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BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

Uma questão de decência

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Não entendo a Chefia de Estado Real como constituindo um privilégio, antes pelo contrário. Onde existem dinastias historicamente legitimadas, e não sendo o cargo executivo, não vejo qualquer imoralidade no facto dos reis não serem sufragados pelo voto - vê-se bem por essa Europa afora a sua importância e o sucesso do modelo que persiste e se adapta nos países mais desenvolvidos. Mas é evidente que para a consumação em Portugal deste desígnio, a instauração da monarquia, a democracia tem que imperar organicamente na sociedade, através de uma participação activa das múltiplas comunidades na rés-publica. Esse é o problema: não acho que no meu País a democracia, a sociedade portuguesa e as suas instituições, no actual quadro constitucional, sejam suficientemente representativas e participadas (evoluídas) para acomodar uma Chefia de Estado hereditária. Seria um presente envenenado, um convite à insurreição. Mas isso não me demove um milímetro de me dedicar de corpo e alma à Causa Real para apoio à Casa Real Portuguesa para que ela perdure depois de mim, antes pelo contrário. Por uma questão de decência e... amor à Pátria que é legado dos meus avós.

 

Fotografia: Nuno Albuquerque Gaspar 

Deponham também a República!

Amanhã, 5 de Julho de 2017, está prevista a realização, em Lisboa, de uma manifestação de oficiais do Exército nacional. Motivo? Protestar contra a exoneração de cinco comandantes de unidade, anunciada no dia 1 por Rovisco Duarte, chefe do Estado-Maior do Exército – uma decisão tomada na sequência do roubo, ocorrido no final de Junho último, de armamento de guerra no paiol do Aeródromo Militar de Tancos.
Lê-se na mensagem de correio electrónico que serve de convocatória da iniciativa: «Estão em causa valores e o bom nome de vários dos nossos camaradas, arrastados pela lama por chefes militares que há muito já deveriam ter sido demitidos. (…) Os princípios e valores que nortearam a Instituição Exército, e nos quais fomos forjados, correm hoje sérios riscos, numa sociedade sem norte, à beira do inaceitável, onde a indignidade, a desonestidade e a incompetência são ameaçadoras moléstias em período de forte contágio. Ignorar sofrimentos, princípios de generosidade e de solidariedade, de dignidade e de honra, não é um procedimento certo!» Os manifestantes deverão concentrar-se a partir das 11.30 em frente ao Monumento aos Mortos, perto da Torre de Belém, e depois seguir em marcha silenciosa até ao Palácio de Belém. Aí, na residência oficial do Presidente da República, que é o comandante supremo das Forças Armadas, os oficiais presentes deverão depor simbolicamente as suas espadas.
Deixo, mais do que uma sugestão, um apelo, não só aos militares que irão participar no protesto mas também a todos os outros que, não podendo deslocar-se à capital, estarão à distância e em espírito com os seus colegas: aproveitem a ocasião e, além das espadas, deponham também a República! Sem utiizarem as armas, mas invocando a força dessas mesmas armas. Comuniquem ao actual locatário do casarão cor-de-rosa, e, através dele, a todos os que ocupam cargos de eleição e/ou de nomeação política, que estão demitidos, removidos dos cargos, corridos das suas posições de poder. Que o corrente regime acabou. Que se fará uma renovação, uma nova revolução, a restauração da Monarquia, único regime legítimo em Portugal. Porque, depois de décadas – mais de um século! – de irresponsabilidade e de corrupção, com custos inúteis e inglórios de tantas vidas, é tempo de dizer «basta!», precisamente, porque estamos «numa sociedade sem norte, à beira do inaceitável, onde a indignidade, a desonestidade e a incompetência são ameaçadoras moléstias em período de forte contágio»…
… Ameaçadoras moléstias, mais uma vez, que não são de agora, e que têm afectado tanto a comunidade civil como a castrense. Nesta terceira república, como agora se vê, militares são feitos bodes expiatórios - «carne para canhão» figurada – de erros de que o actual governo, e os anteriores, são culpados. Na segunda república, militares foram feitos «carne para canhão» literal numa guerra colonial em África. Na primeira república, militares foram feitos «carne para canhão» literal numa guerra mundial na Europa. Constantemente, consecutivamente, usados e abusados por reles «estadistas» que desconhecem o que é a autêntica ética, que fidelidade lhes devem os militares? Nenhuma…
… E, deposta a República pela desautorização definitiva do cessante presidente da mesma, que a seguir seja arriada, no Palácio de Belém, a infame bandeira verde e vermelha, estandarte de assassinos, criminosos e terroristas, e que seja pisada pelos pés de verdadeiros patriotas. Que tal seja um prelúdio a que os milhares de outras existentes, que conspurcam tantos pontos deste país, sejam igualmente retiradas e destruídas, de preferência empilhadas e queimadas até ficarem reduzidas a cinzas.

