológica que alterou definitivamente as tradicionais formas de comunicação de massas, em si também elementos agregadores em decadência acelerada. Enfrentamos de facto tempos perigosos, ou “interessantes” como lhe chamam os chineses, numa salutar perspectiva de que as crises podem ser vistas como oportunidades.
O problema é que a conjuntura só poderia ser transformada em oportunidade se as pessoas tomassem em mãos as causas em que acreditam e por elas se mobilizassem de forma organizada.
Acontece que é dessa mudança de atitude que também depende, a médio prazo, a Causa Real, estrutura nacional assente nas Reais Associações, que mostra preocupantes dificuldades de atrair massa crítica para se renovar e, desse modo, para cumprir com eficácia os seus desígnios. Não basta termos uma Família Real empenhada e exemplar nos valores que transmite, como temos. Não nos basta a generosidade e dedicação a uma vida de serviço de que é exemplo o Senhor Dom Duarte, e não chegam os inspiradores passos dados nesse sentido pelo Príncipe da Beira, cujas recentes aparições públicas nos autorizam a projectar esperança para os que vierem depois de nós. A verdade, a crua verdade, porém, é esta: para que este nosso sonho tenha futuro urge conseguirmos atrair gente para a participação e compromisso com as nossas estruturas. É urgente invertermos a tendência para a indiferença de quantos remetem as suas convicções monárquicas para um espaço privado, ou quanto muito, as assumem através de bem-intencionadas, posto que inócuas, tiradas nas redes sociais – que resultam perversamente numa perigosa ilusão de participação. O grande desafio para os anos que se aproximam é o mesmo que clama o nosso bem-amado Portugal e uma Europa fracturada: que todos quantos se sintam interpelados em assumir algum protagonismo no seu destino, jovens e menos jovens, assumam a sua (mesmo que pequena) parte de intervenção no curso da História. A continuidade do movimento monárquico em Portugal, tão necessário à afirmação de valores que dão sentido e espessura à nossa comunidade, depende tragicamente de uma nova atitude dos seus simpatizantes e da sua adesão concreta e comprometida. E não vale a pena procurar fora de cada um justificações e culpados que legitimem a inércia e o conformismo. A pergunta a que temos o dever moral de dar resposta é só esta: o que é que eu posso fazer mais por aquilo em acredito?

 

In Correio Real nº 18 - João Távora
Presidedente da Real Associação de Lisboa 

 

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A Real Associação de Lisboa é uma estrutura regional integrante da Causa Real, o movimento monárquico de âmbito nacional. Esta é uma associação que visa a divulgação, promoção e defesa da monarquia e da Instituição Real corporizada na Coroa Portuguesa, cujos direitos dinásticos estão na pessoa do Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e em quem legitimamente lhe vier a suceder. Cabe a esta associação a prossecução de iniciativas e de projectos de interesse cultural, social, assistencial e de solidariedade que visem a dignificação, a valorização e o desenvolvimento dos seus associados e da comunidade em que se insere.

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