 

Octávio dos Santos

Nota: As opiniões expressas são pessoais e vinculam unicamente o seu autor

Lembrar Dom Duarte Nuno (1907-1976)

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 Correm este ano quatro décadas sobre a morte daquele que poderia ter sido o salvador do Estado português. Salazar foi excessivamente português no tratamento da questão sucessória que era, afinal, a mais importante. Salazar, sabendo-o, não foi suficientemente lúcido para fazer essa escolha entre a restauração e o caos. Adiou, quis satisfazera todos, nem um sucessor escolheu e, finalmente, morreu e o poder passou para quem já evidenciava os traços desta gente que manda no país desde 1968.

Salazar sabia que o Marcelo era um biltre, que dizia mal do regime e conspirava, mas deram-lhe o poder. Marcelo foi o grande responsável pela inviabilização da solução monárquica. Os Bragança haviam cumprido escrupulosamente tudo o que Salazar pedira por ocasião do regresso da família real a Portugal, mas nada lhes foi restituído, vivendo apartados da vida pública e do contacto com os portugueses. Foi-lhes até negado um trem de vida compatível com a sua condição. A família viveu numa pelintrice indigna e até a suprema afronta de lhe destinarem uma casa onde chovia.
Era a faceta mesquinha e aldeã de Salazar. Podendo ter arranjado um Rei de graça, um excelente Américo Tomás de sangue azul, um homem gentil e de carácter muito alemão, preferiram o caminho mais cómodo, ou seja, nada fazer.
A restauração devia ter ocorrido em 1955 ou 1956, mas o congresso da União Nacional de 1951 impediu-o. A União Nacional passou a ser republicana. O congresso, ao votar pelo encerramento da questão do regime, deixou de poder apontar um futuro estável após o passamento do seu líder e fundador. Marcelo conseguiu-o. Era a diferença entre Salazar e o Marcelo. Como camponês, Salazar entendia a monarquia como um dado relevante do carácter nacional; Marcelo via-a como uma limitação às suas ambições de micro-burguês cheio de complexos de classe. Durante os 14 anos que sobravam a Salazar, teriam formado uma inteira geração de servidores da Coroa. E o que tivemos logo a seguir ? A campanha do Delgado. Compreende-se que depois de 1958, os monárquicos se tenham despolitizado até aos extremos de hoje.
Até partidos poderiam ter inventado. Com uma monarquia restaurada, não teria havido golpe, revolução nem descolonização nos termos em que esta se processou. Poderia, quando muito muito, ter havido um regime à europeia, mas muito ao centro, como houve em Espanha - algo como uma UCD - sendo até possível uma democracia com muitos traços da doutrina salazariana. Se se tivesse optado por essa solução, a descolonização ter-se-ia projectado para os anos 80 ou 90, quando a URSS entrou em colapso. Não esqueçamos que entre o 25/A e a chegada de Gorbachev medeiam apenas 9 anos. Teria então sido possível negociar com os movimentos. Em 1985 , com a URSS transformada num monte de entulho, eles já seriam bem mais mansos. Mesmo que Angola e Moçambique se tivessem tornado independentes, teriam ficado Cabo Verde, S. Tomé, Cabinda e Timor. 

Uma monarquia não requer grandes Reis. Basta ter um Rei, é o suficiente. Como se vê, a monarquia não era apenas uma questão decorativa. Era central. Portugal teve essa oportunidade e deitou-a fora.
 
Miguel Castelo Branco

Dia de Portugal

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Despachadas pela fresca as cerimónias militares do Dia de Portugal que ocorrem hoje no Terreiro do Paço, Marcelo Rebelo de Sousa, Eduardo Ferro Rodrigues e António Costa embarcam para Paris, não para irem ao futebol, mas para festejar a efeméride com os emigrantes. Se a comunidade portuguesa em França merece essa consideração, suspeito que todos os portugueses precisam de se reencontrar com uma ideia de Pátria em que se revejam com salutar orgulho, um pouco mais consistente do que a “Selecção Nacional”.

Digo isto porque me parece que, nas últimas décadas, a grande maioria dos portugueses passaram de um estágio de relativa inconsciência quanto à sua identidade para assistirem a um processo muito agressivo de desconstrução dos valores fundacionais e a um severo julgamento dos feitos históricos que sustentaram esta Nação improvável ao longo de 900 anos. Diabolizar o passado é da conveniência de um regime que se alimenta de amanhãs que cantam. Se somarmos isso aos duros tempos de aflição financeira que atravessamos, de permanente cedência de soberania à geringonça europeia que nos suporta, num ambiente de extrema conflitualidade política, receio bem que a nossa auto-estima esteja junto ao chão que nos resta.

Nesse sentido, todos as celebrações de Portugal serão poucas, desde que constituam algo mais do que mero folclore ou palavras ocas de auto-promoção dos protagonistas no jogo político. Porque urge encontrar uma fórmula de conceder aos portugueses um grato e salutar sentimento de pertença à Nação, ancestral legado e empresa de futuro, a edificar diariamente através de acções consequentes por todos e cada um de nós.

P.S. Curiosamente, será uma vez mais na clandestinidade mediática que decorre hoje, dia 10 de Junho, junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, a habitual homenagem a todos os homens e mulheres que tombaram em defesa dos valores e da perenidade da Nação Portuguesa, um acontecimento pleno de dignidade e de grande comoção patriótica em que faço questão de participar.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

Fotografia - Nuno Albuquerque Gaspar

 

 

Hergé: Um Monárquico Convicto

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Muitos conhecem Georges Remi somente pelo génio da escrita e do desenho, que lançou ao Mundo a 10 de Janeiro de 1929, Tintim, o herói que o catapultou para o sucesso sem precedentes. Mas o que talvez não saibam é da sua luta e lealdade pelo Rei da Bélgica, Leopoldo III, e acima de tudo pela Monarquia.

Nunca se conheceu o paradeiro do verdadeiro avô de Hergé, o que o fez fantasiar por algum tempo poder tratar-se do próprio Leopoldo II, pois era famoso por ter vários filhos ilegítimos. Quando a sua prima Marie Louise lhe perguntava quem era o avô, ele desviava a conversa, mas por fim respondeu-lhe: “Não te digo quem era o nosso avô porque isso podia subir-te à cabeça”.

Desde o lançamento do primeiro volume de As Aventuras de Tintim, que os Príncipes Balduíno e Alberto recebiam cópias de luxuosa encadernação de todas as obras.

Logo a 14 de Outubro de 1936 o Rei Leopoldo III anunciava que em caso de guerra a Bélgica deveria manter-se neutra, pois se fosse invadida de novo “a luta devastaria o país de uma forma tal que a guerra de 1914-1918 não passaria de um pálido reflexo”. As suas palavras estavam certas, mas o destino foi inevitável. Hergé concorda com a tomada de decisão do Rei, apesar de haver algum descontentamento na opinião pública.

No ano de 1939 é publicado O Ceptro de Ottokar, livro que exalta a Monarquia Constitucional, onde o herói salva o Monarca da Sildávia de uma conspiração com o objectivo de implantar uma república ditatorial. As parecenças do Muskar II, soberano fictício da Sildávia, com o Rei Leopoldo III são visíveis. Esta era a forma de Georges mostrar a sua lealdade com a Casa Real belga, apesar de todas as adversidades.

Quando a II Guerra Mundial estala os quatro principais ministros belgas decidem abandonar o país e partirem para França. Leopoldo III por seu turno não abandona a Bélgica, dizendo que o seu lugar era ao lado do povo. Neste momento era ele que dirigia pessoalmente as operações militares. A 28 de Maio de 1940 o Rei rende-se a Hitler para evitar massacres, ficariam imortais as suas palavras “Não vos abandono no infortúnio que nos atormenta e comprometo-me a velar pelo vosso destino e pelo das vossas famílias. Amanhã começamos a trabalhar com a firme vontade de levantar a pátria das ruinas”. Hergé declararia mais tarde “Penso que nunca existiu nenhum testemunho que me abalasse a minha convicção inicial. (…) O rei teve razão”.

Durante este período Hergé carece de bens de primeira necessidade, por esta razão pede a Adolfo Simões Muller, director do jornal português O Papagaio, seu parceiro desde 1936, que enviasse comida para si e para o seu irmão Paul, que se encontrava prisioneiro na Alemanha. E assim o fez, enviando inúmeras iguarias, café e tabaco. Portugal foi o primeiro país a traduzir e a colorir As Aventuras de Tintim. Curiosamente Adolfo Simões Muller compartilha o mesmo apelido de um dos eternos rivais de Tintim.

Georges só viria a conhecer Leopoldo III em 1948, quando este se encontrava em Prégny, na Suíça. O Rei convida-o para almoçar e recorda com saudade todos os álbuns que lhe foram enviados ao longo de quase duas décadas. A partir desse momento estabeleceu-se uma amizade.

 

Francisco Teles da Gama

 Publicado no Correio Real nº 12 de Janeiro 2016 

O verdadeiro semi-presidencialismo só pode vigorar em monarquia

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Os Integralistas diziam: "o Rei governa, mas não administra". Faziam, pois, coro contra o esvaziamento da faculdade de exercer o mando, atributo dos monarcas, que o Liberalismo havia reduzido à formula de Thiers: "o Rei reina e não governa". Em torno destas definições aparentemente irreconciliáveis, os monárquicos - antes e depois de 1910 - terçaram armas uns contra outros. O argumento do tempo não é certamente o mais impressivo, pois erros e inverdades há que triunfaram e ficaram, havendo verdades inquestionáveis que soçobraram nas tempestades das paixões dos homens. O tempo (a História) disse que as monarquias segundo a fórmula de Thiers prosperaram e que as monarquias de responsabilidade executiva do Rei não sobreviveram. Uma floresta de mal-entendidos.

Afinal, os reis nunca governaram, salvo no chamado período do "absolutismo" (1698-1828) em que os monarcas não mandaram reunir cortes e se socorreram de governos que apenas reportavam ao soberano. Mas estamos, bem entendido, a falar num poder "absoluto" no quadro do Antigo Regime, sinónimo de Estado incipiente e de quase ausência de burocracia, um Estado bem limitado pelos foros e liberdades concelhias, imunidades e regimes legais diferenciados, representação orgânica protegida por regimentos legais. Ou seja, o tal "absolutismo" era pouco mais que nada, salvo no período de Pombal - de facto um ditador - em que o grupo no poder declarou guerra às leis da constituição histórica e aos grupos sociais que maior capacidade reactiva possuiam: a nobreza e o clero, sobretudo a Companhia de Jesus, elite cultural do país.

A monarquia (mono-arquia) nunca existiu, pois os Reis só eram aclamados após juramento solene de obediência a todas as leis do reino e em harmonia com o direito natural. O Rei D. Miguel I foi o último monarca limitado pela constituição histórica e a sua aclamação foi absolutamente legal e legítima do quadro do regime que então vigorava: o da monarquia orgânica. Opine-se o que se quiser a esse respeito, mas a verdade é que tal legitimidade e legalidade foram destruídas pela violência de um grupo político que invadiu militarmente o país, travou guerra e venceu-a. Com a Carta, o sistema representativo atomizado, o fim das corporações, a demolição do municipalismo e o fim dos "homens bons" e demais elites sociais, esse Portugal antigo morreu. Querer ressuscitar o que passou é tarefa impossível. Passou, morreu. Ora, os nossos integralistas, não têm nada mais que oferecer senão a partilha - sempre bem-vinda - de conhecimentos de história institucional, história do Direito e história das ideias políticas. Não se faz política com história. Compreende-se melhor os homens, as sociedades e as crises sabendo história, mas esta é passado.

A monarquia, para aqueles que pugnam pela superioridade da instituição real - "instituição de instituições", como alguém disse - não é sinónimo de "elites tradicionais", "municipalismo", "corporativismo", "representação dos corpos intermédios", "confessionalidade do Estado", etc. Pode ser tudo isso, ou antes, terá sido tudo isso, mas é, sobretudo, caução para a liberdade do Estado e da sociedade, protegendo-os dos partidos e grupos de poder. A monarquia, hoje, teria de ser instaurada e prescindiria de tudo aquilo que não faz parte da paisagem institucional e social do país após quase 200 anos de liberalismo. Há que viver com o tempo e perceber que o Rei pode e deve ser árbitro. Por ser árbitro não pode governar, pois governar implica tomar partido, beneficiar um grupo. O Rei só pode reinar, se por tal se entender permitir que outros exerçam o poder legítimo mandatado por eleições, mas que essa legitimidade democrática não pode ser utilizada para destruir aquilo que é permanente e indiscutível; ou seja, a liberdade e a independência nacionais.

Uma das características enunciadas pelos adeptos da democracia prende-se com a permanente fiscalização dos actos de quem governa. Infelizmente, a democracia menor que temos tratou de se expandir sobre todos os poderes - o legislativo, o executivo, o judicial, e até o poder moderador, que devia, na melhor tradição liberal, residir no chefe do Estado - transformando a democracia numa bela mentira. Nós queremos a monarquia porque queremos a democracia. O Rei não é irresponsável - submete-se às leis e à Constituição - mas não pode ser, apenas, a figura de cúpula do Estado, separado da governação. O Rei deve reinar respeitando o governo, emanação da escolha dos cidadãos representados em parlamento, mas cabe-lhe ser o garante e observador atento de más políticas, abusos e até mentiras, assim como apossamento indevido, enriquecimento e favorecimento de alguns indivíduos ou grupos em benefício próprio e contra o interesse colectivo. Tivéssemos um Rei e muitos dos primeiros-ministros, ministros e outros governantes desta terceira república teriam sido demitidos por corrupção, após auditoria requerida pelo chefe do Estado às instâncias judiciais competentes. Mas não, os presidentes, homens de partido, não o podem fazer, porque são homens saídos de partidos.

O Rei deveria, também, garantir plena igualdade de oportunidades a todos quantos desejassem servir o Estado. Numa Nova Monarquia, caber-lhe-ia confirmar a nomeação dos quadros superiores dirigentes do Estado, depois de proceder à certificação da lisura dos concursos e provas públicas, impedindo a utilização do Estado pelas camarilhas trabalhando para os partidos políticos. Aos funcionários e servidores do Estado não seria autorizado, por colisão de interesses, militar em partidos políticos. Ao libertar o Estado do flagelo da incompetência e do amadorismo inerentes às clientelas partidistas, o funcionalismo do Estado seria emanação de entrega dos mais aptos cidadãos ao serviço do bem-comum. Se o Rei fiscalizasse os concursos para provimento de lugares nas forças armadas e forças de segurança, na diplomacia, nas magistraturas judiciais, nos institutos e fundações dependentes do Estado, nas empresas de capitais públicos, se zelasse pelo regime de incompatibilidades, muito seria corrigido num país entregue a gente desclassificada e incompetente animada pelo mais chão devorismo.

Afinal, o semi-presidencialismo só pode vigorar em monarquia.

Miguel Castelo Branco

Publicado no Correio Real nº 12 de Janeiro 2016 

Troika - e depois do adeus?

O problema é que o sucesso do resgate português deixou um rasto de destruição no que restava da reputação do regime e das suas instituições. E para ganhar um balão de oxigénio o regime necessita da imolação dum cordeiro, leia-se dos executantes do programa da Troika: o pouco provável descalabro da Aliança Portugal nas eleições europeias. Um fenómeno explicável pelo o vazio estético e mediocridade intelectual que reflectem os movimentos e protagonistas alternativos, que não conseguem aproveitar a fragilidade das instituições e do modelo partidário agonizante. É do seu interior que, numa despudorada cacofonia esquizofrénica, surgem as vozes das desgastadas elites que por mais que estrebuchem não conseguem emergir da lama – Capuchos, Marcelos e quejandos - mais do mesmo como é fácil concluir. Dado como certo, é a crise moral que emergiu do ajustamento financeiro que se apresenta como uma oportunidade de remissão. Para uma profunda reforma do regime, que tarda. 

Ainda se pode evitar a ditadura que chega

Aqui tenho dito e repetido vezes sem conta: Portugal tem uma solução alternativa clara ao regime que nos trouxe à humilhação, à fome e à insignificância; Portugal tem os meios de que necessita para regressar de cabeça erguida ao concerto das nações; não precisamos de teorizar nem de think tanks do rotundo intelectualismo; nada há a pensar fora das coordenadas daquelas que foram, desde sempre, as constantes e linhas de acção e sentimento da nação portuguesa. Para quem, minimamente habilitado e experiente na análise histórica, se atrever perder o medo, a resposta é muito simples, tão simples que surge como uma evidência: monarquia. 
Persistem uns quantos retardatários em pedir calma e paciência, contando com uma menos que provável recuperação do sonho Europeu, sonho que não passa disso: ilusão. A Europa tábua-de-salvação, a Europa maná e cornucópia, essa morreu há dois ou três anos. De agora em diante, vingança das nações, será cada um por si. A fórmula europeia já não se discute, pois a Europa contra as nações, descerebrada, envergonhada de si, a que perdeu o orgulho e se refugiou na reforma dourada da velhice cobarde - pronta a tudo ceder e mutilar-se a vergonhosos extremos de humilhação - essa acabará dentro de dois ou três anos. Ou não viram, meus caros amigos, como cheios de cautelas, nos estão já a preparar para o triunfo de Marine Le Pen em França, para o triunfo das direitas nacionalistas nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, para a mais que certa saída do Reino Unido da União, a tal que de união só leva o nome ?
Ainda há tempo. Ao ler a clarividente entrevista de SAR o Senhor Duarte a um jornal de Macau, no decurso de uma viagem que está a realizar pelo Extremo-Oriente - fazendo o que os nossos pobres diplomatas não sabem, não querem nem podem fazer - só me posso perguntar:
- Por que raio mantêm os donos do país o espesso manto da censura, a sistemática desinformação, o escamoteamento da evidência em torno da questão de uma mudança de regime que tornasse possível garantir a liberdade, sabendo que ao fatídico e já irreversível colapso desta III República sucederá uma ditadura?
Miguel Castelo Branco in Combustões

Uma estratégia que preserve a esperança

No dia de mais um aniversário da “república”, convém relembrar que a chefia de Estado real, como provam as velhas monarquias constitucionais europeias, em situações de crise politica ou económica opera com extraordinária eficácia como factor de equilíbrio e elemento aglutinador. 

Dito isto, estou convicto que o aproveitamento do descontentamento popular e das fragilidades de um País sob resgate financeiro e sob forte ameaça de desagregação social com vista à afirmação do ideário monárquico parece-me um grave erro. Foi esse o modelo de intervenção dos republicanos nos anos que antecederam o 5 de Outubro: de uma forma impiedosa, numa política de terra queimada, de “quanto pior melhor”, todas as ignomínias foram utilizadas para denegrir a Chefia de Estado e o regime constitucional monárquico: a intriga permanente, a violência verbal e a calúnia, o assassinato político, o golpismo e o facciosismo deram frutos em 1908. Depois, o sucesso da “república” apenas foi possível à custa dum País profundamente fracturado e deprimido, e com a imposição duma continuada repressão e violência sobre os portugueses. Os reflexos desse trágico período condicionaram a nossa História até aos dias de Hoje.
Acontece que a agenda dos monárquicos militantes é de facto mais difícil de afirmar nestes tempos de desagregação, empobrecimento, mágoa e revolta que vivemos; quando a demagogia apela à irracionalidade e a uma intolerante agenda igualitária que invoca os instintos mais primários. Tanto mais que o regime monárquico para ser eficaz, exige uma Nação com auto-estima e um Estado com instituições credíveis, factores intrinsecamente orgânicos, porque emergentes do Povo de que procedem. 
A militância Realista é, por tudo o que referi, um trabalho de longo prazo. Uma exigente maratona de persistência, paciência e inteligência. Porque só após edificada a monarquia, reflectida na solidez das instituições democráticas da Nação, faz sentido chamar o Rei.

 

Publicado Sábado no jornal i 

Rui Moreira em entrevista ao Correio Real em 2012

 

 

Na sequência dos resultados eleitorais de ontem da lista independente para a Câmara Municipal do Porto, é com gosto que recordamos a entrevista a Rui Moreira feita a há pouco mais de um ano para o Correio Real nº 8.

 

Conhecida figura dos meios empresariais e associativos,

com forte intervenção pública, Rui Moreira é monárquico de longa data,

defendendo que o nosso movimento deve estar mais em sintonia com o sentir actual das populações

 

 

Uma pequena nota biográfica...

Nasci no Porto há 55 anos, estudei no Colégio Alemão e depois no ensino público, no Liceu Dom Manuel II, que era um excelente liceu, e depois no Liceu Garcia de Orta. Coincidindo com o 25 de Abril, logo a seguir fui para Londres, onde me licenciei em Gestão pela Universidade de Greenwich. Andei pela Europa, vivi algum tempo na Noruega e na Alemanha e vim para Portugal em 78e fiquei com um dos negócios tradicionais da família. Fiz a minha vida a partir dessa empresa, até que em 1991 resolvi vendê-la e trabalhar noutras coisas. Desde então, dedico-me à vida associativa, escrevo, faço televisão, enfim, faço aquilo de que gosto. Como vendi bem a empresa, isso permitiu-me alguma liberdade. Tenho dois filhos, um deles estudou em Cambridge, o outro estuda em Milão, na Bocconi. Faço parte de uma família tradicional do Porto, mas com ligações a Lisboa. O meu avô materno, José Luís Brandão de Carvalho, que muito me influenciou, era de Lisboa, monárquico, do Belenenses e foi uma pessoa que nos inspirou muito, tinha uma visão extraordinária da vida, das relações humanas e também das tradições, daquilo que nós temos de bom em Portugal e que tantas vezes esquecemos. Por outro lado, tenho o exemplo do meu pai, uma pessoa absolutamente inovadora, um visionário na área da indústria, que viajava pelo mundo numa altura em que os portugueses tinham quase medo de o fazer...

 

Como é que se começou a interessar pela parte política monárquica?

Em primeiro lugar, pelo meu avô materno. Esse resíduo de infância fica sempre, os valores. Uma ética diferente da que se vivia já então nas ruas. Apesar de ele ter morrido cedo, nos anos 60, era uma pessoa que apelava a esses valores. Depois, o facto de ter vivido em Inglaterra e, principalmente, na Noruega, que considero uma monarquia perfeita, contribuiu para me tornar monárquico. Percebi na Noruega que sendo um país que já na altura era extraordinariamente avançado nos usos e costumes e tudo mais, convivia muito bem com uma monarquia constitucional, que as pessoas admiram, não contestam, que é um símbolo do país, um símbolo de unidade. Lembro-me de encontrar os monarcas, ao contrário dos ingleses, que vivem distantes do seu povo, a passear os cães no mesmo passeio que eu atravessava para ir trabalhar. Isso impressionou-me muito. Confirmava que era possível ter uma monarquia avançada, desenvolvida, e conviver com ideias diferentes. Há pessoas com ideias muito diferentes, desde nacionalistas fanáticos até uma esquerda libertária, mas todos têm um enorme respeito pelos monarcas e pelo que eles representam. Não lhes passa pela cabeça contestar a monarquia.

 

Também em termos de sociedade, costumes, há uma ideia em Portugal de que os monárquicos são conservadores, rígidos, protocolares...

Eu julgo que aí a culpa está dos dois lados. É verdade que em Portugal há uma corrente republicana que tenta colar os monárquicos a essa imagem do passado, acho também que há alguns dos monárquicos que pecam por vestirem essa carapuça e por vezes defenderem questões que pouco ou nada têm a ver com a monarquia. Evidentemente que as tradições são muito importantes, mas nós não podemos virar as costas aos movimentos e à sensibilidade das pessoas. Incomoda muito ouvir discursos que nos tentam colar a uma visão reaccionária. Não tem a ver com ser de direita ou esquerda, é reaccionária porque vai contra aquilo que é a sensibilidade das populações. A sociedade evoluiu muito, e rapidamente, e não nos cabe a nós, monárquicos, fazer julgamentos sobre esses valores. Esses julgamentos afugentam muito as pessoas.

 

Tivemos agora o Jubileu da Rainha Isabel II com toda aquela grandiosidade, eloquência e protocolo, mas contrapõe uma monarquia que parece primar até por uma certa discrição em termos de mediatismo...

Eu gosto mais de uma monarquia com menos pompa. À volta da monarquia inglesa há uma enorme máquina publicitária, que funciona muito bem. Eu respeito isso, mas tendencialmente gosto mais das monarquias continentais como a holandesa, a belga ou as escandinavas, porque têm uma visão mais terra a terra, de maior proximidade com as pessoas, que é exemplar na forma como se comportam, como reagem com os seus súbditos. E sem querer ser insultuoso, nessas monarquias é tudo um bocadinho menos folclórico do que aquilo que há à volta da família real britânica. Mas também se percebe que em Inglaterra seja assim, não nos podemos esquecer que esta foi a rainha que assistiu à descolonização. E quando se pensava que isso podia pôr em risco o espírito monárquico britânico, eles viraram isso com uma máquina de comunicação e publicitária muito forte e, nesse aspecto, fizeram bem. Mas não me parece ser esse o caminho que se identifica connosco, nem acho que devamos seguir por aí, porque nós, de facto, somos diferentes. Muitas vezes tendemos a achar que somos mais parecidos com os ingleses do que de facto somos.

 

Não acha que os portugueses apreciam também uma certa distanciação da parte de quem tem poder?

Acho que não. Basta ver a relação que os portugueses, sobretudo os mais humildes, têm com o Senhor Dom Duarte, que, se repararem, tem uma relação extraordinária com as pessoas com quem se encontra na rua. Os portugueses apreciam muito isso, o ele ser uma pessoa em quem se podem rever.

 

O verdadeiro primus inter pares?

primus inter pares. O rei liberal que se envolveu em causas como Timor, que se envolve em causas como a agricultura. Os portugueses apreciam muito isso. Nós não devemos alterar essa relação entre a nossa Casa Real e os portugueses. Acho que não devemos fazer disto uma coisa com pompa e circunstância, principalmente nos tempos actuais. É evidente que se não tivesse havido o 5 de Outubro, se calhar nós poderíamos ter desenvolvido a monarquia de outra maneira. Mas hoje a relação é diferente e aproxima-se muito mais daquilo que são as monarquias continentais.

 

Gostaríamos que falasse da sua visão estratégica para o país, das causas que defende, nomeadamente nos transportes.

Portugal só vale para fora de si. Nós não valemos para dentro de nós. Há países continentais como a Alemanha, a França ou a Espanha que podem viver para dentro de si, nós não. Essa tem sido, ao longo dos séculos, a nossa realidade. Só fomos grandes quando fomos capazes de olhar para fora de nós mesmos. Acho que nos últimos anos, o que aconteceu com a descolonização, com a adesão à União Europeia e com o eldorado desta adesão, foi que de repente esquecemos essa raiz e tentámos transformar-nos num país continental. E eu diria malgré-nous, porque temos uma enorme diáspora, que de alguma maneira justificaria que lhe déssemos outra atenção.

 

Mas o que é isso de uma estratégia para Portugal?

A questão fundamental do conceito de estratégia tem a ver com o seguinte: não vale muito a pena reclamarmos por causa da nossa posição geoestratégica no mundo. Tenho vindo a interessar-me por questões como a ferroviária, aeroportuária, a questão do mar, etc., e verifico que nós não temos sido capazes de compreender a nossa nova territorialidade, depois da descolonização. Prova disso é que, sendo um país que subitamente está reduzido a 90 mil quilómetros quadrados, estamos a fazer a hiperconcentração do país em dois pólos, Lisboa e Porto, ou até só num, porque acho que há uma hipercapitalidade em Portugal, o que é dramático para o país. É dramático até para Lisboa. E os piores centralistas não são os lisboetas, pelo contrário.

 

Como é que se contraria isso?

Essa hipercapitalidade tem de ser contrariada através de medidas políticas de desenvolvimento. Acho que estamos a desperdiçar o nosso território, no interior só vivem os velhos e os desvalidos. Nem temos sido capazes de compreender como se chega a essa Europa querida, que nós queremos. Veja-se a nossa política em termos de transportes marítimos em que não fomos capazes de construir uma frota mercante. Em que não somos capazes de ter uma coerência em relação às questões de caminho-de-ferro, em que devíamos ter negociado com Espanha doutra forma.

 

 Defende também transportes ferroviários para nos ligar à Europa...

 

Quando olhamos para as nossas regiões verificamos que há duas regiões plano que têm, em termos de balança comercial, superavit: o Centro e o Norte. Curiosamente o Centro tem até um superavit ligeiramente superior ao do Norte, por causa da região de Águeda e Aveiro. Ou seja, as nossas exportações concentram-se, a não ser na pasta de papel e nos automóveis, por causa da Autoeuropa, maioritariamente na zona Centro e na zona norte do país. Logo, aquilo que seria óbvio na via-férrea seria nós investirmos na linha da Beira Alta. Para mim, o único desígnio estratégico possível é termos um pipeline, ou seja, se nós sabemos que as nossas mercadorias não podem chegar ao centro da Europa, ou dificilmente chegam, por via marítima por causa dos países continentais, se sabemos que a rodovia está condenada a prazo por causa das questões ambientais e das questões energéticas, então o que precisaríamos era de um pipeline que levasse as nossas mercadorias ao centro da Europa.

 

Esse pipeline é a via-férrea…

Aquilo que eu defendo é a aposta na linha da Beira Alta, com uma ligação pelo norte de Madrid à Europa. E depois nós temos um porto seco ideal, que é Aveiro. Está exactamente na confluência entre a zona Norte e a zona Centro e ainda por cima pode ser servida pela linha do norte que existe e que poderia descarregar ali mercadoria.

 

Voltando ao tema da monarquia, qual é, no seu modo de ver, a garantia de sustentabilidade da Causa Real?

Em primeiro lugar, diria que o relógio da história nos é benéfico. Acho que as celebrações do centenário da República foram extraordinariamente importantes para nós, porque, de repente, se desmistificou a I República. Havia uma ideia poética do que tinha sido a I República, mas os mais atentos já perceberam que foi um tempo de insurreição permanente. Sobre a II República, toda a gente tem as suas convicções e a generalidade tem convicções negativas. A III República está no estado em que está e portanto, hoje em dia, os portugueses muito dificilmente se identificam com a Constituição.

 

Acha a nossa Constituição ideológica?

Não e não me agride muito o facto de ter um preâmbulo ideológico, que é um mero um vestígio de uns dinossauros. Acho é que é programática. O que vemos hoje é que as pessoas se estão a afastar dos partidos. Ou seja, a democracia representativa, tal como nós a entendemos está posta em causa, o que abre uma nova perspectiva. E, pela primeira vez desde o 25 de Abril, a figura do Presidente da República é fortemente contestada por sectores à direita e à esquerda. Tradicionalmente, o Presidente da República era mais ou menos consensual. Quando não era, como normalmente vinha da esquerda, o povo de esquerda dizia que era o presidente de todos os portugueses. Já de si, esta necessidade de evocar isto convém ao nosso ideal monárquico. Se de facto um presidente tem de reclamar que é o presidente de todos os portugueses é porque, no fundo, quer adquirir a tolerância que todos nós já teríamos se ele fosse rei. Nós, os monárquicos, temos um conjunto de virtudes e de vantagens que temos de ser capazes de trabalhar, mas é um caminho longo, geracional, uma maratona.  

Como é que podemos começar a traçar este caminho?

Temos que aprender a não ser programáticos. Porque os monárquicos têm sido programáticos e assim não podemos condenar a república por ser programática. Se vamos para causas morais e éticas e tomamos partido, as pessoas não vão passar a ser monárquicas por nós estarmos do lado delas. Ao mesmo tempo, estamos a afastar uma série de pessoas que tem visões diferentes. Porque a sociedade evoluiu, porque a moral evoluiu e portanto cada um de nós deve ter direito aos seus princípios morais, que devem ser respeitados.

 

Qual o papel das Reais Associações na tal maratona que é preciso correr?

É importante que existam e que cada uma funcione como um núcleo com autonomia. Mas temo sempre, e não estou a apontar o dedo a ninguém, que se vá excessivamente pela pompa e pelo tal espírito programático, do género, “aquela pessoa é a favor do aborto então não pode ser monárquica”. Isto não pode ser. Eu estou particularmente à vontade porque não sou a favor do aborto, mas acho que tentar confundir as coisas é terrível. Ou seja, se queremos voltar à monarquia através do tradicionalismo, é uma guerra perdida e não contarão comigo porque não é esse o sentimento das pessoas. Nós devíamos estar a discutir coisas importantes como o que é a essência da Europa. Até porque vamos precisar de uma nova Constituição europeia, porque já se percebeu que aquilo que foi feito estava mal feito. Voltar a falar nos valores da cultura, no que são os pilares da civilização europeia, perceber que tem três raízes: Roma, Atenas e Jerusalém, por esta ordem. Numa federação europeia, é preciso a simbologia e esta vem da nossa história. Se formos capazes de explicar isso, as pessoas entendem e as futuras gerações entenderão o valor da monarquia enquanto um dos pilares daquilo que é um Estado Nação, com as suas origens e a sua história, e que tem as suas tradições e que as quer guardar.

 

Ser monárquico trouxe-lhe dificuldades?

Há sempre uma tentativa de ridicularizar, mas as pessoas que são do Porto estão habituadas, eu convivo bem com isso. Às vezes, avisam-me: “se você tem aspirações políticas, não se meta nisso!”. Outras vezes, vêm tentar discutir o sangue azul, mas eu não discuto esse género de coisas.

 

Duarte Calvão com João Távora, Maio de 2012 

 

A Real Associação de Lisboa é uma estrutura regional integrante da Causa Real, o movimento monárquico de âmbito nacional. Esta é uma associação que visa a divulgação, promoção e defesa da monarquia e da Instituição Real corporizada na Coroa Portuguesa, cujos direitos dinásticos estão na pessoa do Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e em quem legitimamente lhe vier a suceder. Cabe a esta associação a prossecução de iniciativas e de projectos de interesse cultural, social, assistencial e de solidariedade que visem a dignificação, a valorização e o desenvolvimento dos seus associados e da comunidade em que se insere.

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